22.11.18

corvos


corvos. 
animais prenuncio de tempestade,
sonhos, desejos, vontade.

estradas apagadas e luzes interminaveis
tudo é confuso dentro do olho do furacão
são paredes que se demoronam
só de as olhar.

sinto-me como se tivesse perdido tudo
o que nunca tive para que o perdesse;
uma puta a quem nunca pagaram no fim do acto;
um aleijado sem qualquer defeito,
e ainda assim condenado a pedir na rua;
um padre sem fé e um pecador arrependido.

ergo montanhas de poemas,
faço um monumento em palavras
que suba até ao céu! 
e que diga ao mundo que existir depois de mim
"eu estive aqui".

corvos dançando no céu
chove o medo deles sobre o meu
e cobre-o carinhosamente
como uma mãe tapando o filho no inverno.

ruínas,
decadentes ruínas!
a toda a volta caiu o mundo
e eu esqueci-me de cair com ele
e vou deixando-me deslizar tempo adentro
lentamente,
rebentado pelas costuras,
explodindo! 
EM FARRA E PARRA E BERRO
berro às nuvens
berro às pedras
berro ao mundo:
PORQUE NÃO POSSO SER EU, EU?!
porque tenho de desaparecer,
não quero desaparecer,
quero ficar aqui,
para sempre neste lugar entre o teu braço e o teu peito
para sempre aqui
confortavel
sem que exista um lá fora 
ou sequer um cá dentro
só o teu braço em volta de mim
o teu cheiro nas minhas narinas
e o toque do teu cabelo na bochecha
FARTO-ME DE TUDO
mas farto-me mais ainda de mim
da sombra que projecto no chão
da marca dos meus pés molhados 
no chão da casa de banho.

das linhas que escrevo para que se percam.

corvos, sempre os corvos
arautos do fim e da tempestade.

24.10.18

todas as manhãs

e a existência torna-se uma tira de tédio
pontilhada de pequenas explosões de raiva
um corredor sem fim
portas de felicidade trancadas, espalhadas.

as janelas dão para coisa nenhuma
e no entanto postro-me nelas
fumando esparsamente
uma anêmica mistura doente de poesia
e hipocrisia

não há chaves,
não há saídas,
não há aspirina para a dor de cabeça
que nasce na mente

sou apenas tão irreal como todos os outros
mas sinto-me menos ainda
que aqueles que mortos já não sofrem

inteiras Babilônias e Atlântidas
(é sempre esdrúxula a civilização morta)
nascem e morrem em cada segundo do meu ser
crescem e caiem num inspirar
as suas ruínas cheias de areia
são tudo o que me resta para ver.

espero.

não conheço meta alguma para esta corrida
mas não me aceito parado,
não me aceito voltando atrás,
não me aceito desistindo,
se futuro houver, será à frente que ele está

dói-me o corpo, rimando ele assim com a alma,
de certo modo parece-me bem,
se não sentisse o mesmo por fora
como saberia que o sinto mesmo cá dentro?

aguento, a fita chegará ao fim,
se antes ou depois de mim
cabe aos deuses saber.

7.10.18

suéca

numa praça árabe explode alguém
bazar de sangue e tripas pelo ar

e Deus, num café, jogando as cartas

numa casa de banho pública
uma criança chupa a pila a um velho
em troca de rebuçados

e Deus, num café, joga as cartas

numa esquina escura esfaqueiam
alegres e sorridentes
uma velhota daquelas fofas e inocentes

um marido bate na mulher
e sai para ir às putas foder

num bar cheio de fumo
jovens anarquistas planeiam
"plantar bombas em igrejas!
 disparar bazookas sobre procissões!
 veneno! numa fábrica de Coca-Cola!"

e, num café qualquer, Deus joga as cartas

na parte escondida de um recreio
crianças espancam crianças,
"és gordo caixa de óculos,
 mereces morrer!"

um patrão chama a secretária
para lhe enfiar a mão na cona
enquanto ameaça despedir-la

um frustrado condutor de autocarro
passa mesmo sobre a poça de chuva
e acelera
encharcando quem por ele esperava

e Deus, num café, jogando as cartas

nos banheiros os presos fazem fila
para violar quem acabou de chegar
o guarda, de costas na porta, filma,
à noite terá material para se masturbar
depois da mulher se ir deitar

e jogando as cartas num café Deus está

o dono de uma cadeia de restaurantes
sorrindo ao ver quanto lucro mais terá
quando começar a cozinhar carne podre
nos seus famosos hamburgers

um madeireiro pega fogo a uma floresta
e foge dali para receber o dinheiro do seguro

e Deus num café a jogar as cartas

27.6.18

o rei poeta apaixonara-se pelo deserto
pelo sol inclemente descendo sobre as dunas
e pelo brilho das estrelas sobre o negro mar
de areia

sobre um camelo
procurando um oásis,
uma pausa abençoada,
da desolação por si amada

o rei poeta declama,
enterrado até à cintura na areia quente,
canta ao seu deus
agradecendo a benção dos djinns
e os tormentos por eles infligidos

o rei poeta adormece
numa tenda que parece flutuante
garridas cores frescas esvoaçando
em bandeiras estreladas

o rei poeta sonha
com estradas e carros
prédios e fábricas
multidões negras de passo apressado
e ao acordar

o rei poeta apaixona-se
de novo
pelo deserto
pelos cavalos e as tendas
pela areia sem fim
que ondula como água
até onde os olhos vêem

o rei poeta não acorda,
dorme para sempre.

14.6.18

outras tabacarias

fui, num instante, ao café de esquina
e voltei.
comprei tabaco e ao regressar
tinha atravessado o universo,
visto todas as estrelas,
invisíveis sobre a luz dos candeeiros,
escrito novos nomes para constelações
apaixonado por galáxias que já esqueci
antes de chegar à soleira da porta,
nesse salto de uma rua até à esquina
fui tudo o que foram outros antes de mim,
de Faraó a César a Czar passando,
ainda que brevemente,
por camponês e rei,
príncipe e bela donzela,
as pedras dos seus castelos,
o mármore que revestiu as pirâmides
e o escaravelho de ouro correndo sobre o sarcófago

não comprei o tabaco,
não voltarei a fazê-lo,
sou o universo que por momentos fui
e em mim há todos os cigarros do mundo.

26.4.18

sou, sofro


e sou eu todo o sofrimento do mundo
e pesam sobre mim, como sobre mais ninguém,
todas a cruzes que todas as pessoas carregam
em mim acaba tudo
no meu sorriso existe toda a dor,
na minha mão está a caneta que escreve
,de cliché sofrido em cliché sofrido,
todos os diários de adolescentes incompreendidos
todos os blogs de má poesia sentimental
todas as notas passivo-agressivas deixadas
coladas
num espelho qualquer

receptáculo da dor e dos sofrimentos,
pequena caixa de pungentes dores,
cinzeiro onde se apagam as chamas de cigarros
charros enrolados em tristeza 
e na pureza (que não há sentimento mais puro que a dor)
e em mim caiem as cinzas e apagam-se as beatas.

De meus olhos caiem todas as lágrimas 
derramadas em catarata por raparigas privadas de amor
de rapazes impotentes 
de revolucionários encarcerados para a vida
de pianistas quer perderam as mãos
de políticos sem voz e poetas sem rimas.

sou a charneca onde acabam todas as ruas felizes
numa praceta de trevas e toda a sujidade de se ser homem
sou uma travessa entre duas avenidas
e nenhuma das duas é casa para mim

sou toda a duvida,
uma questão sem fim e sem mim
um jardim
onde as flores murcharam e a relva está seca
sou uma pergunta sem resposta
e uma resposta sem qualquer pergunta que a mereça
a interrogação que fica depois de cada fim
e a que fica quando nada acaba.

sou a luz que não pisca do telefone móvel
de todos os que se sentem sozinhos
e o peso dos cornos de todos os encornados.

as lágrimas caiem dentro de mim,
sinto-as batendo no coração ao escorrerem 
perdidas para o chão, junto ao mijo que me molha os pés
o cheiro sobe-me pelas pernas acima
e enfia-se no meu nariz:
sou agora também a poça de urina de uma qualquer cão.

dejá-vú, dejá-sentido,
e o estômago, contraído,
e o buraco onde devia estar quente o coração
um poço frígido
uma valeta à beira da emoção
congelado deixo o tempo passar
e voltarei a ser todos os sofrimentos
quando os ponteiros voltarem a andar.

25.4.18

há sempre dúvida na alma de um poeta



é à sombra do ponto de interrogação
que o poeta escreve
é carregando em si milhares de respostas
, todas certas, todas erradas,
que o poeta escreve
é em todas as palavras que não consegue dizer
que encontra, o poeta, o que escrever

sem esse buraco negro na alma
que tudo puxa para dentro de si
não existe o big bang da criação
e a luz de um poeta
brilha apenas tão forte
como é funda a sua dúvida

não é nos lírios do campo
nem em verdejantes prados
que o poeta escreve,
mas sim nas ruínas destruídas
das catedrais erguidas em certezas
 desmoronadas

21.3.18

disiecti membra poetae


(a)
na felicidade não existem palavras
sem o peso negro da incerteza e tristeza
ninguém escreve.
(b)
somos sombra e poeira,
lixo empilhado a um canto da existência,
um caixote de brinquedos
numa casa que há muito os filhos abandonaram
(c)
se o tempo é uma serpente,
uma cobra capelo que me morde o pelo,
e as horas as escamas que dela caem 
e ambas as pontas da língua que dela saem 
me lambem o pulso onde não uso relógio,
sou hamster na sua boca, 
rato de laboratório criado para a alimentar
e em cada passo que dou me aproximo do queijo
ou do beijo
de um minotauro, relíquia dinossauro da antiguidade
e eu que sem idade certa
(como se pede de um fetiche sagrado místico)
aqui deambulo a fugir de uma serpente contente!
(d)
e se eu morrer,
a minha casa ruirá 
os meus livros serão pó
e as palavras que escrevi, ferro em pedra,
ilegíveis para sempre 
(e)
Tudo é lixo.
O mundo arde nas chamas da ganância cega
sonhos esfumam-se e morrem às mãos do dinheiro
Já viste bem a merda de mundo que herdamos?
As esperanças que nos foram prometidas,
aquele futuro lindo com automóveis voadores 
e auto-aspiradores, auto-trabalhadores,
onde dormimos à sombra de árvores de metal
ONDE ESTÁ O CARALHO DO MEU ROBÔ PESSOAL?!
(f)
procuro o meu zen num oceano de profanidades
berro, dentro, só dentro de mim, grito, esperneio
ODEIO TUDO! porque tudo é efémero e acaba um dia
e o medo do fim tira de mim o aproveitar do agora
(g)
bin laden da emoção! 
terrorista alfarrabista de textos sagrados
que escrevo sentado num trono de porcelana 
horas roubadas ao trabalhar e depositadas 
na paz de cagar
(h)
chove.
nunca irá parar de chover, aqui,
onde o céu é sempre cinzento,
onde as horas são apenas o passar dos minutos
e o cair das gotas nas chapas de metal a que chamo tecto.
Longe,
está sempre longe, tão longe de mim o fim do tempo.
(i)
cancelado.
tudo cancelado:
o futuro e até o passado,
o que está a frente e 
o que está do lado,
tudo cancelado.
o portão fechado,
o porteiro calado,
olhando com ares de mal amado
e indisfarçado agrado
de poder dizer "TUDO CANCELADO!"
Tudo revogado,
ou na melhor das hipóteses, adiado
ou pior, antecipado
para antes de ter sido anunciado
(j)
Fogo. Rios de fogo e chamas 
camas
que ardem de paixão
tesão
morta na palma de uma mão
peles
vermelhas de tanta porrada
reles
esta gente gentalha deslavada
que morre a beira de uma estrada
em que não têm nada
nem razão nem direito
para existir!
(k)
apagar uma só letra do meu nome é matar quem sou
(l)
a segunda-feira hoje pesa-me como se ressaca
(m)
e nestes dias em que sou uma pausa
entre o que fui e o que serei
será que sou?
(n)
todas as tragédias do mundo são minhas
para que as carregue as costas, qual cruz
e quando nada, nem o sol, me dá luz
só o sorriso que me espreita ao fundo do túnel
me serve de locomotiva (executiva, privativa)
(o)
um dilúvio de alcatrão sobre portugal,
deus faz rios, o homem estradas faz
e outras coisas, feias, feias e más
(p)
um fodasse, 
um dedo do meio elevado
,e apontado!,
à cara da realidade existente
um "vai-te foder"
enfiado bem fundo na peida gulosa do capitalismo!
(q)
e no silencio tudo é incerto.
(r)
numa prisão de azulejo e mármores
fugi do existir 
e deixei-me ficar a contemplar
os ponteiros correndo sobre a face inexpressiva
de um relógio de parede que não está lá
(s)
ai que tudo em mim são contraditórios,
ai que em mim tudo é verdade absoluta
(t)
fumar, respirar, fumar
(u)
odeia 
como quem come a última batata do pacote
(v)
estou botânicamente zen
é verde e cor-de-vinho esta paz
(w)
em queda como um anjo do Céu
em queda como um anjo rumo ao Inferno
as minhas palavras ruindo,
e os meus poemas serão Ur e Akkadia,
esquecidos na areia seca do deserto
serei não mais do que o reflexo de uma árvore
no espelho retrovisor de uma mota que passa
voando sobre o negro asfalto 
uma mancha de sangue na pureza imaculada
de um vestido de noiva
uma beata na água suja da sarjeta
(x)
a meio caminho da eternidade
perdida numa qualquer cidade
há uma curiosa perplexidade
uma janela sem tecto ou paredes
(y)
fragmentos,
estilhaços de um poema que rebentou como uma granada
e se enfiaram fundo na minha cabeça
e agora tento desenhar a granada como ela era
e só me sai um ovo, de galinha, com espinha.
(z)
pendent opera interrupta

27.2.18

O culto do ter!

És apenas tão grande quanto o ecrã da tua televisão,
És apenas tão forte quanto a cilindrada do teu carro,
És apenas tão alto como o volume da tua aparelhagem,
Tão inteligente como o processador do teu telemóvel,
Tão belo quanto é caro o preço das tuas camisas.

O amor mede-se no tamanho do ramo de rosas raras,
Tão mais forte quantos os quilates do diamante no anel
Será o casamento.

A eternidade compra-se numa joelharia de prestigio,
A beleza numa boutique na avenida da liberdade,
O prazer numa embalagem de preservativos com sabor,
de lubrificante retardante de efeito aquecedor.

Tudo se pode comprar,
tudo se deve comprar!
Numa loja ou na internet,
cartão de débito, crédito, pontos numa perfumaria
para cheirar ao sucesso,

Pratica ténis, adorna o teu pénis com jóias,
Faz squash e não fumes hash, dá-lhe na cocaína,
Droga reputável e de gente fina!

Trezentos e o caralho canais de televisão,
Se não tens mulher, há pornografia,
Vai dar ao mesmo no fim do dia.

Bebe whisky de vinte anos, responsavelmente
Que amanhã trabalhas novamente.

Compra, têm, deseja,
Trabalha, sua, ganha,
Compra, tem, deseja,
Trabalha, sua, ganha.

A felicidade vêm embalada numa caixa de cartão
Acolchoada em esferovite às bolinhas,
diz: "quero que todas as coisas boas sejam minhas!"
e corre ao banco a pedir novo empréstimo:
Está para sair mais um topo de gama telefone, televisão
tele-porra-qualquer só importa que seja caro, raro!

A tua carteira é um altar ao cartão de crédito
O livro de cheques a bíblia que juraste seguir
e os caixas de supermercado os padres a quem confessas
o teu pecado.

Lava os dentes! Colgate branqueadora total,
para o sorriso de estrela de cinema!
Toma os comprimidos! Anti-depressivos, anti-stress,
vitaminas e proteínas e anti-celulite e o resto
Esfrega a pele com creme anti-rugas, alisador, renovador
Mete laca e brilhantina no cabelo,
usa a nova Gilette dez lâminas para rapar esse pelo,
lentes de contacto para o social e óculos Gucci bifocal
para no trabalho não veres mal 

Usa, Compra, Consome e no fim deita fora, amanhã
compras um novo e melhorado.



26.2.18

Abecedário III

Absurdo sou-me, absoluto o abraço do antes
Barreira que brincando ergui em blocos e
Colapso-me contorcido em constante cronofagia
Devorando minutos como um deus pré-diluvial
Estendo-me, esticando este estremecer em éter
Falharei uma vez mais, fácil é fazer e não ficar
Grande é quem não gosta e goza do prazer
Hipócrita, hipopótamo do pensar histórico
Infeliz. Informe. Ignorante do que conheço e desejo,
Jaz a meus pés o jantar das musas famintas
Lá, onde larguei um dia o lastro emocional
Mutilado e amarrotado num chão sujo
Nasci.
Ontem foi o dia em que morri,
Penso todas as madrugadas pesadas
Querendo apenas querer algo que queira
Resigno-me a regrugitar raparigas,
Sem sequer lhes decorar o nome,
Tentando fingir que tenho capacidade em mim,
Ultraje só pensar-lo! Para amar.
Vivo, nada mais posso fazer mas finjo-me
Xã da Pérsia e trepo ao topo de um
Zigurate para dele me atirar.

Abraço a queda,
Braços esticados tentando agarrar o ar,
Cair é tudo o que me resta,
Depois do que fui, nada sou
E!
Fútil, fraco, faço o som de uma
Gadanha a comer o trigo,
Hoje serei mancha no chão,
Infectando o branco da calçada com o sangue,
Jade vermelho que escorre sem parar,
Lavando o passeio do pecado,
Manchando o trabalho do calceteiro
Nesta minha néscia, ignóbil, tentativa de me
Olvidar, ocultar de tudo,
Perecer e perder-me da luz diurna
Que me arde nos olhos,
Rasgando a minha alma,
Sugando de mim
Tudo quanto sou, tudo o que serei,
Uma pausa, peço
Vêm até mim, paz eterna,
Xuta-me nos tomates até eu desmaiar e este
Zumbir se calar!

Acordo.
Beleza adormecida a meu lado,
Cadela a meus pés,
Dia nascente lá fora,
Estrelas ainda no céu,
Fogo entre as suas pernas,
Ganza meio fumada junto ao cinzeiro,
Hercúlea tesão no meu caralho,
Imbecil sorriso em meus lábios,
Já se apaga em mim o pesadelo,
Largo as sombras que me enchem,
Mexo, levemente, na quente cona dela
Não a acordo ainda,
Orgulhoso, opulento
Pulo para cima do corpo adormecido,
Quero que ela gema, se venha,
Rasgo-lhe a roupa interior,
Sem dó, sem piedade,
Todo eu, erecto, entro nela,
Uiva, digo-lhe como um bom dia,
Vêm-te, ordeno-lhe senhoril,
Xilofonando-lhe as mamas com a boca,
Zeloso guardião de seu prazer

Adormeço, meu corpo sobre o seu,
Banhados pela esporra quente,
Como cães com o cio,
Deixo que o hoje se esfume,
Esqueço até que fodi,
Finalmente em paz,
Gozo o descanso vendo-me
Herói do sexo,
Imperador do prazer,
Justiceiro das conas secas,
Lugar-tentente no exército,
Maldito e mal amado exército do foder,
Número um, campeão do orgasmo,
Original dono da
Pila perfeita
Que deuses cobiçam!
Relés rebarbado, ralé e escumalha!
Sintoma e sinal de degradação moral!
Tarado!
Última prova do aproximar do Apocalipse!
Xaile conspurcado na cabeça da liberdade!
Zero à esquerda da moralidade...

Abandono o ego,
Baixo a bolinha,
Conto os meus pecados:
Demasiados!
Esvazio-me de soberba,
Faço-me pequeno de novo,
Gastei toda a altivez que tive,
Hedonista me confesso e,
Ingrato,
Já esquecido o prazer,
Lanço-me em gritos:
MULHER DEMONÍACA!
NINFA SATÂNICA!
Obscurecido pela raiva,
Pulo para fora da cama,
Qual vespa num ninho em chamas,
Rumo à banheira,
Sujo do pecado,
Tentarei esfregar-me dele,
Uma
Vez, mais, sem sucesso...

19.2.18

Poema pós-formal pré-estruturalista


abstracciona abstém absoluto aborto
brutalidade brusca Brunilde brocada
Cavalga cava cavernas caves 
destrói desagarra desvenda despede despe
entre entradas entornadas entrosadas entronadas
fole folgado folheia folha foliona 
guarda guarida guapa Guatemala
histérica historia hispânica 
ignorante ignóbil inglória inglesa 
jazente jazigo jaz jazido
largas larvas largando lares 
mensagem menstrual menosprezada 
nupcial nuvem nublada num núbio nú
opulente opala opróbrio opaco opus oposta
putrefacto puteiro/putaria potente pús
querela que queria querer-se querida
rasga raspa rasura rasteja rasteira 
serpente se serve servente sertã
talco talvez talmude talude tal 
urda urja urbe urdida
vinha vida videira vitória vidente
xadrez xaile xilofone 
zero zarolho zangado.

17.2.18

Mas..

TU!
PUTA!
cavaste em mim um abismo
E agora sou apenas as paredes desse poço
As pedras gastas pelo tempo e a água da chuva
O vazio negro, cheio de noite, mais real que eu
E,
O nada que me tornaste enche esse espaço
Entre o que fui e o que sou e o que serei.

Traiste.
Essa esporra de outro que te escorre pelas pernas
Uma faca espetada no meu ser, coração
Coração,
Querida,
Amor!
PUTA! CABRA!
SER NOJENTO, ASQUEROSA!
Símbolo de tudo o que é maldade, sujo!
Quero-te estropiada, esventrada,
A tua pele tão furada como eu fiquei!
Anseio ver-te numa sarjeta,
Coberta de vermes que te comam a carne,
Baratas correndo sobre as tuas mamas, podres
Lindas, amadas...
Desculpa,
Não, não te quero morta, cadáver apodrecido,
Quero-te aqui,
Volta,
Não me deixes,
Não me troques por outros,
Eles...
Eles não te amam!
Eles não te querem!
Eles não te fodem como te fodo eu,
Desculpa, como te fodia eu, que agora,
Agora,
Só fodo os rins, os pulmões, as mãos a garganta,
De berrar o teu nome
Em cada esquina perdida onde vou vomitar,
Bebo até cair,
Quero vomitar-te para fora de mim!
Quero que saias com a bílis e os destroços sujos
Do meu estômago
E que fiques, para sempre, numa poça de nojo
Coberta de merda
Coberta dos vômitos dê mim
E assim
Estarei contigo,
O meu asco misturado no teu,
Os dois,
Para sempre juntos numa poça de tudo o que é
Nojo, esterco civilizacional, MERDA
MERDA!
Que perdi quem era quando ele te fodeu
E ele, ele não era eu,
Ele era todos os outros, mas não eu
Ele era mendigo, ele era milionário,
Ele era a PUTA que o pariu,
Ele,
Não era eu
E agora,
Agora,
Que faço?
Bebo.
Fumo.
Esqueço,
AH FODASSE!
Quero esquecer-me de mim, de ti, de tudo
Quero ser apenas o abismo que em mim cavaste.
Finjo que fujo,
Finjo que me vou embora
E que te abandono,
E que te esqueço,
E que nada disto me importa
Mas...

14.2.18

Tempo Intangível




e os dias caiem sobre mim como chuva ácida
queimando a pele em rugas cavando crateras 
um dois três interminável sequência inútil
que a lado nenhum almeja ou chegará sequer
construir-se castelo uma pedra de cada vez
e as ameias esperando pelo sol do meio dia
mas as nuvens cobrem-nos em sombra de medo
"é o degredo! é o degredo!" 
a plebe berra estridente, o meu povo grita
colonialismo imperialista de peles brancas 

e eu que vou armado só duma lança de sílex
,protejo-me detrás da deslocação dum tempo 
que insiste em não cumprir o seu desígnio.

sou todos os ecrãs de loading encravados
e nenhuma password me abre ao futuro

vesti o branco do funeral na pele
e deixei o negro de festa no armário
escondido o trapo sujo do meu sémen e suor 
entre duas meias sujas de sangue menstrual
finjo-me de novo inocente, virginal 
imolando os pecados enrolados numa mortalha
fumo-me intensivamente como quem corre para a morte
que desta vida não poderei tirar mais sorte.

escondo-me na multidão de fato e gravata
disfarçando assim a ausência de existência
e aborreço-me de tudo e de mim mais ainda
sinto-me o poço sem fim de todos os meu medos
e o balde que os puxa à superfície para que apanhem sol
e se bronzeiem de realidade.

e então,
durmo.


















6.2.18

Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris

e o nada explode numa camada de pó
que tudo cobre e em tudo se entranha
poeira de estrelas, poeira de sonhos
manta cinzento-amarelada sobre a realidade pousada
escondendo o tudo do nada

os meses tornam-se espadas espetadas em pedra
e a perda dos fins é o encontrar do novo começo
e à porta das torres constelacionais 
as estrelas não entram e não se sentam: existem

os dias nascem como que caídos da cona de uma égua 
sem anestesias ou cesarianas que os puxem fora 
da espuma incolor do potencial para o reino do que já é

as horas abrem-se e são penetradas pelo tempo
devagar como quem faz amor
rápido, como quem fode contra a parede suja
rit-mi-ca-men-te 
até que o tempo se vêm dentro da vagina horária
e prenhas de minutos as horas se distendem
e nascem de novo num ciclo sem fim

e no olho do turbilhão tudo gira tão rápido
que amanhã é já ontem e daqui a uma semana agora mesmo
e a meio caminho do infinito chegará, tudo,
à janela sem porta, tecto ou parede que a segure, 
apenas um nome que é seu e uma paisagem de paz
que escapa por detrás dos castanhos olhos vítreos 
emoldurados que estão no quase negro das cortinas 

lavo as mãos e os dentes com sangue que de mim derramo
e amo 
o toque quente da globulina e albumina 
e é tão fina a pele que me protege da passagem do tempo
desfazendo-se ao toque em pó e terra e merda
colapsando-se como um arranha-céus no apocalipse 
entulho de mim mesmo enchendo contentores
de todo o tipo de horrores

catalogados que estão anjos e demónios 
escolher um no directório e mandar vir pela rede
para que não esteja só 
quando voltar ao pó

26.1.18

Fortuna rota volvitur

caminho,
atiro os pés à estrada em busca de uma nova madrugada
equidistante do dia e da noite existo como se lusco-fusco 
caminhando pelo traço-continuo da sombra no alcatrão
sem destino sem pressa mas sem tempo e sem rumo
e carrego em mim ódio a tudo o que existe e têm um fim
pensamentos que pesam como fogo e ardem como chumbo
como chaves de casas que perdi e onde não entrarei de novo
e cadernos com nomes riscados a caneta e que finjo esquecer 
...
olho-me no espelho dos olhos dos outros que me olham 
e o que vejo é o medo que tenho de ser visto como sou 
...
caminho,
e comigo caminham todas as palavras que me fizeram sorrir
uso-as como mortalha em que enrolo o corpo, pronto a dormir,
e como lume para a fogueira onde imolo a tua memória
..
fecho-me num casulo de indiferença fingida 
e rezo para que ninguém bata à porta
..
caminho,
nunca chegarei ao fim deste trilho aziago
e ao princípio já não posso nem sei voltar
por isso sigo
e o último passo 
traz-me sempre de volta à sombra

23.1.18

ároquamë! ároquamë! tenta i rúcina!

tenho em mim mais cadáveres que um campo de batalha
e torno-me cemitério sem campa de todos os meus sonhos
espinha dorsal quebrada com o insuportável peso do medo
e a cara lavada das lágrimas que não deixarei nunca sair
afogo-me em cada segundo na lama do vazio inexorável
e fuzilo outro sonho deixando o corpo a apodrecer no chão
onde as crateras das bombas marcam a pele da minha alma
e a terra remexida cobre-me os olhos e o coração,
sepultados a céu aberto em valas comuns os desejos meus

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.

mas quando a brutalidade do teu silêncio me espanca
e eu acordo ainda bêbado de lágrimas e medo
com a canção do fim a ecoar dentro de mim
e a ressaca de ser algo que não é aquilo que é martela-me :
sou bigorna para nela forjares a espada com que me matarás.

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.

na osteomancia os ossos que lanço são os que visto em mim

e cantam-me da destruição que chega enrolada na mão fria
de uma estátua de sal que não olhou ao bem nem ao mal 
e quando o universo desistir de ser o seu próprio verso
quem irá aguentar nas suas órbitas os planetas e cometas?

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.

à beira do que sinto beija-me ainda a espuma da tua maré
e choro o odor do orvalho das eternas manhãs planares
aqui nas colinas onde o tempo das coisas todas é efémero
temo a morte de tudo o que um dia teria sido nosso
por isso, monto o meu cavalo de desespero

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína...

20.1.18

o frio

o frio tem um toque de verde, hoje
o sol quase acaricia a pele
retraindo-se apenas no último instante
e um urro de luz berrante
faz-se sentir às estátuas
que passeiam seus cães pela rua
nua, sem uma lua nem minha nem...

o frio entra pela garganta pelos dedos pelos olhos
penetra como espada no âmago de mim
e juro sentir-lhe a mão
apertando-me o coração

o frio de hoje cheira levemente a amor
como uma casa onde o incenso ainda disfarça
o odor de suor de semen de lágrimas de sorrir
cheira a beijos em lábios quentes
a um abraço de corpo e alma inteiros
uma pratada de sopa de legumes partilhada
a um cigarro na almofada

o frio, hoje, é um cobertor pesado
pousado sobre as minhas costas
cruz que não me seduz nem reluz
e eu! que supus que me servia o capuz!

o frio, hoje, é um casal que discute
com ódio na língua e veneno nos lábios
medo nos olhos e crianças a chorar

o frio já é tudo,
consumiu-me o universo
e se há sol,
se há caderno,
se há cerveja ou cigarro
já não o sei,
o frio é tudo
e eu
tudo com ele sou.

o frio de hoje é eu não ter calças debaixo de calças
e não me aquecerem esperanças falsas
é os sonhos não terem força nas pernas
para andar e correr
é um sorriso amarelo que já não acende
e a companhia que tarda a chegar

o frio de hoje é só meu
não o partilho com ninguém
guardo-o para mim com mal disfarçada avareza
roubado que foi à Natureza,
em mim,
ele congela a incerteza na pureza
do tampo sujo desta mesa
um gatafunho escavado,
há sabe deus quantos séculos,
dizendo

hoje o frio sou eu

18.1.18

intervallum intramore



On 17 Jan 2018 16:33, "J.G." wrote:
aqui onde as horas intermináveis copulam até parirem um dia sem fim
e as cores há muito se quedaram mudas de tanta indiferença 
é a ânsia da ganancia de querer ser mais que o universo 
plenipotenciário de todo um planetário e brincar com as estrelas,
torniquete emocional pai e gestante da criação do meu mal

todos morremos esmagados pelo peso dos nossos sonhos

aqui onde as horas não existem e os minutos se eternizaram em ambar
tudo repousa no éter sujo em imóvel suspensão até o ponteiro andar
e os heliocêntricos silencios do nada a existir é tudo quanto grita 
e nisso os tímpanos ressentem-se do lento matraquear dos ponteiros 
e explodem liquefazendo-se os astros em poeira sónica 

todos morremos esmagados pelo peso do que sonhamos

aqui onde as oscilações do pendular relógio não respeitam a maré
e às teclas gastas do velho órgão não se conseguem arrancar notas 
mas a agulha dança e balança sobre o quadriculado do sismógrafo 
simulando silabas serpenteantes, sibilantes sibilas profetizando o fim
vítreos vitrais de ferrugem e aziagas premonições que deles surgem

todos morremos esmagados pelo peso dos sonhos carregados

aqui onde as horas são salpicadas de pimenta amarga e doce
e os minutos temperados de sal e regados de lágrimas ocultas 
os intervalos cascateiam sobre lagos de cigarros desembainhados
e das cinzas da inquietação florescem homúnculos beatificados 
fora do centro maquinal da normalidade como cordas esticadas 

todos morremos esmagados pelo peso daquilo em que sonhamosl
aqui onde a abóbada gótica do tempo nunca atinge o seu zénite
e as horas se desmoronam como ruínas de um templo pagão
tornando-se areia de ampulheta suspensa no interlúdio de tudo
confesso-me heresiarca e cometo o sagrado sacrilégio de duvidar
sacrificando no altar pardacento do momento a paz do sentimento

14.1.18

zen garden of my heart


de entre mil milhares de milhões dos melhores melosos melões
não há outra colherada que queira dar que não acabe nos teus lencois
és jardim de pedras e areia vestindo vestido negro
e no desenhar das tuas curvas repouso regaço e respiro aberto:
na fúria tempestuosa de viver entre a chuva ácida e o sol assassino
existe um farol de zen e nenhuma lotus cheira ao teu sorrir.

subir-te aos cumes do Everest
e nos himalaias da paixão enterrar
todo o tesouro que é teu, meu

bebo-me de nós, travo amargo, atroz
e porém tão doce e pacifico

nas pedras do teu jardim
encontrei-me a mim
olhei para o meu abismo
e cismo de eu para eu
que a felicidade existe e é verdade
mas o cheiro das rosas vermelhas
cheira ao sangue que cai das mãos
quando abraço teus espinhos

sou todas os valas à beira da estrada
e em mim há lixo e mais nada,
sou valeta e sarjeta
e para mim corre
corre
corre
a água da chuva e toda a porcaria
e é o lixo do mundo
que me enche a alegria ao fim do dia

ancinho na mão e sorriso no focinho
desenho devagar devagarinho
nas areias do teu ser
o yin e yang dos fins que são curtos
e das eternidades que não vão acabar

caveira desdentada
vestida de preto rasgado
sou o cadáver putrefacto do super homem
que me sonhei



13.1.18

canção de amor citadina

andar perdido por ti à noite
e de um miradouro gritar
(até que doa a puta dos pulmões)
a tua beleza cheia de estranheza

apaixonar-me de novo pelas tuas ruas
onde velhas fumam à janela todas nuas

virar numa esquina que não conheça
e fotografar-te as caralhadas
que na pele de pedra tens pintadas

desejar-me amnésico, só
para te aprender de novo
como se fosse a primeira vez
que estamos a foder

correr
pelas pedras da tua calçada
sem estar a fugir de nada
que não esteja dentro de mim

olhar-te as fachadas
imaginar conas as tuas portas
e querer entrar em todas
à bruta

fazer-me puta
para poder passar a noite
abraçado pela escuridão dos teus becos
e ouvir neles os ecos
de quem berra de prazer
e
chorar nas esquinas
lágrimas pequenas pequeninas
como as que choram as meninas
ao sofrer

entrar-te num tasco
sujo que mete asco
pedir uma imperial
e descer outra estrada qualquer
sentindo-me, como tu, imortal

onomatopeias

e as restantes teias
mesas de café cheias
,e a chuva que cai!
inundando os copos
acariciando os corpos
beijando as faces como lágrimas 

AH! exclamar 

AI! suspirar
AU! queixar

no poente está sempre quente

e, ao nascente somos demente
mas não é de gente ter dente

Eh, encolher de ombros por entre os escombros
Ei! chamar à atenção do coração a mão 

tocar alaúde de forma crude e rudimentar

como que a escavar a terra recém revirada
não sei se saindo ou entrando no caixão

Oh! Ventos e marés

Oh! Prédios e chaminés
Oh! Carros e cancros
Oh! Putas e cabrões
Oh! Chinelas e tamancos
Oh tu, lambe-me os culhões.

como mortalha sem cola

,se enrola e não fecha 
fumados as escondidas atrás do pavilhão
comer pastilhas e lavar a mão com sabão
para que o cheiro se vá primeiro 
e fique apenas o travo adocicado
d'nosso cruel,imperdoável pecado

Ih, inspirando e rindo


fosse toda a casa um cinzeiro

e eu apenas uma beata que nele veio morrer
sobre a prata de um maço roubado

Ui, são dores as cores das flores

Ui, que flui da garganta para fora
Ui, ele diz que está na hora de se ir embora
    e fica à porta a invejar o ar que roda a volta dela





dentes do siso


dizem que com a idade vêm o juízo
mas não sinto que tenha o preciso
pra crer no bilhete de identidade
e ser realmente mais velho que um
adolescente doente e não contente
que apenas mente, passa tão rente
daquilo que sente não vê à frente
qual o prazo de validade
             da felicidade
                    cidade escura
onde a noite é fria e sempre dura
metrópole antiga d'amplos séculos
pobre e milionária para sua faixa
etária (e meio otária, como obvio
, senão porque moraria nela o meu
coração?) mas solitária e triste,
belo, e bebe e brinda à boa sorte
que ela chegue antes da sua morte

excertos do Livro de Vísceras e Entranhas

sargaços vermelhos sangram sobre o areal do paraíso
mecanismos arcaicos de adivinhação falíveis falham
e calham a todos os dias de não nascer de manhã
o pé pela boca adentro e o sorriso que cheira a chulé
as meias e os seus rompimentos e batimentos cardíacos
descartadas pelos anjos e demónios e tudo o que é no meio
caídas junto aos pés da cama onde se chora e se sonha e se ama
liquefeitas as éguas nocturnas em papa de bebé
e nas sombras sempre aquela sombra mais sombra de pé
...
e a cada dez passos tropeçamos nos sargaços.
...
...
sem epidural, espetada na espinha dorsal
e sem cesariana, anestesiologia que se dane!
saímos pela cona à bruta, à filhos da puta
e fomos parar ao meio do chão
gemendo e chorando como um pequeno cão
que ao dono teme a mão
...
...
mas nos dias em que o sargaço substitui a areia
e os pés se prendem nas algas ao andar
temos tempo para parar e contemplar
o sol a levantar e deitar
e descobrir que é mais bela a aurora
quando estamos juntos lá fora
e mais apaixonante o poente
quando somos do universo toda a gente

e por muito suja que a areia esteja ao cair da noite
a maré virá e de manhã
...

7.1.18

descasca alhos menina, descasca alhos

e o metafísico sai com a casca
e vai para o lixo
fazer volume na caixa
e baixa teus olhos
e faz de ti molhos
de chaves e de bolognesa
que te como sobre a mesa

descasca alhos,
que descascar alho
é tudo no mundo
e nada bate mais fundo
que uma tigela de alhos
(que rimam em mangalhos
, caralhos
, orvalhos
, esquerdalhos
e não esquecer, bugalhos)

andar de andas no andaime
ter um filho e não lhe chamar Jaime
nem João nem Julião
mas um místico nome
que carrega as costas a sua missão

assoar-te com lenços de seda
dizer-me cisne
e chamar-te Leda
e como na lenda dar-te de prenda
o calor do sol
e a frescura das sombras das árvores

tudo é belo em verde
e nada sacia a nossa sede

descasca então alhos
que eu te serei lâmina
para me teres na mão
e juntos
esquartejarmos legumes
e
do topo de todos os cumes
gritar
para que o universo saiba
que nos teus alhos descascados
nos teus olhos descansados
nos teus lábios desbocados
vivem todos os apaixonados
e não há maus bocados
nem dias excusados
são sempre abençoados
os momentos de alhos descascados

escrevo e bebo
bebo e escrevo
enquanto espero
o beijo que há de chegar