3.11.20

imencidades

Imensidades de betão enchem o horizonte
E o rio de alcatrão negro não desagua
Em mar algum

Formigas de fato e gravata 
seguem ordeiramente pela margem calcetada
Engolidas pelas cavernas negras,
Bocas sem dentes nem língua no chão

Como num pesadelo a cores
Suspenso vertiginosamente de uma nuvem
Anseio pelo abraço mortal do solo


11.10.20

Ecclesiastes 12:14

 experimento a exclusão de existência:

indecência elevada ao expoente de ciência


estranho estar este, esdrúxulo e espesso

existir esquecido no extremo espaço negro

que fica entre o ontem e todos os amanhãs

que amanhecem, amanhados e amontoados

a um canto de um corredor caindo,

caindo como cometa,

correndo contra a crosta terrestre que têm

tudo, tanto teórico como prático

tanto tântrico como imediato, precoce,

percorre perto do preto porto perene

pedindo a deuses uma luz que o alumie

que acenda lugares, leitos, lentos lumes

lentamente queimam a cor perdida da palavra


sepulcros sem sepultados e masoleus

erguidos a quem nunca nasceu neste nada

neste vazio, esta pausa entre pausas,

este irritante espaço que fica entre tudo,

entre cada sorriso e entre cada lágrima,

entre cada palavra dita, omitida, desmentida

esquecida.


fel! Nojento fel que me escorre da boca

em forma de sílabas conjugadas em conjunto

atiradas umas às outras com uma pausa,

apenas para respirar e ganhar fôlego para

berrar mais ainda, para que

toda a minha raiva, todo o meu ódio,

tudo o que existe em mim de FÚRIA,

e este fel que escorre nojento da minha boca

não se acalma, não me acalma...


há cadeiras vagas que me olham nos olhos

como se alguém lá se sentasse e,

com divinas potências, me julgasse

Essas cadeiras vazias que me BERRAM

o quão inútil, ignóbil, indesejados sou

com uma voz vazia de som, esse silêncio

tão pesado.


13.9.20

mansão

 no começar de uma noite

havia uma pausa

um espaço entre quem está

e quem estará


uma brecha,

um começar

após um finalizar

um renascer em mim,

conhecer de novo quem sou

e onde nasci


um novo ponto final

onde acaba tudo o que é

e começa tudo o que será,

uma mansão que olha

despreocupada

as terras que lhe dão de comer

e sobre elas chora,

lágrimas de dinheiro,

sempre dinheiro, ouro, sal.


uma casa sobre um monte

que não é seu

mas onde sempre viveu


um promontório

que vê o mundo

longe

e afastado,

como a tristeza sempre o é,

da realidade


estamos aqui,

longe do mundo que nos viu

que nos fez crescer

que nos deu o aparecer as

sob a luz do sol


somos essa casa senhorial

no monte

na espectativa do futuro,

perdidos

mas não desencontrados

ainda.

30.8.20

epílogo

 nasci no ponto final de uma frase
e toda a minha vida não fui mais do que isso:
o acabar de uma coisa antes do começar
de outra qualquer
sou, portanto, isso mesmo:
o acabar de todas as coisas
o término fulminante, explosivo
de algo
e nunca o começar,
nunca o nascer de um novo sol,
nunca a alvorada de um novo dia,
só o pôr do sol,
a recta final,
o último fôlego de alguma existência.

comecei onde as coisas findam,
naquele momento em que tudo
deixa de ser o que é
e procura uma nova razão
uma nova realidade onde ser

serei sempre apenas isso:
um ponto final nas orações de outros,
uma casa onde se vai morrer
antes da glória da ressurreição,
um beco sem saída
de onde tens de recuar para sair


nunca serei a alvorada a crescer
sobre os montes virgens
nem a semente de uma nova vida,
nunca terei em mim a seiva
do novo dia

sou um fim
um terminar
o último fôlego
de um respirar doente
a última palmeira
antes do deserto.

3.7.20

  e um ano nasce e um ano morre,


a existência é sem ter de o ser.


Sou feliz em cada trago de cada cigarro

,em todos os shots e todos os brindes

,em todas as tardes no sofá,

,e

em todas as manhãs a teu lado,

tenho em mim o sorriso completo

de quem dorme feliz

e acorda melhor

... 

e cada estrofe rima melhor 

que a anterior