26.1.18

Fortuna rota volvitur

caminho,
atiro os pés à estrada em busca de uma nova madrugada
equidistante do dia e da noite existo como se lusco-fusco 
caminhando pelo traço-continuo da sombra no alcatrão
sem destino sem pressa mas sem tempo e sem rumo
e carrego em mim ódio a tudo o que existe e têm um fim
pensamentos que pesam como fogo e ardem como chumbo
como chaves de casas que perdi e onde não entrarei de novo
e cadernos com nomes riscados a caneta e que finjo esquecer 
...
olho-me no espelho dos olhos dos outros que me olham 
e o que vejo é o medo que tenho de ser visto como sou 
...
caminho,
e comigo caminham todas as palavras que me fizeram sorrir
uso-as como mortalha em que enrolo o corpo, pronto a dormir,
e como lume para a fogueira onde imolo a tua memória
..
fecho-me num casulo de indiferença fingida 
e rezo para que ninguém bata à porta
..
caminho,
nunca chegarei ao fim deste trilho aziago
e ao princípio já não posso nem sei voltar
por isso sigo
e o último passo 
traz-me sempre de volta à sombra

23.1.18

ároquamë! ároquamë! tenta i rúcina!

tenho em mim mais cadáveres que um campo de batalha
e torno-me cemitério sem campa de todos os meus sonhos
espinha dorsal quebrada com o insuportável peso do medo
e a cara lavada das lágrimas que não deixarei nunca sair
afogo-me em cada segundo na lama do vazio inexorável
e fuzilo outro sonho deixando o corpo a apodrecer no chão
onde as crateras das bombas marcam a pele da minha alma
e a terra remexida cobre-me os olhos e o coração,
sepultados a céu aberto em valas comuns os desejos meus

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.

mas quando a brutalidade do teu silêncio me espanca
e eu acordo ainda bêbado de lágrimas e medo
com a canção do fim a ecoar dentro de mim
e a ressaca de ser algo que não é aquilo que é martela-me :
sou bigorna para nela forjares a espada com que me matarás.

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.

na osteomancia os ossos que lanço são os que visto em mim

e cantam-me da destruição que chega enrolada na mão fria
de uma estátua de sal que não olhou ao bem nem ao mal 
e quando o universo desistir de ser o seu próprio verso
quem irá aguentar nas suas órbitas os planetas e cometas?

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.

à beira do que sinto beija-me ainda a espuma da tua maré
e choro o odor do orvalho das eternas manhãs planares
aqui nas colinas onde o tempo das coisas todas é efémero
temo a morte de tudo o que um dia teria sido nosso
por isso, monto o meu cavalo de desespero

e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína...

20.1.18

o frio

o frio tem um toque de verde, hoje
o sol quase acaricia a pele
retraindo-se apenas no último instante
e um urro de luz berrante
faz-se sentir às estátuas
que passeiam seus cães pela rua
nua, sem uma lua nem minha nem...

o frio entra pela garganta pelos dedos pelos olhos
penetra como espada no âmago de mim
e juro sentir-lhe a mão
apertando-me o coração

o frio de hoje cheira levemente a amor
como uma casa onde o incenso ainda disfarça
o odor de suor de semen de lágrimas de sorrir
cheira a beijos em lábios quentes
a um abraço de corpo e alma inteiros
uma pratada de sopa de legumes partilhada
a um cigarro na almofada

o frio, hoje, é um cobertor pesado
pousado sobre as minhas costas
cruz que não me seduz nem reluz
e eu! que supus que me servia o capuz!

o frio, hoje, é um casal que discute
com ódio na língua e veneno nos lábios
medo nos olhos e crianças a chorar

o frio já é tudo,
consumiu-me o universo
e se há sol,
se há caderno,
se há cerveja ou cigarro
já não o sei,
o frio é tudo
e eu
tudo com ele sou.

o frio de hoje é eu não ter calças debaixo de calças
e não me aquecerem esperanças falsas
é os sonhos não terem força nas pernas
para andar e correr
é um sorriso amarelo que já não acende
e a companhia que tarda a chegar

o frio de hoje é só meu
não o partilho com ninguém
guardo-o para mim com mal disfarçada avareza
roubado que foi à Natureza,
em mim,
ele congela a incerteza na pureza
do tampo sujo desta mesa
um gatafunho escavado,
há sabe deus quantos séculos,
dizendo

hoje o frio sou eu

18.1.18

intervallum intramore



On 17 Jan 2018 16:33, "J.G." wrote:
aqui onde as horas intermináveis copulam até parirem um dia sem fim
e as cores há muito se quedaram mudas de tanta indiferença 
é a ânsia da ganancia de querer ser mais que o universo 
plenipotenciário de todo um planetário e brincar com as estrelas,
torniquete emocional pai e gestante da criação do meu mal

todos morremos esmagados pelo peso dos nossos sonhos

aqui onde as horas não existem e os minutos se eternizaram em ambar
tudo repousa no éter sujo em imóvel suspensão até o ponteiro andar
e os heliocêntricos silencios do nada a existir é tudo quanto grita 
e nisso os tímpanos ressentem-se do lento matraquear dos ponteiros 
e explodem liquefazendo-se os astros em poeira sónica 

todos morremos esmagados pelo peso do que sonhamos

aqui onde as oscilações do pendular relógio não respeitam a maré
e às teclas gastas do velho órgão não se conseguem arrancar notas 
mas a agulha dança e balança sobre o quadriculado do sismógrafo 
simulando silabas serpenteantes, sibilantes sibilas profetizando o fim
vítreos vitrais de ferrugem e aziagas premonições que deles surgem

todos morremos esmagados pelo peso dos sonhos carregados

aqui onde as horas são salpicadas de pimenta amarga e doce
e os minutos temperados de sal e regados de lágrimas ocultas 
os intervalos cascateiam sobre lagos de cigarros desembainhados
e das cinzas da inquietação florescem homúnculos beatificados 
fora do centro maquinal da normalidade como cordas esticadas 

todos morremos esmagados pelo peso daquilo em que sonhamosl
aqui onde a abóbada gótica do tempo nunca atinge o seu zénite
e as horas se desmoronam como ruínas de um templo pagão
tornando-se areia de ampulheta suspensa no interlúdio de tudo
confesso-me heresiarca e cometo o sagrado sacrilégio de duvidar
sacrificando no altar pardacento do momento a paz do sentimento

14.1.18

zen garden of my heart


de entre mil milhares de milhões dos melhores melosos melões
não há outra colherada que queira dar que não acabe nos teus lencois
és jardim de pedras e areia vestindo vestido negro
e no desenhar das tuas curvas repouso regaço e respiro aberto:
na fúria tempestuosa de viver entre a chuva ácida e o sol assassino
existe um farol de zen e nenhuma lotus cheira ao teu sorrir.

subir-te aos cumes do Everest
e nos himalaias da paixão enterrar
todo o tesouro que é teu, meu

bebo-me de nós, travo amargo, atroz
e porém tão doce e pacifico

nas pedras do teu jardim
encontrei-me a mim
olhei para o meu abismo
e cismo de eu para eu
que a felicidade existe e é verdade
mas o cheiro das rosas vermelhas
cheira ao sangue que cai das mãos
quando abraço teus espinhos

sou todas os valas à beira da estrada
e em mim há lixo e mais nada,
sou valeta e sarjeta
e para mim corre
corre
corre
a água da chuva e toda a porcaria
e é o lixo do mundo
que me enche a alegria ao fim do dia

ancinho na mão e sorriso no focinho
desenho devagar devagarinho
nas areias do teu ser
o yin e yang dos fins que são curtos
e das eternidades que não vão acabar

caveira desdentada
vestida de preto rasgado
sou o cadáver putrefacto do super homem
que me sonhei



13.1.18

canção de amor citadina

andar perdido por ti à noite
e de um miradouro gritar
(até que doa a puta dos pulmões)
a tua beleza cheia de estranheza

apaixonar-me de novo pelas tuas ruas
onde velhas fumam à janela todas nuas

virar numa esquina que não conheça
e fotografar-te as caralhadas
que na pele de pedra tens pintadas

desejar-me amnésico, só
para te aprender de novo
como se fosse a primeira vez
que estamos a foder

correr
pelas pedras da tua calçada
sem estar a fugir de nada
que não esteja dentro de mim

olhar-te as fachadas
imaginar conas as tuas portas
e querer entrar em todas
à bruta

fazer-me puta
para poder passar a noite
abraçado pela escuridão dos teus becos
e ouvir neles os ecos
de quem berra de prazer
e
chorar nas esquinas
lágrimas pequenas pequeninas
como as que choram as meninas
ao sofrer

entrar-te num tasco
sujo que mete asco
pedir uma imperial
e descer outra estrada qualquer
sentindo-me, como tu, imortal

onomatopeias

e as restantes teias
mesas de café cheias
,e a chuva que cai!
inundando os copos
acariciando os corpos
beijando as faces como lágrimas 

AH! exclamar 

AI! suspirar
AU! queixar

no poente está sempre quente

e, ao nascente somos demente
mas não é de gente ter dente

Eh, encolher de ombros por entre os escombros
Ei! chamar à atenção do coração a mão 

tocar alaúde de forma crude e rudimentar

como que a escavar a terra recém revirada
não sei se saindo ou entrando no caixão

Oh! Ventos e marés

Oh! Prédios e chaminés
Oh! Carros e cancros
Oh! Putas e cabrões
Oh! Chinelas e tamancos
Oh tu, lambe-me os culhões.

como mortalha sem cola

,se enrola e não fecha 
fumados as escondidas atrás do pavilhão
comer pastilhas e lavar a mão com sabão
para que o cheiro se vá primeiro 
e fique apenas o travo adocicado
d'nosso cruel,imperdoável pecado

Ih, inspirando e rindo


fosse toda a casa um cinzeiro

e eu apenas uma beata que nele veio morrer
sobre a prata de um maço roubado

Ui, são dores as cores das flores

Ui, que flui da garganta para fora
Ui, ele diz que está na hora de se ir embora
    e fica à porta a invejar o ar que roda a volta dela





dentes do siso


dizem que com a idade vêm o juízo
mas não sinto que tenha o preciso
pra crer no bilhete de identidade
e ser realmente mais velho que um
adolescente doente e não contente
que apenas mente, passa tão rente
daquilo que sente não vê à frente
qual o prazo de validade
             da felicidade
                    cidade escura
onde a noite é fria e sempre dura
metrópole antiga d'amplos séculos
pobre e milionária para sua faixa
etária (e meio otária, como obvio
, senão porque moraria nela o meu
coração?) mas solitária e triste,
belo, e bebe e brinda à boa sorte
que ela chegue antes da sua morte

excertos do Livro de Vísceras e Entranhas

sargaços vermelhos sangram sobre o areal do paraíso
mecanismos arcaicos de adivinhação falíveis falham
e calham a todos os dias de não nascer de manhã
o pé pela boca adentro e o sorriso que cheira a chulé
as meias e os seus rompimentos e batimentos cardíacos
descartadas pelos anjos e demónios e tudo o que é no meio
caídas junto aos pés da cama onde se chora e se sonha e se ama
liquefeitas as éguas nocturnas em papa de bebé
e nas sombras sempre aquela sombra mais sombra de pé
...
e a cada dez passos tropeçamos nos sargaços.
...
...
sem epidural, espetada na espinha dorsal
e sem cesariana, anestesiologia que se dane!
saímos pela cona à bruta, à filhos da puta
e fomos parar ao meio do chão
gemendo e chorando como um pequeno cão
que ao dono teme a mão
...
...
mas nos dias em que o sargaço substitui a areia
e os pés se prendem nas algas ao andar
temos tempo para parar e contemplar
o sol a levantar e deitar
e descobrir que é mais bela a aurora
quando estamos juntos lá fora
e mais apaixonante o poente
quando somos do universo toda a gente

e por muito suja que a areia esteja ao cair da noite
a maré virá e de manhã
...

7.1.18

descasca alhos menina, descasca alhos

e o metafísico sai com a casca
e vai para o lixo
fazer volume na caixa
e baixa teus olhos
e faz de ti molhos
de chaves e de bolognesa
que te como sobre a mesa

descasca alhos,
que descascar alho
é tudo no mundo
e nada bate mais fundo
que uma tigela de alhos
(que rimam em mangalhos
, caralhos
, orvalhos
, esquerdalhos
e não esquecer, bugalhos)

andar de andas no andaime
ter um filho e não lhe chamar Jaime
nem João nem Julião
mas um místico nome
que carrega as costas a sua missão

assoar-te com lenços de seda
dizer-me cisne
e chamar-te Leda
e como na lenda dar-te de prenda
o calor do sol
e a frescura das sombras das árvores

tudo é belo em verde
e nada sacia a nossa sede

descasca então alhos
que eu te serei lâmina
para me teres na mão
e juntos
esquartejarmos legumes
e
do topo de todos os cumes
gritar
para que o universo saiba
que nos teus alhos descascados
nos teus olhos descansados
nos teus lábios desbocados
vivem todos os apaixonados
e não há maus bocados
nem dias excusados
são sempre abençoados
os momentos de alhos descascados

escrevo e bebo
bebo e escrevo
enquanto espero
o beijo que há de chegar