24.12.19

pingado, como o café

pingado, como o café
caído à beira da esquina
fugido como corvina no mar salgado
a espera de uma palavra certa
que traga aberta em si a porta do lado
que a da frente da mente não sente

não existe em mim nenhuma fé
sou capela dessacralizada
necromancianda de regresso
ao nascimento da civilização enfadada
pela cor escura do sentimento perdido

cerveja! drogas! borgas! inveja.


15.7.19

pausa.

pausa.

sempre estas pausas entre tudo.
sempre este parar, esperar.

pausa.
pára, espera!

mas vejo o resto do ciclone
a chegar,
daqui de dentro do olho

preparo-me para o embate,
combate?
não,
estou rendido e derrotado
e sem luta para dar.

pausa.

mudamos de posição,
damos 3 passos para desntropecer as pernas
e deitamos de novo as nossas esperanças
que cada dia pesam mais
e valem menos.

"é doce o sabor das lágrimas de amor"
escreve o poeta, mentindo-se:
toda a lágrima sabe a sal

pausa.

o corpo diz-me que está aqui,
mas não lhe ligo,
não acredito nele,
se não posso acreditar no amor,
porque havia de acreditar na carne?

ilusões!
ambos ilusões,
somos apenas a consciência da existência
e estamos sós,
uma semente de vida na escuridão
(a absoluta escuridão do nada)
e toda a realidade é apenas
algo que desesperamos por negar.

pausa.

finjo-me real e físico e matéria.

pausa.

demasiado tarde,
imensamente demasiado tarde.
vejo o ponteiro a mexer,
vejo o minuto a passar,
o passado,
acaba.

pausa.

tenho já as lágrimas que te irei chorar
nos olhos,
ansiosas por correrem pela minha cara abaixo
conhecerem o sabor da minha pele
da minha barba,
das minhas mãos.
querem sair,
estão presas à esperança há tanto tempo,
querem largar-se,
saltar.

pausa.

estranha serenidade triste me invade
um zen de quem deixou para trás
a crença na felicidade e assim
é feliz apenas em a ter conhecido.

pausa.

abro os olhos para fora de mim,
não,
de nós. Não estou em mim,
estou em nós,
mas nós... nós não existe
não é igual,
não é completo o nosso palácio,
falta-lhe a alma de nós

agarro-me aos fragmentos
da tapeçaria remendada e reremendada
com as duas mãos,
ganancioso de tudo o que existe ainda,
não quero perder um único segundo
que já perdi tantos...

pausa.

o tempo não existe aqui.
é ainda aquele mesmo dia em que cá fiquei,
sozinho,
pela primeira vez.

estás nestas paredes,
elas fazem parte das tuas estrofes
a tua presença aqui abraça-me
e faz-me calmo

pausa.

a vida terá de continuar,
não pára por algo tão pequeno
como a morte de um futuro apenas,
dois.
morre também o teu.
mas tu já o tinhas morto antes,
não foi?
e eu,
raio de mania que tenho
que comando o destino do mundo
e tenho poder sobre os mortos...

necromante de merda que me saíste,
que tudo o que ressuscitas
morre logo de seguida..

pausa
e após a pausa, outra pausa.

os tentáculos do tempo não têm pressa
para me apanhar,
carregam neles toda a inevitabilidade
daquilo que é.

pausa.

destrói-se a mente um pouco mais
para não ter de pensar
para conseguir fingir,
por breves que sejam os segundos da fé,
que tudo está bem,
melhor que isso até!

que o sol que brilha realmente aquece
este frio imenso
que a música que berra realmente acalma
este tremor constante
que...

pausa.

e quebra a ilusão.

pausa,
e volto a estar aqui
dentro da tua carne de estuque e cimento
mas a tua alma ainda não está cá
e a minha
já não ecoa como ecoava

pausa.

como é estranho sentir já saudades
do sítio onde estou...

pausa.

não vejo um caminho fora deste:
quis com tanta força ser este teu eu
que me esqueci
de qual seria o verdadeiro
meu eu

pausa.

toda a espera é em vão,
"há sempre um inverno a seguir ao verão"
e uma lágrima no fim de casa sorriso.

pausa.

não quero fumar mais,
não quero beber e esquecer,
quero estar realmente aqui
quando tu chegares
para que todo eu se possa despedir de ti.

pausa,
sempre em pausa,
há horas em pausa,
há dias em pausa,
há semanas, meses!

tudo parado,
à espera da tua chegada a casa
para te dizer
bem vinda, os teus animais esperaram por ti.

...
pausa.

sei que devo comer,
sei que a minha cara deve ser a de quem morre,
uma sombra do que era.

queria esperar,
mas não sei quanto mais consigo aguentar...

pausa.

e tudo rebenta neste nexus de possibilidade
e colapsa, colapsará em realidade
assim que o tempo voltar a andar.

pausa.

somos o intervalo entre o mundo
e o sonho.

27.6.19

um funeral para Lucifer

-0-
a longa cobra metálica cospe pessoas
pelas suas muitas bocas desdentadas
um rio de almas que corre,
enfia-se pela garganta de pedra da Mãe
desaparecendo para sempre
fugindo pelos portões rumo ao sol

encolho-me entre corpos passantes
e espremo-me em direção ao dia
lá fora é dia mas aqui crepúscula a hora
todas as horas
sempre este amarelo doente nos olhos
sempre este fresco falso e seco
sempre este murmurar constante

-0.5-
uma procissão quase solene, em passo apressado
fato domingueiro coçado e gasto
as camisas de gola semi-aberta e a gravata a sair do bolso
das calças

-1-
as cordas prendem o corpo ao chão
colchão de alcatrão que será caixão
levanto aos céus uma mão vazia,
implora clemência misericórdia perdão
mas é tarde, já me engole a terra
e os insectos atacam-me a pele seca,
vão comer até chegar ao osso
e eu serei branco puro finalmente
toda a carne pecado limpa de mim
e na boca um suspiro de alívio, fim

-2-
há uma esquina que pertence às putas
entre duas ruas sujas da idade,
e lá sentado um mendigo,
mais gasto que velho,
com a luz dos olhos cansada, esbatida
diz ele que até os anjos apagam a luz um dia
que até o sol se cansa e foge,
desaparece

-3-
um templo no topo de uma colina
colunas como dedos de pedra
esticando-se para agarrar o céu
e dele arrancar as nuvens

no altar um copo de vinho velho
e um cinzeiro cheio até transbordar

e atrás dele um padre reza

-4-
morre sozinho,
o velho anjo mendigo
sem um suspiro de alívio
nem um berro de desespero
só o sorriso triste
de quem já se esqueceu quem foi
e de como se ama

-5-
ratos e baratas rodeiam o corpo
numa última adoração ao seu senhor
o cadáver velho da putrefacção
e o cheiro forte da morte
que se eleva ao ar.

-6-
um templo de cimento quadrado
e o corpo atirado a um forno
onde arde e se livra em fim
do pecado.

28.5.19

Ab termino

acaba com o frio de uma cama
onde só durmo eu
de um quarto sem mobília mas alma
onde só durmo eu
de uma casa que é minha
onde durmo só eu

acaba com as gatas a correr
em corredores mortos
com livros empilhados e atirados
em corredores mortos
com tapetes enrrodilhados amarrotados
em corredores mortos

acaba na folha em branco de um caderno
e tudo o que lá escrevi é incompleto
no mail vazio que tenho sempre aberto
e tudo o que lá escrevi é incompleto
nas efémeras milhentas mensagens
e tudo o que lá escrevi é incompleto

acaba num túmulo altar santuário perdido
que só o tempo esqueceu
nas preces orações rezas cânticos e litanias
que só o tempo esqueceu
nos rituais ritos celebrações eucaristia
que só o tempo esqueceu

acaba nas pedras que se ficam à beira da estrada
ganhando pó apenas
nas ruínas de fábricas abandonadas
ganhando pó apenas
nas sombras por detrás das árvores
ganhando pó apenas

acaba antes do tempo acabar.

26.3.19

Ab initio

começa com o frio de uma cama
onde só durmo eu
de um quarto sem mobília sem alma
onde só durmo eu
de uma casa que foi nossa um dia
onde durmo só eu

começa com as gatas a correr
em corredores mortos
com livros empilhados e atirados
em corredores mortos
com tapetes enrrodilhados amarrotados
em corredores mortos

começa na folha em branco de um caderno
e tudo o que lá escrevo é incompleto
no mail vazio que tenho sempre aberto
e tudo o que lá escrevo é incompleto
nas efémeras milhentas mensagens
e tudo o que lá escrevo é incompleto


começa na tua pele nua,
tão longe de mim
nos teus cabelos esquizofrenia roxo-cinza
tão longe de mim
nos teus beijos de boca pequena e alma grande
tão longe de mim

começa num túmulo altar santuário perdido
que só o tempo esqueceu
nas preces orações rezas cânticos e litanias
que só o tempo esqueceu
nos rituais ritos celebrações eucaristia de amor
que só o tempo esqueceu

começa nas pedras que se ficam à beira da estrada
ganhando pó apenas
nas ruínas de fábricas abandonadas
ganhando pó apenas
nas sombras por detrás das árvores
ganhando pó apenas

começa antes do tempo começar
e não acaba nunca
começa nas tuas palavras doces
e não acaba nunca
começa no toque do teu sorrir
e não acaba
nunca.

16.3.19

renego à renegação / e voltas a ser castelo / onde o meu trono / reside

colapsa-se o universo sobre si
e voltamos a sorrir

as estepes e tundras e planícies e montanhas e vales e montes
e tudo o que sobe até ao céu
e tudo o que desce até ao centro das coisas
e tudo o que vertical-horizontalmente se existe

tudo colapsa sobre si
porque a Noite voltou
e o mundo é novo e antigo
e o que era será
e o que foi é

8.3.19

de presságios e da realidade

vejo o teu nome nas entranhas do animal sacrifício
leio a tua face em padrões de pedra evaporada
sinto o teu sorriso sorrindo sobre números plásticos

e eu que caminhava para longe do abismo de ti

de que me serviu construir muros se os fiz em papel?
para que me atei ao mastro se ele está solto?
se me ensurdecer à canção, doce canção, da sereia
ninfa da areia, poeta do mar, que têm ir e têm voltar,
haverá um tempo que não seja também ele, teu?

e eu que caminhava resoluto para longe da falésia
quero correr de volta
e saltar,
cair,
pedra no poço abismal de te ser

agarro-me aos ramos secos da árvore encefálica
com mortas mãos cansadas desobedientes
o corpo bandeira negra centrípeta,
soltando-se

e
metes uma tampa no abismo,
o ar pára repentino
as estrelas desalinham-se
e posso voltar a chorar-te de novo

6.3.19

o peso de mim é não te voltar a ter


o peso das palavras é o de não o terem
os espaços que deixamos entre elas,
a pontuação com que as segregamos,
a linha deixada em branco no início do poema.

o peso das coisas é o de não serem
excepto quando as olhamos a elas,
a realidade delas existe apenas na mão
de alguém, nos olhos de quem as vê

o peso das manhãs é o da ausência
e elas existem na carência de um toque
na pausa entre um abraço e o próximo

o peso dos dias é o das horas lentas
e todos os momentos são lágrimas
que não são choradas, derramadas

1.3.19

death and taxes

tão inevitável como o sol nascer
é ele se pôr.

27.2.19

de templos abandonados

o passado enrola-se sobre si mesmo
e cospe um simulacro de presente
que é apenas a ausência de futuro

o vazio das horas é o silêncio do tempo
um templo negro consagrado à alma cansada
dessacrado pela memória solarenga
do verde gasto das árvores à beira da estrada
do balir velho das ovelhas pastantes
da garrafa vazia ao fim do dia

o cinzento do céu invade a cúpula aberta
nevoeiro de medo impregnado
que enche este vazio a meu lado
toma formas demoníacas, feiticeira
remove de mim a maldição de ser teu!

esquecidos os nomes que adornam
as pedras tumulares a que chamo chão
dedico mais um altar as noites negras
e cânticos em voz pagã se erguem
gritando por deuses há muito perdidos

repito rituais, interpreto sinais
víscerómante me visto e vejo
procurando no fundo de mim
um Omega para o meu Alfa,
o zénite do meu nadir.

astrolábio partido azimute perdido
sem rumo, sem sentido
deixo a corrente do mar para me levar
através do horizonte de areia e ruína
até um qualquer paraíso que possa existir.

18.2.19

a minha próxima namorada

a minha próxima namorada
será contabilista ou algo igualmente aborrecido
será feia,
uma daquelas caras que só o amor
(ou o álcool em doses massivas)
pode achar bela.

será normal,
completamente normal e banal,
não terá escrito mais nada depois da faculdade,
nunca terá estado numa banda,
nem feito filmes, artes.

ela nunca me compreenderá,
mas amará o mistério do que penso,
como uma criança ama fogos de artifício.

ela nunca me fará companhia à alma,
só ao corpo
e senti-la quente junto a mim será sempre
traição
à felicidade que poderia haver para mim

será um bocado idiota,
não perceberá a poesia que deixarei de escrever,
não conhecerá a cor dos meus sonhos
nem o sabor do meu pensar,
nunca terá lido clássicos,
ou literatura que não técnica.

não será amante de música
e a nossa casa estará sempre no silêncio
da televisão ligada numa novela qualquer

nada perceberá de transistores e computadores
nem precisará de o saber,
bastar-lhe-a cozinhar para mim,
massajar-me os ombros,
ajoelhar em frente a mim e esconder a cara feia
na minha virilha

não serei feliz nela,
mas ela nunca me deixará
e sentir o amor que ela me dará
sem que eu lho dê de volta
chegará.

Nunca sorrirei de verdade junto a ela
mas nunca me fará derramar lágrimas
de manhã.

17.2.19

de palhaços sonhadores e do efeito suave do tempo

cada beijo é o último,
vivo-te como se já me definhasse o cancro
cada toque da tua mão é extrema-unção
cada prega do teu vestido mortalha
cada até depois
campa e pedra tumular. 

E de cada vez que o teu sorriso me foge
sinto a campa a ficar mais funda
o caixão mais apertado
o ar rarefeito 
a terra..
a terra a cair sobre os olhos
as pálpebras quebradas com o peso de lágrimas
os ossos já cinza cá dentro
sinto-me empalhado de ti
e transbordo-te,
palha

tudo me sabe a palha
a seco a sujo a frio a merda
a um carreiro de bosta de ovelha
que sobe por entre os penedos
até ao topo da serra
até aonde os deuses se sentam
rindo-se de mim.

pagliacci sono i me rido
pagliacci sono i me piango

lágrimas carregadas de base atingem-me o peito
escrevendo sulcos na pele
queimando (como arde a pureza da tristeza
           contra a minha carne de pecado)

um par de tiras de paraíso - escrevi-
-te um dia - rodeiam o teu sorriso e
tudo o que eu preciso é ouvir-te o riso
e perco-me de todo o meu siso. 

Ai! quem dera ser não poeta
e não conhecer e amar tão bem esta senhora de preto
que tantos nomes em si carrega
mas nenhum nome seu tem.

Ai! Quem me dera não ser poeta
conseguir beber e esquecer sem ter de escrever...

deixo-me devorar pela melancolia 
nostalgia de um futuro que nunca foi
sonho..
..o sol nasce sobre uma praia que é nossa
e vemos as gaivotas pousando à beira da agua
e nas árvores que rodeiam o alpendre
cantam passarinhos fofinhos aos raiozinhos de sol
e todas essas merdas alegres 
que acabam
quando os olhos se abrem para a parede branca
vazia
fria, a cama está fria
ainda cheiro o teu whisky nos lençóis
e não toco a almofada,
quero-a marcada com o teu pescoço 
lembrança marca pedra quem sabe se nera ou alva

está pontilhado de pausas o tempo
existe e de-existe e existe e de-existe
e insiste em parar            e recomeçar
mas nesse espaço em branco entre tempos

a minha cara lembra-se do formato do meu sorriso
e do tamanho dos meus dentes
e de como os olhos se semicerram levemente
e de como a testa se enche de rugas
e da profundidade do sulco das minhas covinhas

o meu corpo recorda-se de toda a sua extensão
e do bater do sangue que corre pelos vasos 
e do sabor da electricidade a percorrer os músculos
e as pontas dos dedos tornam-se portais
para dimensões sensoriais sensuais sexuais
e tudo dentro de mim arde em quase fúria de vontade
e tudo dentro de mim corre rumo ao clímax explosivo 

mas

o tempo volta e re-existe e esqueço
sorriso; corpo; fúria.
o magma arrefece, solidifica, volta a ser pedra murcha
as horas correm de novo sem rumo sentido ao que virá
e eu desligo tudo e devoro-me de tristeza até secar
e ficar a contar o passar regular dos segundos
até que o tempo    volte      a            parar

e                       recomeçar. E contar e parar e recomeçar
e
  um dia, o tempo vai parar para sempre e vou-me esquecer
  do som dos ponteiros do relógio a andar.

14.2.19

carne de alma ao almoço

devoro-me
consumo o meu ser com a esperança
que fraca e franca (e vêm da França!)
alitero altivamente alma alminha
calma calminha
desvio-me e fujo
por um corredor de semantica
corto na porta léxica
e mergulho fundo na ortografia
fobia, corria da poesia
e ao fim de qualquer dia
já que não sorria, bebia.

(e depois as palavras passam por mim
 e tocam cá dentro onde uma pedra negra marca o fim
 e sinto que me esfumo
             que me desfaço nas lágrimas
             que me afogo em sentir
                                     em fugir)

volto aos corredores escuros, duros
procuro furos onde enfiar este sonhar
e lá o deixar a fermentar até o dia acabar
o tecto desabar e enterrar em terra tépida
o carvão do meu coração carbonizado
até que este seja diamante
para o usar no dedo, cintilante
ventilante, acutilante, cicatrizante
atordoante,
anestesiante amenizante pulsante pustula
a ponto de rebentar
e encher todo o ar
com o som da minha voz a chorar
                                                 derramar
                                                derrapar em verbos
que quero querer proibir-me de dizer
                                 proibir-me de pensar
                                 proibir-me de sentir.

 Escrevo e devoro-me,
consumo o que sinto e quero sentir
                                       e quero não sentir
e no fim, bulimicamente,
vomito-me todo em palavras que nem para mim sentido fazem.
quadros desenhados a letras
 onde escondo o pôr do sol
atrás das árvores que pintei no carreiro
e sou sempre o primeiro
e o ultimo a chegar
nas paisagens que desenho
não te consigo pintar por não saber a cor da felicidade

devoro-me
alimento-me deste vazio
que fica tão menos frio
quando te sonho a sorrir.

amor!
estupor, terror, dor, um último tremor
de calor
antes do sol se pôr.

navego entre palavras,
só a elas as tenho (e são frias, vazias,
                                  as cabras esguias)
e só nelas vivo
e só nelas sou,
marinheiro de águas doces
encalho-me sempre quando tento aportar
onde queria amar.

13.2.19

letargia III

apetece-me nada.
com uma fúria imensa
apetece-me nada.

nem casa nem carro nem família
nem ser
nem estar

apetece-me nada me apetecer
e nada ter
ser
nada,
vazio
o universo inteiro,
mas frio.

com a raiva de sois em explosão
apetece-me
nada.

nem uma só partícula de existência,
nem um raio solar solitário
nem sequer o cair da noite

apetece-me apenas
o nada
e nada
mais
...

Letargia II

o mundo caí em volta a mim
e quase o sinto correndo para um fim
mas no deserto do nada
em que caminho rumo ao pôr do sol
só os ventos de passado
caminham a meu lado
e o meu cantil de esperanças
está seco,
a última gota bebida há tantas gerações
e no meu alforge sem comida
carrego apenas os ossos secos
de um amor morto que recuso enterrar

caminho,
rumo ao nada de amanhã,
caminho,
fugindo do ontem onde queria morar
para sempre.

(mas todas as tendas arderam
          todos os poços secaram
       e todos os campos estão mortos,
 coisa nenhuma crescerá lá de novo)

3.2.19

vêm

não precisas de dizer nada,
vêm só e abraça-me por detrás
agarra-me e faz-me esquecer tudo,
o teu toque em mim cura milagrosamente
a maldição de Babel

vem, vamos escrever novas estrofes
para ti
a noite toda.

vem, quero esquecer o universo
no teu sorriso...