o frio tem um toque de verde, hoje
o sol quase acaricia a pele
retraindo-se apenas no último instante
e um urro de luz berrante
faz-se sentir às estátuas
que passeiam seus cães pela rua
nua, sem uma lua nem minha nem...
o frio entra pela garganta pelos dedos pelos olhos
penetra como espada no âmago de mim
e juro sentir-lhe a mão
apertando-me o coração
o frio de hoje cheira levemente a amor
como uma casa onde o incenso ainda disfarça
o odor de suor de semen de lágrimas de sorrir
cheira a beijos em lábios quentes
a um abraço de corpo e alma inteiros
uma pratada de sopa de legumes partilhada
a um cigarro na almofada
o frio, hoje, é um cobertor pesado
pousado sobre as minhas costas
cruz que não me seduz nem reluz
e eu! que supus que me servia o capuz!
o frio, hoje, é um casal que discute
com ódio na língua e veneno nos lábios
medo nos olhos e crianças a chorar
o frio já é tudo,
consumiu-me o universo
e se há sol,
se há caderno,
se há cerveja ou cigarro
já não o sei,
o frio é tudo
e eu
tudo com ele sou.
o frio de hoje é eu não ter calças debaixo de calças
e não me aquecerem esperanças falsas
é os sonhos não terem força nas pernas
para andar e correr
é um sorriso amarelo que já não acende
e a companhia que tarda a chegar
o frio de hoje é só meu
não o partilho com ninguém
guardo-o para mim com mal disfarçada avareza
roubado que foi à Natureza,
em mim,
ele congela a incerteza na pureza
do tampo sujo desta mesa
um gatafunho escavado,
há sabe deus quantos séculos,
dizendo
hoje o frio sou eu
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