31.12.10

somos os intrevalos
entre a vida que vivemos
e os segundos em que somos

19.12.10

ennui

as vezes,
gosto de parar.

e contemplar a vida.
(ela olha-me nos olhos
e diz "não tenho nada
para te dar)
tenho saudades do passado que nunca foi. Procuro sempre manter em mim a memória do que poderia ter sido, do que poderá ainda ser um dia e do que nunca existiu. Sou menos do que a soma das partes, não sou o total dos meus desejos e ambições, mas sim uma concha que acolhe em si todas as coisas que queria ser. Deixei de querer ser para poder ter querido e ainda o saber. Deixei a vontade para trás, esqueci-a abandonada a um canto e agora sou nada. Sou algo, sou alguém, sou alguma coisa que existe porque já existia antes de se aperceber e porque daria demasiado trabalho deixar de ser. Existo, porque aqui estou e porque escrevo. Penso porque sei como escrever, porque sei como dizer o que me passa pela cabeça. O passar-me algo pela cabeça de todo, implica que existo, mas o que implicaria estar vivo? Será viver apenas respirar, comer, andar, falar? Não será o sonho necessário à vida? Podemos estar vivos se não temos sonhos? Ou seremos apenas máquinas, mecanismos, aparelhos? Eu sou eu, ou eu sou apenas uma camada superficial de tinta que esconde outra coisa? Eu quero estar vivo e ser vivo, ou quero estar aqui e agora? Serão contraditórios os termos viver e sobreviver ou complementaram-se? Existirá uma palavra que descreva de verdade a nossa razão de ser? Sou um robot, um relógio analógico que diz ao mundo, quando este pergunta, quantos anos passaram desde que o mundo nasceu. Pois que provas tenho eu que o mundo nasceu antes de mim? O mundo existe apenas na minha cabeça, o mundo existe apenas na minha mente, o universo inteiro é nada mais do que um berlinde perdido nos meus pensamentos. Eu nasci e ao nascer dei à luz um universo, onde cresço, como, amo e morrerei. E quando a luz da minha vida se apagar, também os milhares de milhões de sois se irão apagar nos céus, e o meu filho, universo, morrerá comigo.

Parla Basso.

não deixes que te oiçam,
os Deuses nos céus distantes,
eles roubam-te os sonhos,
e dão-te tristeza eterna.

Não deixes que te oiçam,
os demónios nos Infernos quentes,
eles comem a tua felicidade,
e matam-te os sonhos.

Não deixes que te oiçam,
aqueles que por ti passam,
querendo a tua razão de ser,
deixando-te pobre de alma.

Não deixes que te oiçam,
fala baixo.

14.12.10

sentimentos fazem mal à alma
sentir é para os fortes de espirito,
para aqueles que os aguentam.

quero.

quero limpar-me da poesia,
livrar-me dela,
não a ver mais.
Poesia doí cá dentro,
empurra e quer sair,
explode-me o cérebro
se não lhe fizer a vontade.

Atraso,
tanto quanto posso,
a cama.

dormir,
que bem que me sabia,
não quero.

O sono trás-me amanhã,
e o hoje chegou-me.
Não quero mais,
não quero ontem,
não quero amanhã.

Mas quero o dia depois disso,
o dia que ainda não nasceu,
esse quero-o.

Quero a possibilidade de tudo!
Quero felicidades e tristezas,
mas que sejam futuras,
que por hoje já me chega.

repito-me.
a toda a hora,
escrevo o mesmo poema
vezes e vezes sem conta,
mudo-lhe uma estrofe,
corto-lhe um verso,
adiciono-lhe uma rima,
mas nunca lhe mudo o tema.

Sou velho e burro,
não mudo não aprendo não cresço.
Parado na infância,
de onde não desejo sair.

Cá dentro estamos tão bem!

cá dentro não há guerras,
não há fome ou medo,
não há frio, calor, sede, sono,
cá dentro há apenas paz
e a paz faz-nos tão bem.

Dá-me paz,
e entrego o mundo nas tuas mãos.

Mas a paz é curta,pequena, matreira,
acaba antes mesmo de começar,
porque duvido de tudo,
sou incapaz de aceitar.

Acredito em mim,
mas nem nisso acredito.
Tenho fé em nada.
Tenho fé no nada.

No abraço gentil da noite,
membros de lua cheia
que me envolvem
e aquecem a alma.

Quero ser tudo,
Quero ter tudo,
Quero ver tudo,
Quero tocar,
amar,
odiar,
sentir tudo.

Quero ser um Deus
que olha a terra dos céus
e molda ao seu feitio.

Quero ser uma folha,
que nasce num ramo da árvore
e morre levada pelo vento.

Quero ser um desejo,
que brota na mente de alguém,
e nunca se concretiza.

Enalteço-me como se fosse um Deus.
Canto às nuvens e aos picos das montanhas,
a minha grandeza e o meu poder,
aquilo que me faz ser maior,
o que me dá asas para voar,
para ser menos,
menor,
pequeno.

Sou uma puta de uma migalha,
caída num chão não aspirado
de um quarto de poeta.
Sou uma bosta de uma mosca,
um ponto negro no edredon preto,
de um quarto de poeta.
Sou uma porra de lenço sujo,
usado e atirado para o lixo cheio,
de um quarto de poeta.
Sou a cabra de uma beata,
apagada entre as cinzas do cinzeiro,
de um quarto de um poeta.

Sou tudo isto,
e quero ser mais ainda
pois há coisas que não sou ainda.

Quero ser o sol,
e aquecer-te a pele quando caminhas,
quero ser a lua,
e dançar no céu entre as estrelas,
quero ser o mar,
e fazer amor contigo todo o dia,
quero ser lava,
e escorrer pelas tuas montanhas,
quero ser rio,
e correr nos teus vales.

Quero ser pobre,
e experimentar a fome.
Quero ser rico,
e experimentar o ódio,
Quero ser burro,
e conhecer a tristeza,
ser feliz
e morrer assim.

Sou um reflexo num espelho.

Tenho os mamilos da mente
túrgidos.
Dilatados, inchados, intumescidos.
Grandes.
Estimulados.
Contentes.

Bebo,
o alcool leva-me a casa,
arrasta-me para cama,
doce vodka,
vamos fazer amor?

Estou seco.
Sem alma, sem sumo.

Espremi-me todo para ti
e agora que me bebeste
nada sobrou.

Sombra,
sempre a ideia de uma sombra,
de algo que não existe mesmo,
de algo que não é de verdade.

Sou um reflexo num espelho.

13.12.10

porque a necessidade de escrever? sinto-me obrigado, compelido, forçado a escrever,
empurrado, pela musica talvez. musica faz-me escrever. será? ou será algo mais que me força?
estou pedrado, isso é óbvio.
devia ir dormir. isso é também óbvio.
acabar esta e ir.


dormir,
esquecer.

amanhã é dia
e dia que é dia
tem de amanhecer.

nem assunto nem destinatário, uma carta branca.
minha alma é um poço, um livro aberto,
qualquer um a lê
qualquer um me desvenda
se assim quiser.

não sou mais do que prometo,
pois nada prometo.

por vezes gostava de poder aqui ficar para sempre, sentado a escrever, fumar e beber,
ser apenas isto, apenas o 'real' eu.
não ser o eu que trabalha
não ser o eu que se mexe e faz
mas sim o eu que preguiçosamente se senta na cadeira,
quase deitado,
e escreve furiosamente no teclado,
batendo as teclas com raiva,
que fúria já usei,

..e depois paro.
abruptamente,
e mudo.
eu fodo a normalidade no cú.

Penetro-a com toda a minha furia
arrancando-lhe os cabelos.

12.12.10

estou aborrecido PORRA!
quero falar,
quero comunicar
quer exprimir ideias
e plantar colmeias
danças sobre aldeias
queimar as PUTAS
e nadar no seu sangue.
quero ser algo menos.
sou demasiado,
não me aguento inteiro,
preciso de um descanço,
de uma pausa,
de desligar.

may tomorrow never come, today is enough.

hoje chega-me.
não preciso de mais
do que hoje.

Ontem é longe e não me intressa,
já não carrega consigo
nada que que queira levar.

Amanhã será,
se tiver de o ser,
mas não o quero,
porque estou inteiro em hoje,
estou completo no agora.

Não quero passado,
não quero futuro,
quero apenas ser,
e hoje.
sou.

I

Um poema é amor,
nada mais do que amor,
uma flor no cabelo,
de uma bela donzela,
uma folha amarrotada
ao chão atirada,
espezinhada,
esfaqueada,
morta,
sem valor,
amor.

Um sonho vivido,
uma memória sonhada,
um desejo escondido,
uma casa abandonada.

Poema é amor,
é dor.
Dor é também ela, amor,
pois tudo o é.

Perdido no espaço,
solto no tempo,
como o cabelo esvoaçante
de um anjo andante,
que voa sobre as estrelas,
perdido.

Amo-te folha branca,
com uma fúria,
que nasce do vazio,
do medo,
do frio.

Sou apenas a caneta
que nas minhas mãos escreve

Sonho sonhar um sonho
que quero acabar,
um desejo imenso,
de não morrer,
de para sempre
ser.
amor.

Amo-me,
com força e violência,
com fúria e disciplina,
preciso como uma agulha,
espeto a pena
no meu coração
para ver o sangue
cair no chão.

Morto.
Já não posso morrer mais
do que aquilo que já vivi,
morri.

morri eu ou
morreu o mundo
a minha volta?

Sou orfeu renascido,
lança no peito espetada,
braços caídos,
na chuva.

Sou um cigarro apagado,
um desejo esgotado,
uma sombra do que
brilha por cima.

Sou páginas
de gatafunhos,
rabiscados à pressa,
no meu leito final,
leite.
do cropo da alma
do frio
que me abraça,
que me ataca,
que me faz querer.

Eu quero.

Quero com todos os poros,

espirrar a minha alma,
sobre folhas brancas.

Doí ser eu,
tal como doí seres tu,
porque a vida é dor,
tal como o amor,
é poesia,
também eu morrerei
um dia.

(quero o fim mas não chega)

Óculos sobre a mesa,
vejo desfocado,
pois desfocado existo.
Doí.
Doí tanto que quero acabar
quero dormir,
mas ela canta dentro de mim.
Escrevo por necessidade,
nunca por vontade.

Rabisco a folha,
palavras sem fim,
sem nexo,
sem desejo.

Vontades tenho,
mas não as quero
mais do que quero
lavar o carro que não tenho.

Suspirando vou andando,
dor,frio,dor,frio,
choro lágrimas secas
por não ser
nada
do que quero

Nada.
Nada até lá chegares
pois aqui
não o vais encontrar.

Nexo? Não.

Palavras
atrás de palavras,
tenho medo.

De te perder, poesia
de me perder, poeta.

Sou poeta,
porque o quero ser.

Sou uma irritante comichão,
pulgas!
Em meu colchão.

Frio, dor, medo, poema.
Tudo é em si
nada mais do que é.

choro de novo,
lágrimas sem sal,
pois sou insonso
sem sabor,
sem razão,
sem querer.

Desejo.
Ah, como o desejo,
ao desejo.

Paro,
inspiro,
respiro,
Acabo?
estou morto.
Há muito que morri,
Porque será que
nunca me apercebi?

Não posso,
não quero,
mas não paro.

Sigo, em frente.

até chegar o dia,
em que mais caminho,
em frente não há.

nado oceanos,
vastidões imensas de nada,
corro desertos,
vastidões imensas de nada,
morro no fim,
porque a morte,

ah!
a morte,
essa chega,
sempre.

Perdi.
Tudo e todos,
perdi.

Não aceito já o meu destino,
carrego,
insisto,
cHega.

Amor é poesia,
poesia é amar,
dor é medo,
medo é dor,
chega.
não quero mais continuar

Volto-me para dormir,
de cigarro nos lábios,
pois eu e a folha,
acabamos de foder.

aborreço-me de tudo o que existe.

Hoje quero apenas ouvir musica e existir.
Ser apenas os meus ouvidos,
ser apenas a minha existencia,
sem pretensões de algo mais,
sem estimulos outros que
as notas que me dançam no cinzento
labirinto cerebral.

Quero apenas existir pelos dedos
que nas teclas carregam
e dizem pelos meus labios
aquilo que desejo dizer.

hoje quero apenas ser,
porque dá muito trabalho,
deixar de o ser.

Quero ouvir musica e deixar que ela me transporte,
ser arrastado qual folha ao vento
na minha psique malformada
pela musica mal amanhada
que não para de tocar.

Hoje quero apenas ser,
não quero agir,
não quero reagir,
quero só,
ser.