27.2.19

de templos abandonados

o passado enrola-se sobre si mesmo
e cospe um simulacro de presente
que é apenas a ausência de futuro

o vazio das horas é o silêncio do tempo
um templo negro consagrado à alma cansada
dessacrado pela memória solarenga
do verde gasto das árvores à beira da estrada
do balir velho das ovelhas pastantes
da garrafa vazia ao fim do dia

o cinzento do céu invade a cúpula aberta
nevoeiro de medo impregnado
que enche este vazio a meu lado
toma formas demoníacas, feiticeira
remove de mim a maldição de ser teu!

esquecidos os nomes que adornam
as pedras tumulares a que chamo chão
dedico mais um altar as noites negras
e cânticos em voz pagã se erguem
gritando por deuses há muito perdidos

repito rituais, interpreto sinais
víscerómante me visto e vejo
procurando no fundo de mim
um Omega para o meu Alfa,
o zénite do meu nadir.

astrolábio partido azimute perdido
sem rumo, sem sentido
deixo a corrente do mar para me levar
através do horizonte de areia e ruína
até um qualquer paraíso que possa existir.

18.2.19

a minha próxima namorada

a minha próxima namorada
será contabilista ou algo igualmente aborrecido
será feia,
uma daquelas caras que só o amor
(ou o álcool em doses massivas)
pode achar bela.

será normal,
completamente normal e banal,
não terá escrito mais nada depois da faculdade,
nunca terá estado numa banda,
nem feito filmes, artes.

ela nunca me compreenderá,
mas amará o mistério do que penso,
como uma criança ama fogos de artifício.

ela nunca me fará companhia à alma,
só ao corpo
e senti-la quente junto a mim será sempre
traição
à felicidade que poderia haver para mim

será um bocado idiota,
não perceberá a poesia que deixarei de escrever,
não conhecerá a cor dos meus sonhos
nem o sabor do meu pensar,
nunca terá lido clássicos,
ou literatura que não técnica.

não será amante de música
e a nossa casa estará sempre no silêncio
da televisão ligada numa novela qualquer

nada perceberá de transistores e computadores
nem precisará de o saber,
bastar-lhe-a cozinhar para mim,
massajar-me os ombros,
ajoelhar em frente a mim e esconder a cara feia
na minha virilha

não serei feliz nela,
mas ela nunca me deixará
e sentir o amor que ela me dará
sem que eu lho dê de volta
chegará.

Nunca sorrirei de verdade junto a ela
mas nunca me fará derramar lágrimas
de manhã.

17.2.19

de palhaços sonhadores e do efeito suave do tempo

cada beijo é o último,
vivo-te como se já me definhasse o cancro
cada toque da tua mão é extrema-unção
cada prega do teu vestido mortalha
cada até depois
campa e pedra tumular. 

E de cada vez que o teu sorriso me foge
sinto a campa a ficar mais funda
o caixão mais apertado
o ar rarefeito 
a terra..
a terra a cair sobre os olhos
as pálpebras quebradas com o peso de lágrimas
os ossos já cinza cá dentro
sinto-me empalhado de ti
e transbordo-te,
palha

tudo me sabe a palha
a seco a sujo a frio a merda
a um carreiro de bosta de ovelha
que sobe por entre os penedos
até ao topo da serra
até aonde os deuses se sentam
rindo-se de mim.

pagliacci sono i me rido
pagliacci sono i me piango

lágrimas carregadas de base atingem-me o peito
escrevendo sulcos na pele
queimando (como arde a pureza da tristeza
           contra a minha carne de pecado)

um par de tiras de paraíso - escrevi-
-te um dia - rodeiam o teu sorriso e
tudo o que eu preciso é ouvir-te o riso
e perco-me de todo o meu siso. 

Ai! quem dera ser não poeta
e não conhecer e amar tão bem esta senhora de preto
que tantos nomes em si carrega
mas nenhum nome seu tem.

Ai! Quem me dera não ser poeta
conseguir beber e esquecer sem ter de escrever...

deixo-me devorar pela melancolia 
nostalgia de um futuro que nunca foi
sonho..
..o sol nasce sobre uma praia que é nossa
e vemos as gaivotas pousando à beira da agua
e nas árvores que rodeiam o alpendre
cantam passarinhos fofinhos aos raiozinhos de sol
e todas essas merdas alegres 
que acabam
quando os olhos se abrem para a parede branca
vazia
fria, a cama está fria
ainda cheiro o teu whisky nos lençóis
e não toco a almofada,
quero-a marcada com o teu pescoço 
lembrança marca pedra quem sabe se nera ou alva

está pontilhado de pausas o tempo
existe e de-existe e existe e de-existe
e insiste em parar            e recomeçar
mas nesse espaço em branco entre tempos

a minha cara lembra-se do formato do meu sorriso
e do tamanho dos meus dentes
e de como os olhos se semicerram levemente
e de como a testa se enche de rugas
e da profundidade do sulco das minhas covinhas

o meu corpo recorda-se de toda a sua extensão
e do bater do sangue que corre pelos vasos 
e do sabor da electricidade a percorrer os músculos
e as pontas dos dedos tornam-se portais
para dimensões sensoriais sensuais sexuais
e tudo dentro de mim arde em quase fúria de vontade
e tudo dentro de mim corre rumo ao clímax explosivo 

mas

o tempo volta e re-existe e esqueço
sorriso; corpo; fúria.
o magma arrefece, solidifica, volta a ser pedra murcha
as horas correm de novo sem rumo sentido ao que virá
e eu desligo tudo e devoro-me de tristeza até secar
e ficar a contar o passar regular dos segundos
até que o tempo    volte      a            parar

e                       recomeçar. E contar e parar e recomeçar
e
  um dia, o tempo vai parar para sempre e vou-me esquecer
  do som dos ponteiros do relógio a andar.

14.2.19

carne de alma ao almoço

devoro-me
consumo o meu ser com a esperança
que fraca e franca (e vêm da França!)
alitero altivamente alma alminha
calma calminha
desvio-me e fujo
por um corredor de semantica
corto na porta léxica
e mergulho fundo na ortografia
fobia, corria da poesia
e ao fim de qualquer dia
já que não sorria, bebia.

(e depois as palavras passam por mim
 e tocam cá dentro onde uma pedra negra marca o fim
 e sinto que me esfumo
             que me desfaço nas lágrimas
             que me afogo em sentir
                                     em fugir)

volto aos corredores escuros, duros
procuro furos onde enfiar este sonhar
e lá o deixar a fermentar até o dia acabar
o tecto desabar e enterrar em terra tépida
o carvão do meu coração carbonizado
até que este seja diamante
para o usar no dedo, cintilante
ventilante, acutilante, cicatrizante
atordoante,
anestesiante amenizante pulsante pustula
a ponto de rebentar
e encher todo o ar
com o som da minha voz a chorar
                                                 derramar
                                                derrapar em verbos
que quero querer proibir-me de dizer
                                 proibir-me de pensar
                                 proibir-me de sentir.

 Escrevo e devoro-me,
consumo o que sinto e quero sentir
                                       e quero não sentir
e no fim, bulimicamente,
vomito-me todo em palavras que nem para mim sentido fazem.
quadros desenhados a letras
 onde escondo o pôr do sol
atrás das árvores que pintei no carreiro
e sou sempre o primeiro
e o ultimo a chegar
nas paisagens que desenho
não te consigo pintar por não saber a cor da felicidade

devoro-me
alimento-me deste vazio
que fica tão menos frio
quando te sonho a sorrir.

amor!
estupor, terror, dor, um último tremor
de calor
antes do sol se pôr.

navego entre palavras,
só a elas as tenho (e são frias, vazias,
                                  as cabras esguias)
e só nelas vivo
e só nelas sou,
marinheiro de águas doces
encalho-me sempre quando tento aportar
onde queria amar.

13.2.19

letargia III

apetece-me nada.
com uma fúria imensa
apetece-me nada.

nem casa nem carro nem família
nem ser
nem estar

apetece-me nada me apetecer
e nada ter
ser
nada,
vazio
o universo inteiro,
mas frio.

com a raiva de sois em explosão
apetece-me
nada.

nem uma só partícula de existência,
nem um raio solar solitário
nem sequer o cair da noite

apetece-me apenas
o nada
e nada
mais
...

Letargia II

o mundo caí em volta a mim
e quase o sinto correndo para um fim
mas no deserto do nada
em que caminho rumo ao pôr do sol
só os ventos de passado
caminham a meu lado
e o meu cantil de esperanças
está seco,
a última gota bebida há tantas gerações
e no meu alforge sem comida
carrego apenas os ossos secos
de um amor morto que recuso enterrar

caminho,
rumo ao nada de amanhã,
caminho,
fugindo do ontem onde queria morar
para sempre.

(mas todas as tendas arderam
          todos os poços secaram
       e todos os campos estão mortos,
 coisa nenhuma crescerá lá de novo)

3.2.19

vêm

não precisas de dizer nada,
vêm só e abraça-me por detrás
agarra-me e faz-me esquecer tudo,
o teu toque em mim cura milagrosamente
a maldição de Babel

vem, vamos escrever novas estrofes
para ti
a noite toda.

vem, quero esquecer o universo
no teu sorriso...