13.1.18

excertos do Livro de Vísceras e Entranhas

sargaços vermelhos sangram sobre o areal do paraíso
mecanismos arcaicos de adivinhação falíveis falham
e calham a todos os dias de não nascer de manhã
o pé pela boca adentro e o sorriso que cheira a chulé
as meias e os seus rompimentos e batimentos cardíacos
descartadas pelos anjos e demónios e tudo o que é no meio
caídas junto aos pés da cama onde se chora e se sonha e se ama
liquefeitas as éguas nocturnas em papa de bebé
e nas sombras sempre aquela sombra mais sombra de pé
...
e a cada dez passos tropeçamos nos sargaços.
...
...
sem epidural, espetada na espinha dorsal
e sem cesariana, anestesiologia que se dane!
saímos pela cona à bruta, à filhos da puta
e fomos parar ao meio do chão
gemendo e chorando como um pequeno cão
que ao dono teme a mão
...
...
mas nos dias em que o sargaço substitui a areia
e os pés se prendem nas algas ao andar
temos tempo para parar e contemplar
o sol a levantar e deitar
e descobrir que é mais bela a aurora
quando estamos juntos lá fora
e mais apaixonante o poente
quando somos do universo toda a gente

e por muito suja que a areia esteja ao cair da noite
a maré virá e de manhã
...

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