20.4.04

POEMA I

Como uma folha que cai,
deixo-me morrer no fim do dia,
procuro um instante em mim,
um segundo frio,
um sonho de quem não viu..

escrevo por escrever,
palavras ao calhas,
desejos que nunca tive.

Sou poeta pensador, 
prometo o mundo,
trago-te a dor.

Sinto-me cansado, velho.
Fraco, estúpido.
Sou apenas mais um,
um risco na contagem final.

Nunca o melhor,
talvez mesmo o pior.

Marquei apenas pela negativa,
deixei uma imagem má,
por ser mau no fundo.

Sou malefício para a sociedade,
'pitxa', 'junkie', drogado,
ressacado, ressábiado.

Sou uma imagem negra na tua história,
uma sombra escura que
procuras esconder.

Comecei sem saber o futuro,
acabei não conhecendo já o que foi.

Nébulas nebulosas, nuvens,
obscureces-me o futuro,
por seres o passado.

O presente não conta,
é apenas papel rasgado,
atirado para o chão.

Sofro tanto quanto os outros,
mas queixo-me mais,
apenas por saber como o fazer.

Continuo a escrever,
a descrever as mágoas que me afligem,
a trucidar a verdade.

Esquartejo-me aos poucos,
deixo-me morrer.

Mato-me com nicotina,
morte lenta, súbita, tanto faz,
fumo por gostar,
gostar da ideia de vir a morrer.

É mentira, não acredites,
tu inocente, que finges ler,
é tudo poesia, logo mentira.

MAS! toda a poesia é falsa,
por ter nela toda a verdade.