23.8.12

raison d'être

não encontro motivos,
 de novo,
não sei desejar coisas,
não sei ter vontades,
não sei sonhar.

existo apenas,
e os dias passam por mim
folhas sopradas pelo vento,
roçado-me a cara por vezes,
prendendo-se ao meu cabelo,
enfiando-se nos meus olhos,
mas sempre insignificantes.

porque devo continuar?

em mim não há nada que me faça estar,
nos outros não sinto desejo de me ver estar.

porque não parar por aqui,
dizer que já chega,
que me fartei de tudo,
que não quero mais sofrer para poder ser feliz um dia?

um dia,
mais tarde,
eventualmente,
um dia.

mas o dia não chega.
o dia não vai chegar.
os dias passam por mim sem me tocar,
e cada dia estou mais longe de quando fui feliz
e cada dia estou mais perto de quando for velho
e cada dia é sempre igual ao dia anterior,
mas um pouco mais pesado,
sempre mais pesado,
até que um dia,
não vou querer aguentar o peso nas minhas costas.

até que um dia,
não vou querer abrir os olhos para ver a chuva e o frio.

até que um dia,
não vou querer mexer-me para que outros tenham coisas
(que minha é apenas a dor,
 que minha é apenas a felicidade
  (está perdida, essa,
   não sei onde a deixei)
 que meus são apenas os cigarros que fumo
 para não ter tempo de pensar).

até que um dia,
os dias deixaram de passar e serei eternamente nada,
de verdade.


20.8.12


 I have dreamt stuff you couldn't imagine.
 Attack ships? Ah, that's for lame replicas of humans.
 I have dreamt of planets rebuilt for war, hollowed out rocks, armed
with energy beams so powerful they can kill stars.
 I have dreamt of gates where you could fly a galaxy through.
 I have dreamt of aliens and monsters and beasts, all frolicking
together on the blue grass under the green sun of a distant star.

 I have had dreams of fame and fortune, I have had dreams of
poverty and famine,
I have dreamt of the ending of the universe and me, laughing at it,
alone as always.
 I have dreamt of streets and rivers and skies filled with moving boxes,
by men driven and driving men.
 I have dreamt of the beginning of the universe and me, crying at it,
alone as always.
 I have dreamt of books,
 I have dreamt of movies,
 I have dreamt of games,
 I have dreamt of code, line after endless line of code,
green over black, procedure after procedure, methods that call methods,
recursive cascades of instructions.
 I have dreamt of a pen,
slowly writing my life.
 I have dreamt of a old notebook dusty as time it self,
of the lines that I wrote in it,
of the names that I loved in it,
of the times that I cried to it.
 I have dreamt of boys and of girls,
 I have dreamt of sex and love,
 I have dreamt of fear and happiness,
 I have dreamt of nothing,
  for days unending,
  I dreamt of nothing
  but the darkness.

 I have dreamt of you, but as I always do,
woke up alone.

15.8.12

criogenia encharcada em lágrimas secas

tenho estado congelado,
parado no tempo,
nada se passa,
nada existe,
nada muda.

tenho medo do dia em que o tempo recomeça a contar,
tenho medo do fim do mundo
que está a chegar.

cedo,
dizem-me as vozes na minha cabeça,
cedo,
irás deixar de ser livre,
irás deixar de ser feliz,
irás deixar de ter rumo,
cedo,
irás desaparecer,
apenas mais um fato escuro,
ninguém na imensidão da humanidade,
uma pinga à deriva,
seguindo todas as outras.

cedo,
o tempo acaba.
cedo,
o universo será não mais,
e eu,
tremendo,
encolhido a um canto,
chorando lágrimas de raiva e frustração.

cedo,
a minha espada irá quebrar,
o meu escudo lascar,
a minha armadura enferrujar,
e eu serei mais um apenas,
trabalhando de sol a sol,
minhas mãos velhas segurando uma enxada
e minha alma,
mais velha ainda,
chorando por se sentir só.

sou um trapo velho e amarrotado onde escrevi meus medos e tristezas,
e com ele limpo estas folhas de papel imaginário,
e nele derramo todas as lágrimas que meus olhos não sabem chorar.

sou um poço de desilusões,
minhas e de outros!,
e nelas nado contente em saber que nunca serei ninguém,
é tão mais fácil chorar o que nunca terei
do que procurar o que posso ter.

ainda hoje te sinto no pulsar das minhas veias,
apertando-me o coração e cortando-me a respiração :
não te sei falar, porque em cada palavra
tenho medo de te perder.