19.12.23

a última estação

era esse o mal do mundo, 
da babel mergulhada
no ócio do esquecimento,
uma psicose indiferente, 
uma tentação puxada a ferros,
um exagero divino

era essa a reminiscência subtil
do pecado original:
abdicar da mistificação do amor,
acreditar que a nitidez do sentimento
era não transubstancial,
que a metafísica do coração
eram apenas poemas de velhos bêbados

era na sexualidade incontinente
em que se apoiavam como bengala
qualificando-se apenas pela proeza
pela pujança, pelo seu numerus clausus,
que se refugiavam do real

na convicção inexorável de que
a patética herança da existência
era apenas a morte

no doméstico banal do carnal,
na superação contractual do básico, 
no desprezo racional ao sobrenatural,
em todas essas faces ele aparece, 
esse, o mal do mundo, fim do fundo, 
o núcleo escondido do adúlterio,
a porta do Apocalipse eterno,
o término fatal da criação. 

17.12.23

estereoscópica visão

 naquela casa,

o cheiro das maquinas e o crepitar da electricidade,

o peso da tecnologia, 

um futurismo da alma que abraça o amanhã

e esquece o dia de hoje, 

tudo isso escondia o suave lampejar das chamas

na lareira de tijolos de barro, 

também ela ciência e futuro no passado


há monstros no céu, 

mas esses nada assustam a quem no chão

existe


há paraísos na terra, 

infernos ao acordar e

até um purgatório de se ser,

mas naquela casa


ouvem-se as máquinas, maquinando

e o ar é elétrico em espasmos de esperança

por uma mansão, palacete de pedra

cabana de canas,  a cama camaleonica

onde dormem os sonhos da paz


nessa casa, 

onde a luz brilha com estrondo

e as sombras escondem os medos, 

nessa casa, 

onde não há presente, 

apenas futuro e passado,

nessa casa,

onde se finge que a existência é substância

e onde se sorri o esquecimento

nessa casa, 

onde só nesgas de sol entram

e todos os cantos são escuros

e cada segundo demora uma eternidade

nessa casa,

onde poema é um nome

e amor um verbo

nessa casa

sorri-se a cada olhar

e choram-se todas as ausências

1.3.23

Panoptica Universalis

o olho que tudo vê
a boca que tudo come
sensação de prisão
de esgotamento da alma
sou pura engrenagem
consumida pelo óleo que me lubrifica
sou o peso dos anos em branco, 
o espaço entre as palavras
que disse, que não disse
que fiz que não agi
que sonhei e perdi
sou o nada antes do nada
o vazio entre vazios
não me podem ver
porque não existo fora de mim

o olho, 
sempre esse olho,
em chamas de virtuosismo,
sempre esse sorriso inexistente
adivinhado apenas pelas rugas
ao canto do olho, 
o olho que grita silenciosamente
para que obedeça, respeite, aceite
aceite o meu lugar
aceite o meu destino
aceite o meu sofrimento
"inevitável, incontornável, inexcapavel.
 Resigna-te ao teu buraco no chão
 o teu universo são as grades da prisão"

escolher cada minúscula partícula
do ferro que forma as portas
desta jaula inviolável que sou o ser
que eu sou
pintar cada centímetro das paredes
com slogans pró isto e aquilo
anti estes e os outros
sou livre de ser prisioneiro
sou um ser individual e único
igual a todos os outros

encolho-me,
o olho perfura-me agonizante a mente
olha para dentro de mim
e berra em tons mudos 
na massa cinzenta que me faz eu
és único e lindo e individual
não sejas ovelha, pensa como nós

escondo-me,
a parede da minha pele parece fina
transparente
sem fisicalidade aparente
uma casca de ovo já quebrada

ofereço-me,
toma o meu corpo
já que a alma já a tens

resigno-me,
vivo dentro de Mamon 
consumido que fui à nascença
e daqui nunca sairei

o olho. 
o olho que tudo vê. 
o olho que tudo sabe. 
o olho que em todo o lado está
sempre junto a mim. 

confesso-me cansado de ser só eu
quero ser mais. 
quero ter mais. 
quero.. querer mais!
porque não hei eu de apontar minha mira
aos céus infinitos?
porque hei de ser eu toda a vida
apenas infinitesimal partícula de pó
se posso ser o vento que a carrega?
porque hei de viver fechado na mediocridade
quando posso voar nas alturas da grandeza?
está decidido!

serei rei, senhor, mestre!
a mim virão dignatários prestar tributo
a mim a grandeza do mundo futuro
irá agradecer e cantar canções de louvor
eu serei a pedra mestre da humanidade vindora
construam sobre mim as catedrais
do pensamento
ergam mas minhas costas pirâmides
de progresso
desenhem na minha pele os sigilos do ódio
pelo antigo e ultrapassado
escrevam com o meu sangue
os manifestos de adoração aos novos deuses
cantem com a minha voz
hinos à glória do senhor : EU.

encolho-me,
megalomamia esquecida pelo bruto acordar
do real

sou nada, 
um ponto final numa nota bibliografica
que ninguém lê, 
sou apenas mais uma ovelha
com a mania que é.

o olho sorri, 
sonhei
e voltei ao casulo do desejo
catarse instantânea
efémera
vazia
...
.
o olho que tudo vê
voa não sobre
mas dentro de mim
eu sou o olho que me vê
eu sou a prisão que me prende
eu sou a ideia que me nega a ideia
o pensamento que me faz burro
as correntes com que me prendo a mim
eu sou o fim do meu inicio
ainda antes de começar
e o início do meu fim
a cada passo que dou ao respirar
vejo-me pequeno
e não consigo imaginar-me mais do que isso mesmo

sou irrelevante porque irrelevante me fiz