27.6.19

um funeral para Lucifer

-0-
a longa cobra metálica cospe pessoas
pelas suas muitas bocas desdentadas
um rio de almas que corre,
enfia-se pela garganta de pedra da Mãe
desaparecendo para sempre
fugindo pelos portões rumo ao sol

encolho-me entre corpos passantes
e espremo-me em direção ao dia
lá fora é dia mas aqui crepúscula a hora
todas as horas
sempre este amarelo doente nos olhos
sempre este fresco falso e seco
sempre este murmurar constante

-0.5-
uma procissão quase solene, em passo apressado
fato domingueiro coçado e gasto
as camisas de gola semi-aberta e a gravata a sair do bolso
das calças

-1-
as cordas prendem o corpo ao chão
colchão de alcatrão que será caixão
levanto aos céus uma mão vazia,
implora clemência misericórdia perdão
mas é tarde, já me engole a terra
e os insectos atacam-me a pele seca,
vão comer até chegar ao osso
e eu serei branco puro finalmente
toda a carne pecado limpa de mim
e na boca um suspiro de alívio, fim

-2-
há uma esquina que pertence às putas
entre duas ruas sujas da idade,
e lá sentado um mendigo,
mais gasto que velho,
com a luz dos olhos cansada, esbatida
diz ele que até os anjos apagam a luz um dia
que até o sol se cansa e foge,
desaparece

-3-
um templo no topo de uma colina
colunas como dedos de pedra
esticando-se para agarrar o céu
e dele arrancar as nuvens

no altar um copo de vinho velho
e um cinzeiro cheio até transbordar

e atrás dele um padre reza

-4-
morre sozinho,
o velho anjo mendigo
sem um suspiro de alívio
nem um berro de desespero
só o sorriso triste
de quem já se esqueceu quem foi
e de como se ama

-5-
ratos e baratas rodeiam o corpo
numa última adoração ao seu senhor
o cadáver velho da putrefacção
e o cheiro forte da morte
que se eleva ao ar.

-6-
um templo de cimento quadrado
e o corpo atirado a um forno
onde arde e se livra em fim
do pecado.