31.10.17

incoerente poema inclemente

prédios velhos em construção e o futuro
na palma suada do meu pé pretende e é
pouco mais que café adocicado de cicuta
(mata barata e mata puta) e envenenado
com lágrimas sangrentas de sal sedentas
(escrevemos poemas em novas sebentas
e tu estrovas restrovas estrofes restrofes
e eu danço e sonho com paredes a cair
vidros a partir janelas a sorrir pilas a subir
ai ter cona e ser penetrado pelo universo
ai ter mamas e chupar nelas até secar!
malmequer abandonado lírio espezinhado
e quero sempre rimar com ter a meu lado
a mais recente esquizofrenia inana insana
insà-tisfatória (e acabaremos também um dia
a nossa história (se em degredo ou glória
é um segredo do destino afortunado) passado
o tempo de sofrer crescer e re-encolher)

volto ao café, snack-bar, taberna, restaurante:
idiotice sem fim, a minha única constante.

ai as formigas cheias de merda nas barrigas
ai o medo que o tempo chega sempre tão cedo
ai as dores, que nos fazem sonhar com ser flores

tenho um passado que é prado mal arado
de possibilidades que embateram nas realidades
que em todas as idades são indiscutíveis verdades
que inevitabilidades atiram aos monges e frades
que em Hades se tornaram antes abades.

tenho um futuro, mas só se o tiver mesmo a sério
,porque se todo o amanhã é sempre um mistério,
 como sei que ganharei mais um sol a nascer?

tenho um futuro, provavelmente duro e escuro
eventualmente regado de muita e fugaz alegria,
daquela que nasce de manhã e morre ao fim do dia
,daquela que se vem num berrar e geme ao beijar,
daquela que se esconde em palavras vãs não ditas
(e por isso ainda mais perigosas e bonitas e fritas)


tenho um presente que só sente quem me mente
que vai rente a ser contente a passo de demente
ai que ele não é boa gente mas engana totalmente
por parecer inteligente competente, firma!mente
e completamente indiferente ao que realmente é


serei latrinas partidas em WCs congestionados
serei ruínas perdidas em países bombardeados
serei meninas comidas em becos mal torneados
serei putas finas fodidas em camas partidas
e beberei o semen quente da gente à frente
de plateias repletas das pessoas directas  e
incorretas.

serei papel de limpar o rabo e lavar o cú
e irei andar pelas ruas nu
e cantarei à lua nua
se ninguém mais me quiser ouvir


azulejo partido de um lobby de entrada
numa casa vaga e abandonada
vendidos na feira da ladra
à beira da estrada
janela esquisita
sem nela menina bonita
que mande baldes de água mijada
da dita armação velha e partida, acabada

estrofes estruturais estupidificadas e esventradas

ai que da vida não somos mais que as entradas
pão e queijo e azeitonas pretas, verdes, podres
e copo de vinho do prato vizinho que bebo sozinho
e trinta euros em palitos italianos esbanjados
(para que sejam às pessoas feias atirados)
e sabe deus quanto dinheiro
para pagar o que tive de beber primeiro!

(todo o futuro possível têm em comum
 com um unicórnio e um dragão em
 ser apenas um filho da fértil imaginação)

pedras de calçada pisada pela mulher usada
sabem tudo ao não saber nada e são
todo o universo e as galáxias e as estrelas
(num saco meter-las e com meta cometa fodelas!)
relva carbonizada que já não é será ruminada
gravata amarrotada pró fundo do armário atirada
ai um calhau nas trombas mais as palavras
que nunca chegam chegaram chegarão
para dizer o que sente e mente o coração!

o poeta insiste: há mais ainda para dizer
o poema não pode morrer perecer falecer
adoecer ou sequer adormecer, tem de crescer!

capacete partido numa feia estrada nacional
ou então um outra qualquer viagem só fatal
sangue escorrido numa vala aberta de esgoto
e a escarra que há três dias não me sai do goto
o cigarro que queima com demasiada rápidez
eu sou o que sinto e não aquilo que achas que vês
mala que não fecha carregada de livros escolares
nem natal nem páscoa mas! bolos reis e folares
a boca seca e escura que sabe apenas a loucura
e os buracos nos sapatos de fato
e camisas calças casacos cheios de pelo de gato
tudo é curto e sujo e velho e rasgado em mim
a única coisa que fica realmente é o fim.

cheira ao dia antes da chuva voltar a chover
e não quero sair , beber , esquecer , ser , quero
cair , cair , cair , cair , cair , destruir e sofrer

paredes mal graffitadas e preclitantemente
inclinadas marcam as hora passadas nas arcadas
que eventualmente serão demolidas e erguidas
em sua nova glória como parte da história
que não chegou a ter a sorte forte de acontecer:
teve de morrer pois só com a sua final morte
ela poderá renascer e ser fénix ou zombie ou
(se calhar é apenas isso e mais nada que sou
poeta eternamente apaixonado pelo seu sofrer
que se diverte fingindo que feliz sabe ser)
cadáver putrefaciente paciente contente porque
já nada nele sente, nem dor, nem dente,nem amor

que tudo se enfie em mim bem fundo
que eu seja penetrado forte pelo mundo
caralhos me FODAM MAIS ESTA MERDA TODA!
serei puta velha desdentada barata e gorda
vendida à beira da estrada por cinco tostões
chuparei pilas e esporra de condutores de camiões
serei espancada por taxistas daqueles racistas
abusada por multimilionários filantropistas
cantada por artistas e enrrabada por baristas
(e à porta dos maristas sonharei com marxistas
 que me libertem o capital, eu ofereço o anal,
 que me soltem os grilhões, lambo-lhes os culhões
 que tirem desta vida, que não é tão curta
 como comprida)

Re-baixar-me-ei e re-gre-ssa-rei e serei rei
sem trono coroa ou símbolo de poder
sem um leito real magnífico onde foder
sem pergaminho nem caneta para fazer lei
sem súbditos e sem conselheiros paneleiros
que me digam o que fazer se só quero é ser
Rei.

as estradas concorridas pelo transito lento
enchem ao poeta todo o seu pensamento
de quem tanto quer ir e não voltar nunca mais
sorrir e correr a atirar-se do cais para morrer
e assim para toda a eternidade estar sorrindo
eternamente indo para onde mais quer estar

o mato reza pela chuva e lá no norte morre a uva
não haverá vinho para beber nem água para ser
não haverá caminho pa viver ou vontade de o fazer
haverá apenas a boca seca sedente deserta ,
como quem estivesse completamente doente
já nem válido para oferta (errada ou certa),
apenas as sobras e sombras e o resto que fica.

30.10.17

já cá vim mil vezes e ainda não aprendi

Foste

um anjo e o brilho da lua
antes de saber ver-te nua

foste

uma medieval donzela
inteligente e bela e só dela

Foste

uma estrela do fundo do mar
que fugiu rapidamente a voar
(e quis cá dentro ficar
 até se renovar e expulsar)

foste

uma filha do sol brilhante
sacerdotisa demasiado errante

foste

uma estrela pequenininha
que sonhou ser minha
quando eu não a tinha

foste

uma bruxa de má memória
pelo que fez mais tarde na história

Foste

Noite rainha e aprendiz de mim
mas não quiseste dar-me o fim
e fugiste de novo também assim

Foste

uma tartaruga e eu salada
que nunca soube estar calada

foste

deusa e totem da degradação
mas quiseste-me prender em tua mão
e perdeste o meu coração

Foste

aquilo que sempre foste em mim:
poesia sem fim.

29.10.17

toda a garganta dói

tua boca, tua boca teus lá...
naaaaaaaaaaaaaaaaão
não sou teu
não sou rei
abandonei
deixei
larguei
desisti
de ti
em mim
eu escrevi a puta do FIM!

toda a garganta dói

sou rouco de ressaca
rouco de ser criança,
rouco de não afiar a faca,
rouco de ter esperança
rouco de ser tão idiota
rouco de querer a tua porta
rouco de não ter sorte
rouco de querer ser forte
rouco de querer a nossa morte
rouco de desejar acreditar e sonhar
e outros verbos em ar
FODASSE
estou de novo a divagar
e ir de encontro a ti devagar
e cair mais um pouco quando te quero
MATAR
quero morrer de nós
mulher
quero nos ver sós
quer,
quer.

AIIIIIIIIIIIII
ai ai ai aiiiiiiii

que ele já foi já não cai
que ela já foi já não vai
somos um boi
que quero cantar
jogar, andar, mamar, dançar, sonhar, calar
esta voz que me diz querer ...ar
Argh argumento que sou jumento
que sou idiota e imbecil e inútil
sou a vodka estrangeira que bebo
(limpa-me de vez o sebo)
mata-me por favor
que me custa tanto não sentir o teu calor

eu sou mais eu
quando sou teu
e não serei nunca mais nada
(que rima com doce amada,
 que sabe a marmelada
 que me faz uma mamada
 que nunca mais me dirá nada
 que está aqui enfiada
,engasgada
,mal passada
,pesada
 mais que de tonelada
 não acabada
 quero quero marmelada
 quero quero uma mamada
 quero quero mais nada
 quero uma noite bem passada
 (e lembro-me do que rima com obrigada)

 Ai Adeus aí

FUNERAL

e sinto as minhas pernas tão pesadas
,e as minhas esperanças tão cansadas

,e o meu sorriso foi abandonado à sua sorte
vagueia algures procurando-se por uma morte

,mergulhada em fogo infernal que está
(aonde quer que seja que ela hoje vá)
a razão do seu existir reincidente
na tromba otárió-contente do poeta desistente.

dói no corpo o que não deixo doer no coração,
dói nas costas, nos olhos, nos pés e na mão
(onde te seguro ainda, qual borboleta esguia,
 que me sorria de noite mas fugia de dia)

 podia, poderia, poderá
(quem sabe o que amanhã será?)
 mas afogo-o em mim,
   aceito-lhe o fim,
 sorverei do seu falecer
  tudo o que puder beber
 e escreverei obituários obtusos
              obtenebrosas prosas 
 e salgadas lágrimas apalavradas, irreais,
                                  mortais.

 se aplaino o terreno e faço dele liso e pleno
 se me canto em paz e sereno duma mangedora comendo feno
 se não serei arquitecto de casas alveolares
 átrio-ventriculares de osmoses frutoses em grandes doses
 se não terás uma mansão
 terás um mausoléu com o teu caixão
 deixarei lá flores todo o santo dia
 uma flor, um verso, uma poesia,
 cada pétala uma palavra carregada de sentido
 e 
 tremido, 
 combalido, 
 pelas chamas frias consumido,
 em seu fundo inexistente âmago ferido,
 (não será pai nem marido!
  apenas uma sombra da felicidade
  que perdemos com a idade)

 Estão cansadas minhas pernas e pesadas minhas penas
 como idosas sarracenas que chupam alegres açucenas  
 fingindo ser ópio adormecedor o ódio aterrador da dor

 Calejado, a mão ainda segura o cajado, 
 com o coração e espírito bem arejado,
 (a janela ficou aberta para voares 
                   voltares, mudares de ares)
  profano e ufano 
  pano sujo urbano
  cor desaparecida
  dum espectáculo cosmicida 
  (limpas o sémen seco de alguém
   que ficou de um dia aquém 
   em mim
   que sou fim do mundo e da civilização 
     [ah! vem ver as ruínas pela minha mão!]
   que sou o alpha mas não o omêga
   que sou pior que puta, sou pêga! 
   que sou o nascer de todos os dias
         e o morrer de todos os sois
   que sou TODAS as conas frias
           TODOS os caralhos que sabem a rissóis
   que sou luz e sombra
   que dou luz e sombra
   que reluz da sua tromba!)

sem filos e sem sófia,
sem fonética, 
    fonologia,
    morfologia,
    sintaxe ou semântica
só com o saber ter que perder
                   para   ser

na lexicologia não existe tecnologia só mesmo a poesia
 ainda lá está no fim do dia.
               não existe sensatez
             ( não atravessaremos o canal do Suez )
               não há lugares onde ficar
               não há camas onde dormir
               não há nada para amar
                   só um sitio para me vir

 nos meus nada académicos escritos de escatologia 
 canto as putas do pós-apocalipse romântico
 e sonho com ver o céu cair
 e a terra a abrir
 e o inferno a subir
 e as chamas a trepar trepar trepar sem parar
 para me consumir
 e deixar
 onde quero estar
 (no calor do inferno,
  no frio  do inverno,
  no toque da tua mão,
  na voz da tua canção,
  no sorrir dos teus dentes
  quando me mentes
  e dizes
  que consegues viver sem me ter)

[uma pausa para fumar 
              e enganar 
              e fingir que não sinto
           ai! que tão bem que minto]

e no dia em que me podias ter
         em que te podia  ter
      decidiste melhor morrer
             que parar de ser
       e já não podemos foder
       e eu não ...

 um sorriso 
 é tudo o o que preciso
 digo a mentir descaradamente,
 se te tiver será completamente! 

 Ai, que te ia matar e acabo a cantar
     de novo
       o ovo
         que não quisemos fritar
         que não metemos a salgar
         que não temos como saborear
         que queijo quer acompanhar.

 Mulher!
 quero-te enterrar,
 sabes onde me encontrar,
 se volto a olhar o teu olhar
 e a mergulhar
 assim que me quiseres nadar
 e dessa vez (hipotética) nada nos poderá parar
             (hipótese patética)
             (hipnose  partenogenética)
              hipódromos de correr e não voltar
              hipopótamos cinzentos
              e patrões avarentos
              e sonhos a acabar
              e camas a arder
              e sons de gente a gemer
              e as tábuas de suporte a quebrar
              e eu
              e tu
              e nós a GRITAR
              e eu a sonhar,
                só eu a sonhar,
                   eu sozinho a sonhar o universo
                    e o teu nome em cada verso
                    e o meu nome em cada linha
                    e o nosso nome,
                  que não chegamos a ter
                  que nunca vai nascer
                  que vi a morrer
              nas tuas mãos cruéis (correríamos todos os bordeis) 
       quentes, suaves, abençoadas 
                 de pecado lavadas
           ai, desenha-me estradas
  e leva-me por elas de mãos dadas
  e cai por fim (sem teres medo)
         em mim (sei que é cedo)
                (eu vou cá estar
                 se quiseres voltar
                 e no pretérito perfeito do futuro 
                                             mergulhar)

 Escrevo-te uma campa que funcione como uma tampa
 para afundar 
     e afogar 
      e matar 
      e calar! esta voz que me diz
                "em mim serias feliz
                 mas não quero prender meu sorrir
                     não quero prender meu me vir
                     não quero amarrar-me a ti
            e soltar o futuro que ainda não vi"

 Enterro-te fundo em mim
 e acredito finalmente no fim
 mas quando teus olhos sorrirem nos meus
 "AI!" bradarei aos céus 
 e responderei, mentirei, aldrabar-te-ei: 
 "sim, estou sempre bem" 
 (mente-me tu também,
  que viver é absurdo
  e, contudo
  ...)

censuro-me e volto-me atrás e escrevo-me de novo,
                       (sou poeta de nenhum povo)
não é este um hino gloriosos 
mas uma eulogia ao que não chegou a ser um dia
    um cemitério onde te desci à terra e ao pó
       onde te vi desaparecer e me vi ficar só
    um carro fúnebre a abrir estrada fora
               que há muito passa da hora
                de me 
                de te 
                de nos acabar
                       e tudo enterrar.

25.10.17

tudo tão podre / como eu


gosto daquilo que sobra,
do lixo no fim de uma obra,
das ruínas de cidades perdidas,
das pedras pelo chão caídas
do esqueleto dos prédios velhos
da cor das folhas mortas no chão,
dos maços amarrotados e atirados a um canteiro
de flores secas.

gosto da putrefação da civilização,
de lhe ver as entranhas,
observar as vísceras,
espreitar ao fundo o seu inerte coração.

gosto da sombra dos arranha-céus caídos
e do cinzento gasto das torres medievais
de grafitti escatológico nas paredes
quebradas

gosto do som da estática que foge dos rádios
em quem não morreu ainda a pilha.

gosto do cheiro da terra queimada ao longe
dos fumos de petróleo e gasolina no ar
e de todas estas coisas cantar.

poeta de um apocalipse atrasado,
posso estar velho,
posso estar cansado,
posso estar só ou ter-te a meu lado,
mas a ruína de tudo
nunca me deixará abandonado

24.10.17

4a pessoa do pretérito perfeito do verbo poder

podíamos
ir ao jardim ver os patos a foder
e o sol a nascer
e sentir a relva a crescer
e ...

podíamos
passear na cidade morta
(de mão dada pela rua torta)
e parar à tua porta
e ...

podíamos
gritar caralho bem alto
enquanto dávamos um salto
da puta de um planalto
e ...

podíamos
encontrar, adotar, experimentar
cantar, dançar, intercalar
falar, amar, falhar
e ...

podíamos
escrever obscenidades
em cartazes de entidades
úteis as sociedades
e ...

podíamos
escrever poesia que não faz sentido
como o monge surfista divertido
e o pênis grande e adormecido
e ...

podíamos
fugir da realidade aborrecida
vida monótona, depress-ó-suicida
maníac-ó-emotiv-ó-mexe-na-ferida
e ...


podíamos
ser o mundo e o seu fim e o nascer
da alvorada humana a crescer
a doer a bater a morrer
e ...

podíamos
ser sonhos sombras sonetos só
uma corda emaranhada num nó
toda uma longa linha lânguida de.. pó
e ...

podíamos
andar caminhar passear devagar
cansar lentamente acalmar
subitamente rebentar
e ...

podíamos
sorrir sorrindo sorridentes sorrisos
tantos quantos te forem precisos
ou ser antes curtos e concisos
e ...

podíamos,
podemos.



17.10.17

então.. ainda sou poeta, é?


e se descer as portas de santo antão
de gabardine e chapéu à chuva
não faz de mim poeta, que fará então?

e se virar para a rua dos Fanqueiros
a fumar um cigarro enrolado à chuva
não faz de nós de todos os poetas herdeiros

e se beber uma cerveja numa taverna
enquanto escrevemos no telefone
não faz de nós poetas no fundo da caverna

e se me sentar a um canto bebendo só
fingindo-me triste quando estou feliz
não faz de mim um caralho de um poeta,
fará de mim uma puta de um profeta?
tenham dó!

ser poeta não é nada como a outra diz,
é quando sofro e me rebaixo
que mais poeta sou!

é quando me recuso a dar, sendo Rei!
que mais tenho para dar

é quando sou mais reles que um cão
que mais soltas as palavras me estão!

é na RAIVA!
que transpira
a poesia!

é no ÓDIO!
que nasce
a poesia.

é no fingir
que ela se forma
que acorda
que salta pelas mãos,
caneta abaixo,
caderno adentro
(pelos dedos,
 acariciando ecrãs
 pixel a pixel)

é...
é..
é.

se escrever poemas,
em papel,
telemóvel,
computador,
pele ou amor,
não faz de mim poeta,
o que fará então?

é na voz do coração,
zangado,
traído,
apaixonado
que se é poeta, então?

é nos sorrisos
é nos olhares /* roubados ao existir
                             de cada um
                             de nós */
é no nono risco
dos oito do infinito
é nas palavras que não são pronunciadas,
 enunciadas, verbalizadas, representadas
 (assassinadas,
   esquartejadas,
   esventradas,
   vilipendiadas,
   violadas até!)
 mas estão!
é no toque da tua mão,
é no sabor dos teus lábios,
é na música da tua voz,
é nos ais e suspiros,
   nos respirares
    e gritares
      e cantares
        e, até, apenas, falares

que sou poeta.

13.10.17

sou, e isso chega.

sou,
poeta quando erro,
profeta quando acerto,
doído em qualquer caso!

sou,
e apenas por isso mereço
e apenas por isso
um dia direi
"ai, que eu faleço!"

sou,
um risco no meio de um Pollock,
um cubo em Picasso,
um borrão amarelo
numa paisagem de Van Gogh,
um anjo mais
no tecto da Sistina,
uma gargula ou outra
em Notre Dame,
uma vírgula em Saramago,
um moinho em Cervantes,
um pecado no do Dante,
um adjetivo em Eça,
um robô em Asimov,
um elfo na terra Média.

sou,
uma peça insignificante,
um peão preto
num jogo que ganharam as brancas,
uma das fichas de uma aposta perdida,
o dois de paus
numa sueca,
um rei solitário numa mão de poker.

sou,
a folha em branco no fim do livro,
entre índice e texto,
(sou apenas um pretexto
 para acreditar que existo),
a chávena vazia de um café,
um centro-comercial
a caminho do abandono,
o estádio no dia a seguir ao jogo,
a primeira banda de um festival
a tocar para um público, atrasado,
que ainda não chegou.

sou,
a folga entre o sapato e a sola
e o buraco que nela assola.

sou,
o filtro do cigarro,
depois de fumado,
as cinzas que caíram ao chão
, fugindo do cinzeiro.

sou,
escadas que levam a lado nenhum,
estradas cortadas
e entradas bloqueadas
e portas que nunca abriram.

sou,
a linha em branco entre dois versos
maus

sou,
o pneu traseiro duma casal boss,
o banco rasgado duma scooter velha,
a garrafa de água choca
que esqueceram aos pés do lugar do pendura.

sou,
a erva daninha
e as larvas que dela se alimentam.

sou,
o apeadeiro onde já não param os comboios,
a paragem do autocarro
fora das horas de serviço,
uma bomba de gasolina seca,
a cabine de uma portagem que já não se paga,
uma aldeia soterrada por uma avalanche.

sou,
uma lata de cogumelos às fatias,
fora de prazo, no fundo do armário,
um pacote de açúcar numa casa de diabéticos,
um bife para um vegetariano,
uma cerveja para quem já não bebe.

sou,
um computador que não funciona,
um telefone para onde ninguém telefona,
uma máquina de fax perdida num gabinete vazio,
o ar condicionado num dia frio,
um comando de pilhas gastas,
um modem que não liga à net.

sou,
um advérbio de modo
numa musica pop,
uma alegoria profunda
num romance erótico,
um prólogo inteligente
numa lista telefónica,
o índice
num livro em branco.

sou,
eu.