30.11.13

reflexos de um tema central

se gosto de alguém
é de ti que eu gosto,
mas como um homem crescido,
não aquele amor de secundária,
em que és gira e vamos dar umas voltas,
em que és fixe e vamos ver no que dá.
É um gostar maduro,
de quem se sabe velho demais
para ser jovem nos teus braços.

É um gostar nostálgico,
sempre chorando pelos dias nunca foram.

Não um gostar possessivo,
fechado,
claustrofóbico.

Não te quero para mim,
quero-te feliz.

Não te quero numa trela,
quero apenas voar
no rastro que deixas nas nuvens,

E ser a pista predilecta
do aeroporto da tua alegria.

Gosto-te como se deve gostar,
a fundo.
Quero ver-te feliz,
sentir a tua felicidade até
na maneira como fumas um cigarro.
Ver o teu sorriso nas rugas dos olhos,
na pose dos braços,
na cor da camisola,
na musica que escolheste por a tocar.

11.11.13

socks : black.
pants : black.
shirt : black.
shoes : black.
soul  : dead.

cascada de lençois de seda

Em grandes fontes de azul esquecido,
erguem-se torres de nada e coisa nenhuma
sobre as quais desenho o apocalipse
dos meus sentimentos.

Numa floresta de carvalhos amarelos
nado entre folhas caídas de árvores rasteiras
como um esquilo dentes de sabre
na tundra atlântica do pacifico.

Como uma folha de papel,
velha,
molhada,
gasta,
riscada,
rasgada,
queimada,
suja,
nojenta mesmo!
sou atirado ao lixo
e deixo-me lá ficar.

uma ultima bolacha no pacote,
um ultimo sonho antes de acordar
(em berros e suor vestido),
uma ultima tentativa
antes de o dia acabar
para te tocar.

És arte,
e arte acaba.

és arte,
e arte arde.

és arte,
e arte desaparece,
espairece,
desvanece.
desespera
e deixa-me só.

És arte e eu não sou artista,
sou poeta, HA!
sou piada,
sou pulha,
sou parasita da sociedade
e alimento-me da morte de outros
e no sofrimento de outros encontro
a roupa bonita
que berro e impropério
como se um vestido
para esconder o ego
que a todo o lado me carrega.

Sou, És,
Tenho, Tens,
mas não somos nem temos
porque o mundo é nosso,
mas não para nós.

31.10.13

Quero Jantar Vodka

 Não me apetece pizza,
 nem lasanha nem carnes várias.
 Não me apetece peixe,
 nem bacalhau nem atum,
 não quero animal nenhum.

 Quero jantar vodka,
 afogar fígado e magoas
 em litros agua pura.

 Não me apetece doces,
 nem chocolates nem bolos.
 Não me apetecem sobremesas,
 nem bavaroises nem babas de camelo,
 não quero açúcar nenhum.

 Quero jantar vodka,
 alcoolizar fígado e magoas
 em litros de agua pura.

7.9.13

sonhei que era eu,
e nao outro,

que meus braços
erguiam minha espada,
e nao uma pequena caneta.

que em meus ombros
larga capa caia ao chao,
e nao misera tshirt rasgada e furada.

que em meu peito
os lobos uivando brilhavam,
e nao um gasto desenho de um peixe.

que cobriam minhas pernas
longas serpentes de metal
e nao velhas calças pretas e largas

que minha voz brandia!
em linguas ha muito esquecidas,
e nao na babel porca e suja a que chamamos linguagem

que meus longos cabelos
ao sabor do vento da batalha dançavam,
e nao repousavam presos sobre o ombro.

que o copo de onde bebo
era o corno de mitologico animal por mim morto,
e nao o frio impessoal do vidro.

que no meu trono,
de pedra negra e trabalhada e alta,
meu corpo forte e sempre jovem se sentava.

sonhei que era eu,
e nao outro.

30.6.13

in vino veritas.

"Estou bêbado",
dizes, sorrindo e justificando assim o que fazes.

"Estou bêbado" e portanto posso sorrir-te,
olhar-te de longe e fingir que sou outro
quando olhas de volta.

"Estou bêbado",
um hino à vontade de ter o que não posso ter,
um desejo que se afoga
solitário
no mar da realidade.

"Estou bêbado",
dizes mais uma vez
e assim
encontras a paz
de poder dizer
o que não podes dizer.

23.6.13

perdido

perdido,
entre duvidas e certezas sem fundamento,
corro para o sol,
mas não sinto o seus raios,
quentes,
abraçarem-me como os teus braços me abraçaram,
um dia.

um dia,
e tudo o que existia
era diferente e bom.
Um dia,
e tudo o que eu era
fazia sentido de novo.

Um dia,
e agora sou nada,
desejo nada,
vivo para nada.

Estou aqui,
porque aqui quis estar,
mas porque desejei cá chegar,
se não te posso tocar?

15.4.13

se não saio da cama de manhã, é porque o dia sem ti é vazio

Guardo...

 Numa caixa,
os melhores dos rebuçados,
pois o teu sorriso
sabe melhor que qualquer doce.

 Numa caixa,
todos os barcos que te faço,
porque ainda acredito
que flutuem no teu coração.

 Numa parede,
toda uma marinha imperial,
que me poderia levar sobre qualquer oceano
até ao calor dos teus braços.

 Num caderno,
todas as vezes que te disse
que gosto de ti.


26.3.13

os lábios

uma gota de vermelho na palidez dela,
um chamariz, sereias cantando e suplicando
o meu abraço gentil.

Uma flor,
bela como o tempo,
e com a cor
de todas as cores do mundo.
Uma flor,
e nas suas duas pétalas escarlates,
pousar o meu beijo,
desejo.

Selar a tua tristeza
num caixão escuro e escondido,
um qualquer mausoléu perdido,
onde ela nunca te encontre de novo

e te possa ver sorrir,
para sempre,
a sorrir.

23.2.13

arrepio, brincar frio.

deste um passo em frente
e deixaste-me ficar para trás,
eu que aqui esperava por tim
de porta aberta.

deste um passo em frente,
sais e segues pelo teu caminho,
e eu,
cá do fundo,
aceno.

"Adeus,
faz boa viagem,
vem-me visitar um dia"

Estarei aqui,
À porta,
aberta ou fechada,
esrtarei aqui,
para te dizer bom dia,
abraçar,
beijar a testa
e dizer
"bom dia!",
não importa a hora,
não importa se chove,
se sorri o sol,
se choram as estrelas,
estarei aqui para te dizer
"Bom dia tu."


19.1.13

turtles live forever, they say.

i would have waited
until the earth crumbled into dust
i would have been there,
by your side,
until the sun exploded in a fiery ball.
i would've,
i could've,
i should've,

I DIDN'T.

i went away,
i saw the locked door,
and i decided to move away,
and i walked for ages,
always a step further away,
always more distance,

...

(the tiny gap turned into a chasm,
 the chasm into a ocean,
 the ocean into continents,
 and then)

i was at your door again.
but you have moved,
have
you
not?

13.1.13

combinação mortal num domingo fatal

sonhas com o impossível,
na tua torre de ébano negro,
sentado num trono de papel,
comandas hostes imaginárias
procurando
e nunca encontrando
o sagrado graal da emoção.

não gostas,
eu também não,
mas que podemos fazer
se é este o fado
que Deus deu
à nossa mão?

Naquela noite surreal
ouvi-te respirar,
senti-te tremer de excitação
e cá dentro
bem fundo
apertou-se-me o coração
ao saber-nos tão irreais.

querias-te algo que não és,
desejavas ser comandante do teu destino,
mas amigo, aprende,
ninguém o é,
nem deitado,
nem de pé.

Sim, minto,
obscuro,
oculto,
escondo-me em palavras vãs,
versos inconsequentes,
rabiscos encolhidos em bolas de lixo,
mas não mentimos todos?

Seria mais verdadeiro,
se fingisse não fingir?

6.1.13

Eu não esqueci.

lembras-te?
de nos perdermos nas horas,
contemplando um futuro que seria nosso
e ninguém nós poderia tirar?

lembras-te?
de sonharmos acordados,
de mãos dadas e corpos enroscados,
deitados numa cama que se tornou demasiado grande?

lembras-te?
éramos poetas e filósofos,
mestres e aprendizes, senhores do tempo sem fim,
mandávamos na morte,
mandávamos no frio,
mandávamos no universo,
que começava nos teus seios
e acabava na minha virilha.

Lembras-te?
Éramos felizes,
e nada nos poderia afectar,
éramos felizes,
e nada nos faria parar.

Lembras-te?
Éramos guerreiros,
não conhecíamos nem frio nem fome,
correndo planícies e masmorras
em busca de um demónio para matar.

Lembras-te?
Sentados, cada um para seu lado,
escrevíamos nos cadernos o que as palavras não chegavam para dizer.

Eu não esqueci.