21.3.18

disiecti membra poetae


(a)
na felicidade não existem palavras
sem o peso negro da incerteza e tristeza
ninguém escreve.
(b)
somos sombra e poeira,
lixo empilhado a um canto da existência,
um caixote de brinquedos
numa casa que há muito os filhos abandonaram
(c)
se o tempo é uma serpente,
uma cobra capelo que me morde o pelo,
e as horas as escamas que dela caem 
e ambas as pontas da língua que dela saem 
me lambem o pulso onde não uso relógio,
sou hamster na sua boca, 
rato de laboratório criado para a alimentar
e em cada passo que dou me aproximo do queijo
ou do beijo
de um minotauro, relíquia dinossauro da antiguidade
e eu que sem idade certa
(como se pede de um fetiche sagrado místico)
aqui deambulo a fugir de uma serpente contente!
(d)
e se eu morrer,
a minha casa ruirá 
os meus livros serão pó
e as palavras que escrevi, ferro em pedra,
ilegíveis para sempre 
(e)
Tudo é lixo.
O mundo arde nas chamas da ganância cega
sonhos esfumam-se e morrem às mãos do dinheiro
Já viste bem a merda de mundo que herdamos?
As esperanças que nos foram prometidas,
aquele futuro lindo com automóveis voadores 
e auto-aspiradores, auto-trabalhadores,
onde dormimos à sombra de árvores de metal
ONDE ESTÁ O CARALHO DO MEU ROBÔ PESSOAL?!
(f)
procuro o meu zen num oceano de profanidades
berro, dentro, só dentro de mim, grito, esperneio
ODEIO TUDO! porque tudo é efémero e acaba um dia
e o medo do fim tira de mim o aproveitar do agora
(g)
bin laden da emoção! 
terrorista alfarrabista de textos sagrados
que escrevo sentado num trono de porcelana 
horas roubadas ao trabalhar e depositadas 
na paz de cagar
(h)
chove.
nunca irá parar de chover, aqui,
onde o céu é sempre cinzento,
onde as horas são apenas o passar dos minutos
e o cair das gotas nas chapas de metal a que chamo tecto.
Longe,
está sempre longe, tão longe de mim o fim do tempo.
(i)
cancelado.
tudo cancelado:
o futuro e até o passado,
o que está a frente e 
o que está do lado,
tudo cancelado.
o portão fechado,
o porteiro calado,
olhando com ares de mal amado
e indisfarçado agrado
de poder dizer "TUDO CANCELADO!"
Tudo revogado,
ou na melhor das hipóteses, adiado
ou pior, antecipado
para antes de ter sido anunciado
(j)
Fogo. Rios de fogo e chamas 
camas
que ardem de paixão
tesão
morta na palma de uma mão
peles
vermelhas de tanta porrada
reles
esta gente gentalha deslavada
que morre a beira de uma estrada
em que não têm nada
nem razão nem direito
para existir!
(k)
apagar uma só letra do meu nome é matar quem sou
(l)
a segunda-feira hoje pesa-me como se ressaca
(m)
e nestes dias em que sou uma pausa
entre o que fui e o que serei
será que sou?
(n)
todas as tragédias do mundo são minhas
para que as carregue as costas, qual cruz
e quando nada, nem o sol, me dá luz
só o sorriso que me espreita ao fundo do túnel
me serve de locomotiva (executiva, privativa)
(o)
um dilúvio de alcatrão sobre portugal,
deus faz rios, o homem estradas faz
e outras coisas, feias, feias e más
(p)
um fodasse, 
um dedo do meio elevado
,e apontado!,
à cara da realidade existente
um "vai-te foder"
enfiado bem fundo na peida gulosa do capitalismo!
(q)
e no silencio tudo é incerto.
(r)
numa prisão de azulejo e mármores
fugi do existir 
e deixei-me ficar a contemplar
os ponteiros correndo sobre a face inexpressiva
de um relógio de parede que não está lá
(s)
ai que tudo em mim são contraditórios,
ai que em mim tudo é verdade absoluta
(t)
fumar, respirar, fumar
(u)
odeia 
como quem come a última batata do pacote
(v)
estou botânicamente zen
é verde e cor-de-vinho esta paz
(w)
em queda como um anjo do Céu
em queda como um anjo rumo ao Inferno
as minhas palavras ruindo,
e os meus poemas serão Ur e Akkadia,
esquecidos na areia seca do deserto
serei não mais do que o reflexo de uma árvore
no espelho retrovisor de uma mota que passa
voando sobre o negro asfalto 
uma mancha de sangue na pureza imaculada
de um vestido de noiva
uma beata na água suja da sarjeta
(x)
a meio caminho da eternidade
perdida numa qualquer cidade
há uma curiosa perplexidade
uma janela sem tecto ou paredes
(y)
fragmentos,
estilhaços de um poema que rebentou como uma granada
e se enfiaram fundo na minha cabeça
e agora tento desenhar a granada como ela era
e só me sai um ovo, de galinha, com espinha.
(z)
pendent opera interrupta

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