e torno-me cemitério sem campa de todos os meus sonhos
espinha dorsal quebrada com o insuportável peso do medo
e a cara lavada das lágrimas que não deixarei nunca sair
afogo-me em cada segundo na lama do vazio inexorável
e fuzilo outro sonho deixando o corpo a apodrecer no chão
onde as crateras das bombas marcam a pele da minha alma
e a terra remexida cobre-me os olhos e o coração,
sepultados a céu aberto em valas comuns os desejos meus
e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.
mas quando a brutalidade do teu silêncio me espanca
e eu acordo ainda bêbado de lágrimas e medo
com a canção do fim a ecoar dentro de mim
e a ressaca de ser algo que não é aquilo que é martela-me :
sou bigorna para nela forjares a espada com que me matarás.
e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.
na osteomancia os ossos que lanço são os que visto em mim
e cantam-me da destruição que chega enrolada na mão fria
de uma estátua de sal que não olhou ao bem nem ao mal
e quando o universo desistir de ser o seu próprio verso
quem irá aguentar nas suas órbitas os planetas e cometas?
e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.
e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína...
quem irá aguentar nas suas órbitas os planetas e cometas?
e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína.
à beira do que sinto beija-me ainda a espuma da tua maré
e choro o odor do orvalho das eternas manhãs planares
aqui nas colinas onde o tempo das coisas todas é efémero
temo a morte de tudo o que um dia teria sido nosso
por isso, monto o meu cavalo de desespero
e há tanto tempo que cavalgo em direcção à ruína...
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