e sou eu todo o sofrimento do mundo
e pesam sobre mim, como sobre mais ninguém,
todas a cruzes que todas as pessoas carregam
em mim acaba tudo
no meu sorriso existe toda a dor,
na minha mão está a caneta que escreve
,de cliché sofrido em cliché sofrido,
todos os diários de adolescentes incompreendidos
todos os blogs de má poesia sentimental
todas as notas passivo-agressivas deixadas
coladas
num espelho qualquer
receptáculo da dor e dos sofrimentos,
pequena caixa de pungentes dores,
cinzeiro onde se apagam as chamas de cigarros
charros enrolados em tristeza
e na pureza (que não há sentimento mais puro que a dor)
e em mim caiem as cinzas e apagam-se as beatas.
De meus olhos caiem todas as lágrimas
derramadas em catarata por raparigas privadas de amor
de rapazes impotentes
de revolucionários encarcerados para a vida
de pianistas quer perderam as mãos
de políticos sem voz e poetas sem rimas.
sou a charneca onde acabam todas as ruas felizes
numa praceta de trevas e toda a sujidade de se ser homem
sou uma travessa entre duas avenidas
e nenhuma das duas é casa para mim
sou toda a duvida,
uma questão sem fim e sem mim
um jardim
onde as flores murcharam e a relva está seca
sou uma pergunta sem resposta
e uma resposta sem qualquer pergunta que a mereça
a interrogação que fica depois de cada fim
e a que fica quando nada acaba.
sou a luz que não pisca do telefone móvel
de todos os que se sentem sozinhos
e o peso dos cornos de todos os encornados.
as lágrimas caiem dentro de mim,
sinto-as batendo no coração ao escorrerem
perdidas para o chão, junto ao mijo que me molha os pés
o cheiro sobe-me pelas pernas acima
e enfia-se no meu nariz:
sou agora também a poça de urina de uma qualquer cão.
dejá-vú, dejá-sentido,
e o estômago, contraído,
e o buraco onde devia estar quente o coração
um poço frígido
uma valeta à beira da emoção
congelado deixo o tempo passar
e voltarei a ser todos os sofrimentos
quando os ponteiros voltarem a andar.