27.2.18

O culto do ter!

És apenas tão grande quanto o ecrã da tua televisão,
És apenas tão forte quanto a cilindrada do teu carro,
És apenas tão alto como o volume da tua aparelhagem,
Tão inteligente como o processador do teu telemóvel,
Tão belo quanto é caro o preço das tuas camisas.

O amor mede-se no tamanho do ramo de rosas raras,
Tão mais forte quantos os quilates do diamante no anel
Será o casamento.

A eternidade compra-se numa joelharia de prestigio,
A beleza numa boutique na avenida da liberdade,
O prazer numa embalagem de preservativos com sabor,
de lubrificante retardante de efeito aquecedor.

Tudo se pode comprar,
tudo se deve comprar!
Numa loja ou na internet,
cartão de débito, crédito, pontos numa perfumaria
para cheirar ao sucesso,

Pratica ténis, adorna o teu pénis com jóias,
Faz squash e não fumes hash, dá-lhe na cocaína,
Droga reputável e de gente fina!

Trezentos e o caralho canais de televisão,
Se não tens mulher, há pornografia,
Vai dar ao mesmo no fim do dia.

Bebe whisky de vinte anos, responsavelmente
Que amanhã trabalhas novamente.

Compra, têm, deseja,
Trabalha, sua, ganha,
Compra, tem, deseja,
Trabalha, sua, ganha.

A felicidade vêm embalada numa caixa de cartão
Acolchoada em esferovite às bolinhas,
diz: "quero que todas as coisas boas sejam minhas!"
e corre ao banco a pedir novo empréstimo:
Está para sair mais um topo de gama telefone, televisão
tele-porra-qualquer só importa que seja caro, raro!

A tua carteira é um altar ao cartão de crédito
O livro de cheques a bíblia que juraste seguir
e os caixas de supermercado os padres a quem confessas
o teu pecado.

Lava os dentes! Colgate branqueadora total,
para o sorriso de estrela de cinema!
Toma os comprimidos! Anti-depressivos, anti-stress,
vitaminas e proteínas e anti-celulite e o resto
Esfrega a pele com creme anti-rugas, alisador, renovador
Mete laca e brilhantina no cabelo,
usa a nova Gilette dez lâminas para rapar esse pelo,
lentes de contacto para o social e óculos Gucci bifocal
para no trabalho não veres mal 

Usa, Compra, Consome e no fim deita fora, amanhã
compras um novo e melhorado.



26.2.18

Abecedário III

Absurdo sou-me, absoluto o abraço do antes
Barreira que brincando ergui em blocos e
Colapso-me contorcido em constante cronofagia
Devorando minutos como um deus pré-diluvial
Estendo-me, esticando este estremecer em éter
Falharei uma vez mais, fácil é fazer e não ficar
Grande é quem não gosta e goza do prazer
Hipócrita, hipopótamo do pensar histórico
Infeliz. Informe. Ignorante do que conheço e desejo,
Jaz a meus pés o jantar das musas famintas
Lá, onde larguei um dia o lastro emocional
Mutilado e amarrotado num chão sujo
Nasci.
Ontem foi o dia em que morri,
Penso todas as madrugadas pesadas
Querendo apenas querer algo que queira
Resigno-me a regrugitar raparigas,
Sem sequer lhes decorar o nome,
Tentando fingir que tenho capacidade em mim,
Ultraje só pensar-lo! Para amar.
Vivo, nada mais posso fazer mas finjo-me
Xã da Pérsia e trepo ao topo de um
Zigurate para dele me atirar.

Abraço a queda,
Braços esticados tentando agarrar o ar,
Cair é tudo o que me resta,
Depois do que fui, nada sou
E!
Fútil, fraco, faço o som de uma
Gadanha a comer o trigo,
Hoje serei mancha no chão,
Infectando o branco da calçada com o sangue,
Jade vermelho que escorre sem parar,
Lavando o passeio do pecado,
Manchando o trabalho do calceteiro
Nesta minha néscia, ignóbil, tentativa de me
Olvidar, ocultar de tudo,
Perecer e perder-me da luz diurna
Que me arde nos olhos,
Rasgando a minha alma,
Sugando de mim
Tudo quanto sou, tudo o que serei,
Uma pausa, peço
Vêm até mim, paz eterna,
Xuta-me nos tomates até eu desmaiar e este
Zumbir se calar!

Acordo.
Beleza adormecida a meu lado,
Cadela a meus pés,
Dia nascente lá fora,
Estrelas ainda no céu,
Fogo entre as suas pernas,
Ganza meio fumada junto ao cinzeiro,
Hercúlea tesão no meu caralho,
Imbecil sorriso em meus lábios,
Já se apaga em mim o pesadelo,
Largo as sombras que me enchem,
Mexo, levemente, na quente cona dela
Não a acordo ainda,
Orgulhoso, opulento
Pulo para cima do corpo adormecido,
Quero que ela gema, se venha,
Rasgo-lhe a roupa interior,
Sem dó, sem piedade,
Todo eu, erecto, entro nela,
Uiva, digo-lhe como um bom dia,
Vêm-te, ordeno-lhe senhoril,
Xilofonando-lhe as mamas com a boca,
Zeloso guardião de seu prazer

Adormeço, meu corpo sobre o seu,
Banhados pela esporra quente,
Como cães com o cio,
Deixo que o hoje se esfume,
Esqueço até que fodi,
Finalmente em paz,
Gozo o descanso vendo-me
Herói do sexo,
Imperador do prazer,
Justiceiro das conas secas,
Lugar-tentente no exército,
Maldito e mal amado exército do foder,
Número um, campeão do orgasmo,
Original dono da
Pila perfeita
Que deuses cobiçam!
Relés rebarbado, ralé e escumalha!
Sintoma e sinal de degradação moral!
Tarado!
Última prova do aproximar do Apocalipse!
Xaile conspurcado na cabeça da liberdade!
Zero à esquerda da moralidade...

Abandono o ego,
Baixo a bolinha,
Conto os meus pecados:
Demasiados!
Esvazio-me de soberba,
Faço-me pequeno de novo,
Gastei toda a altivez que tive,
Hedonista me confesso e,
Ingrato,
Já esquecido o prazer,
Lanço-me em gritos:
MULHER DEMONÍACA!
NINFA SATÂNICA!
Obscurecido pela raiva,
Pulo para fora da cama,
Qual vespa num ninho em chamas,
Rumo à banheira,
Sujo do pecado,
Tentarei esfregar-me dele,
Uma
Vez, mais, sem sucesso...

19.2.18

Poema pós-formal pré-estruturalista


abstracciona abstém absoluto aborto
brutalidade brusca Brunilde brocada
Cavalga cava cavernas caves 
destrói desagarra desvenda despede despe
entre entradas entornadas entrosadas entronadas
fole folgado folheia folha foliona 
guarda guarida guapa Guatemala
histérica historia hispânica 
ignorante ignóbil inglória inglesa 
jazente jazigo jaz jazido
largas larvas largando lares 
mensagem menstrual menosprezada 
nupcial nuvem nublada num núbio nú
opulente opala opróbrio opaco opus oposta
putrefacto puteiro/putaria potente pús
querela que queria querer-se querida
rasga raspa rasura rasteja rasteira 
serpente se serve servente sertã
talco talvez talmude talude tal 
urda urja urbe urdida
vinha vida videira vitória vidente
xadrez xaile xilofone 
zero zarolho zangado.

17.2.18

Mas..

TU!
PUTA!
cavaste em mim um abismo
E agora sou apenas as paredes desse poço
As pedras gastas pelo tempo e a água da chuva
O vazio negro, cheio de noite, mais real que eu
E,
O nada que me tornaste enche esse espaço
Entre o que fui e o que sou e o que serei.

Traiste.
Essa esporra de outro que te escorre pelas pernas
Uma faca espetada no meu ser, coração
Coração,
Querida,
Amor!
PUTA! CABRA!
SER NOJENTO, ASQUEROSA!
Símbolo de tudo o que é maldade, sujo!
Quero-te estropiada, esventrada,
A tua pele tão furada como eu fiquei!
Anseio ver-te numa sarjeta,
Coberta de vermes que te comam a carne,
Baratas correndo sobre as tuas mamas, podres
Lindas, amadas...
Desculpa,
Não, não te quero morta, cadáver apodrecido,
Quero-te aqui,
Volta,
Não me deixes,
Não me troques por outros,
Eles...
Eles não te amam!
Eles não te querem!
Eles não te fodem como te fodo eu,
Desculpa, como te fodia eu, que agora,
Agora,
Só fodo os rins, os pulmões, as mãos a garganta,
De berrar o teu nome
Em cada esquina perdida onde vou vomitar,
Bebo até cair,
Quero vomitar-te para fora de mim!
Quero que saias com a bílis e os destroços sujos
Do meu estômago
E que fiques, para sempre, numa poça de nojo
Coberta de merda
Coberta dos vômitos dê mim
E assim
Estarei contigo,
O meu asco misturado no teu,
Os dois,
Para sempre juntos numa poça de tudo o que é
Nojo, esterco civilizacional, MERDA
MERDA!
Que perdi quem era quando ele te fodeu
E ele, ele não era eu,
Ele era todos os outros, mas não eu
Ele era mendigo, ele era milionário,
Ele era a PUTA que o pariu,
Ele,
Não era eu
E agora,
Agora,
Que faço?
Bebo.
Fumo.
Esqueço,
AH FODASSE!
Quero esquecer-me de mim, de ti, de tudo
Quero ser apenas o abismo que em mim cavaste.
Finjo que fujo,
Finjo que me vou embora
E que te abandono,
E que te esqueço,
E que nada disto me importa
Mas...

14.2.18

Tempo Intangível




e os dias caiem sobre mim como chuva ácida
queimando a pele em rugas cavando crateras 
um dois três interminável sequência inútil
que a lado nenhum almeja ou chegará sequer
construir-se castelo uma pedra de cada vez
e as ameias esperando pelo sol do meio dia
mas as nuvens cobrem-nos em sombra de medo
"é o degredo! é o degredo!" 
a plebe berra estridente, o meu povo grita
colonialismo imperialista de peles brancas 

e eu que vou armado só duma lança de sílex
,protejo-me detrás da deslocação dum tempo 
que insiste em não cumprir o seu desígnio.

sou todos os ecrãs de loading encravados
e nenhuma password me abre ao futuro

vesti o branco do funeral na pele
e deixei o negro de festa no armário
escondido o trapo sujo do meu sémen e suor 
entre duas meias sujas de sangue menstrual
finjo-me de novo inocente, virginal 
imolando os pecados enrolados numa mortalha
fumo-me intensivamente como quem corre para a morte
que desta vida não poderei tirar mais sorte.

escondo-me na multidão de fato e gravata
disfarçando assim a ausência de existência
e aborreço-me de tudo e de mim mais ainda
sinto-me o poço sem fim de todos os meu medos
e o balde que os puxa à superfície para que apanhem sol
e se bronzeiem de realidade.

e então,
durmo.


















6.2.18

Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris

e o nada explode numa camada de pó
que tudo cobre e em tudo se entranha
poeira de estrelas, poeira de sonhos
manta cinzento-amarelada sobre a realidade pousada
escondendo o tudo do nada

os meses tornam-se espadas espetadas em pedra
e a perda dos fins é o encontrar do novo começo
e à porta das torres constelacionais 
as estrelas não entram e não se sentam: existem

os dias nascem como que caídos da cona de uma égua 
sem anestesias ou cesarianas que os puxem fora 
da espuma incolor do potencial para o reino do que já é

as horas abrem-se e são penetradas pelo tempo
devagar como quem faz amor
rápido, como quem fode contra a parede suja
rit-mi-ca-men-te 
até que o tempo se vêm dentro da vagina horária
e prenhas de minutos as horas se distendem
e nascem de novo num ciclo sem fim

e no olho do turbilhão tudo gira tão rápido
que amanhã é já ontem e daqui a uma semana agora mesmo
e a meio caminho do infinito chegará, tudo,
à janela sem porta, tecto ou parede que a segure, 
apenas um nome que é seu e uma paisagem de paz
que escapa por detrás dos castanhos olhos vítreos 
emoldurados que estão no quase negro das cortinas 

lavo as mãos e os dentes com sangue que de mim derramo
e amo 
o toque quente da globulina e albumina 
e é tão fina a pele que me protege da passagem do tempo
desfazendo-se ao toque em pó e terra e merda
colapsando-se como um arranha-céus no apocalipse 
entulho de mim mesmo enchendo contentores
de todo o tipo de horrores

catalogados que estão anjos e demónios 
escolher um no directório e mandar vir pela rede
para que não esteja só 
quando voltar ao pó