31.5.12

(nós?vegetais:frutos)

eu, ________, abaixo assinado,
venho por este meio declarar
que não vou deixar de me deixar
de ser dominado
pela insanidade.

proclamo o meu amor eterno,
a minha interminável paixão,
o meu incansável desejo,
pela insensatez,
pela demência,
pela escuridão do acaso.

sou o elástico que tenho ao pulso,
e digo-me, estrangulando-me as veias :
um cigarro mais não te matará,
dois cigarros mais não te matarão,
mais do que a simples existência de mim
o faz.

penso em dormir, mas para quê,
se amanhã será igual a hoje,
apenas mais pesado de passado?

os dias
seguem-se aos dias,
e as noites esgotam-se rapidamente,
e eu,
estou aqui parado,
a fumar sempre mais um cigarro.

"está verde, senhor, não a comais já"
diz-me o universo de maçã na mão
(e que bem cheira a maçã!
 e que saborosa parece a maçã!
 e que doce o sabor que me ficou nos lábios
 depois de lhe provar a casca!),
e espera o universo que eu espere!

E só para lhe fazer a desfeita,
(e só porque a maça depois de madura,
 saberá tão melhor;
 e só porque a maçã é uma maça,
 e tem sentimentos de maçã,
 e não a quero ver só caroços no caixote de lixo)




26.5.12

I am the knight who says Ni.

esquisito,
estranho,
complicado,
bom.

os sonhos são sonhos,
os desejos são desejos,
as vontades são descartáveis,
e o amanhã é imperioso.

lentamente,
de armadura posta e espada no punho,
o cavaleiro ergue-se :
lutarei,
pelo castelo que quero conquistar.
lutarei,
pelas praias e florestas onde quero morar,
lutarei.

E se perder,
acordarei coberto de nódoas negras,
cortes e cicatrizes,
e estarei a sorrir pois lutei,
e nada importa.

E se perder,
e não tiver castelos conquistados
e não tiver florestas onde morar,
e não tiver uma bandeira a voar ao vento,
estarei a sorrir porque tentei,
e nada importa.

E se ganhar,
se tiver o que procuro nas mãos
e for feliz,
nada importa.

22.5.12

overthinking or, the idiot's curse

sozinho numa jangada improvisada
andei meses sem fio,
chorando baba e ranho
ao frio.

pareceu-e ver uma ilha onde aportar,
e a ela me dirigi,
e agora estou na alfandega,
revistam-me os bolsos,
mostro papeis e documentos,
mostro tudo o que carregava na jangada,
e dizem-me :
"vamos analisar o seu pedido"

Eu volto à jangada,
e vou olhando a costa
e apaixonando-me pelas suas ravinas,
admirando a sua vegetação,
descobrindo os seus pontos de referencia,
e desejando escalar a rocha íngreme
para chegar ao cume da colina,
e lá construir uma casinha onde viver.

deito-me,
olhando as estrelas e sorrindo :
"um dia, talvez possa entrar.
 até lá, vou esperar."

(mas por vezes,
 há dias em que salto à água e nado,
 contra corrente e maré,
 evitando as pedras e rochedos escondidos,
 e chego quase lá,
 até que me lembro que não posso escalar,
 não tenho cordas,
 e não poderia viver lá,
 se não fosse convidado a entrar)

 Espero,
 paciente.

a resposta há de chegar,
e espero ainda querer lá morar,
e espero querer ainda mais lá morar,
quando um dia, eventualmente, o dia chegar.
e espero que a ilha me queira,
e espero ser o que a ilha precisa,
e espero tudo,
espero.

(chega rápido dia,
 mas não te apresses.)

21.5.12

echoes of a turtle's kiss

"There's a gap in between
 There's a gap where we meet
 Where I end and you begin"

façamos uma ponte,
tu constróis desse lado
e eu deste,
encontremos-nos no meio
e lá,
sentemos-nos a fumar um cigarro
de mãos dadas
e olhos no futuro.

14.5.12

"esqueci-me do bem
 e tornei-me má,
 deixei que a moral fosse embora,
 e fiquei sozinha com a faca na mão.

 cortei-te o coração,
 tirei-te as tripas para fora,
 e disse-te "vá,
 faz-me o mesmo tu também"

esqueci-me do bem,
ficou algures perdido
junto ao cartão dos filtros,
num bolso que já não uso,
de um casaco que já não quero.

esqueci-me do bem,
esqueci-me do mal,
esqueci-me de mim,
mas não te esqueci a ti,
que quero esquecer.

esqueci-me de tudo,
e em tudo me esqueci,
mas quando tudo para e eu respiro,
ainda te sinto aqui,
raiva,
medo,
dor.

Esqueci-me do Bem,
esquecer-me-ia de ti também,
se me lembrasse de como o fazer.

13.5.12

domingos

arrasto-me,
e comigo arrasta-se o tempo.

não tenho pressa,
escrevo ao ritmo da calma,
letra
após
letra.

amanhã chegará,
inevitavelmente,
e eu,
aqui estarei para a receber
de braços abertos,
a felicidade
que um amanhã me trará.




"Faz-me ver de novo."

Abre-me os olhos para as estrelas,
dá-me o universo nos teus lábios
e dancemos até ser madrugada.

Acorda-me,
e no teu acordar serei eu,
e serei feliz de novo.

Dá-me uma razão,
uma cor para eu gostar dela,
um sonho para sonharmos juntos,
um caminho só nosso,
onde nos podemos perder.

Faz-me ver de novo,
quero olhar-te os ombros
e sentir as tuas unhas a arranhar-me a pele.

Faz-me ver de novo,
quero abrir os olhos
para o teu sorriso.

Sou pele,
sou papel.

Desenha-me os ossos
e pinta-me os músculos a carvão,
as tuas mãos negras a passarem-me a pele,
e eu,
sussurrando,
dir-te-ei que amanhã será ainda melhor,
amanhã será ainda mais longo,
amanhã será ainda mais.

Desenha-me deitado na cama,
de olhos fechados,
e dá-me luz com um beijo.


7.5.12

reticencias, reticencias, reticencias.



um passo em frente, três atrás, dois para a esquerda e nenhum à direita.
caminho em direcção ao futuro
e cada vez estou mais próximo do passado.

abro uma porta,
olho lá para dentro e
gostando do que vejo,
apresso-me a fecha-la :
tenho medo de o sentir de novo
tenho medo da dor que irá
inevitavelmente,
eventualmente,
trazer.

Nada o meu cérebro em vodka
e Eu,

solitária sombra do meu ser
abandonado a um canto danço e canto
para que ninguém veja
para que ninguém oiça
para que ninguém saiba.

fumo,
um cigarro entre os lábios
porque não tenho lábios para beijar.

fumo,
um cigarro entre os dedos
porque não tenho mãos para agarrar.

fumo,
fumo porque fumar mata
e morrer é mais fácil do que estar vivo.

fumo,
fumo porque fumar mata
e depois de morto não tenho mais que pensar.

existo,
viver é muito cansativo.

existo,




para viver preciso de alguém a meu lado.

reticencias,
ainda e sempre reticencias :
espero.

não sei o que espero,
para além do fim do esperar.