e o metafísico sai com a casca
e vai para o lixo
fazer volume na caixa
e baixa teus olhos
e faz de ti molhos
de chaves e de bolognesa
que te como sobre a mesa
descasca alhos,
que descascar alho
é tudo no mundo
e nada bate mais fundo
que uma tigela de alhos
(que rimam em mangalhos
, caralhos
, orvalhos
, esquerdalhos
e não esquecer, bugalhos)
andar de andas no andaime
ter um filho e não lhe chamar Jaime
nem João nem Julião
mas um místico nome
que carrega as costas a sua missão
assoar-te com lenços de seda
dizer-me cisne
e chamar-te Leda
e como na lenda dar-te de prenda
o calor do sol
e a frescura das sombras das árvores
tudo é belo em verde
e nada sacia a nossa sede
descasca então alhos
que eu te serei lâmina
para me teres na mão
e juntos
esquartejarmos legumes
e
do topo de todos os cumes
gritar
para que o universo saiba
que nos teus alhos descascados
nos teus olhos descansados
nos teus lábios desbocados
vivem todos os apaixonados
e não há maus bocados
nem dias excusados
são sempre abençoados
os momentos de alhos descascados
escrevo e bebo
bebo e escrevo
enquanto espero
o beijo que há de chegar
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