26.3.19

Ab initio

começa com o frio de uma cama
onde só durmo eu
de um quarto sem mobília sem alma
onde só durmo eu
de uma casa que foi nossa um dia
onde durmo só eu

começa com as gatas a correr
em corredores mortos
com livros empilhados e atirados
em corredores mortos
com tapetes enrrodilhados amarrotados
em corredores mortos

começa na folha em branco de um caderno
e tudo o que lá escrevo é incompleto
no mail vazio que tenho sempre aberto
e tudo o que lá escrevo é incompleto
nas efémeras milhentas mensagens
e tudo o que lá escrevo é incompleto


começa na tua pele nua,
tão longe de mim
nos teus cabelos esquizofrenia roxo-cinza
tão longe de mim
nos teus beijos de boca pequena e alma grande
tão longe de mim

começa num túmulo altar santuário perdido
que só o tempo esqueceu
nas preces orações rezas cânticos e litanias
que só o tempo esqueceu
nos rituais ritos celebrações eucaristia de amor
que só o tempo esqueceu

começa nas pedras que se ficam à beira da estrada
ganhando pó apenas
nas ruínas de fábricas abandonadas
ganhando pó apenas
nas sombras por detrás das árvores
ganhando pó apenas

começa antes do tempo começar
e não acaba nunca
começa nas tuas palavras doces
e não acaba nunca
começa no toque do teu sorrir
e não acaba
nunca.

16.3.19

renego à renegação / e voltas a ser castelo / onde o meu trono / reside

colapsa-se o universo sobre si
e voltamos a sorrir

as estepes e tundras e planícies e montanhas e vales e montes
e tudo o que sobe até ao céu
e tudo o que desce até ao centro das coisas
e tudo o que vertical-horizontalmente se existe

tudo colapsa sobre si
porque a Noite voltou
e o mundo é novo e antigo
e o que era será
e o que foi é

8.3.19

de presságios e da realidade

vejo o teu nome nas entranhas do animal sacrifício
leio a tua face em padrões de pedra evaporada
sinto o teu sorriso sorrindo sobre números plásticos

e eu que caminhava para longe do abismo de ti

de que me serviu construir muros se os fiz em papel?
para que me atei ao mastro se ele está solto?
se me ensurdecer à canção, doce canção, da sereia
ninfa da areia, poeta do mar, que têm ir e têm voltar,
haverá um tempo que não seja também ele, teu?

e eu que caminhava resoluto para longe da falésia
quero correr de volta
e saltar,
cair,
pedra no poço abismal de te ser

agarro-me aos ramos secos da árvore encefálica
com mortas mãos cansadas desobedientes
o corpo bandeira negra centrípeta,
soltando-se

e
metes uma tampa no abismo,
o ar pára repentino
as estrelas desalinham-se
e posso voltar a chorar-te de novo

6.3.19

o peso de mim é não te voltar a ter


o peso das palavras é o de não o terem
os espaços que deixamos entre elas,
a pontuação com que as segregamos,
a linha deixada em branco no início do poema.

o peso das coisas é o de não serem
excepto quando as olhamos a elas,
a realidade delas existe apenas na mão
de alguém, nos olhos de quem as vê

o peso das manhãs é o da ausência
e elas existem na carência de um toque
na pausa entre um abraço e o próximo

o peso dos dias é o das horas lentas
e todos os momentos são lágrimas
que não são choradas, derramadas

1.3.19

death and taxes

tão inevitável como o sol nascer
é ele se pôr.