30.11.17

a torre


existe, como existem os elfos e as fadas,
uma velha torre de castelo sem castelo que a tenha
perdida escondida numa floresta velha como o tempo

nessa torre mora um velho jovem,
quando se encontra a si mesmo lá,
que contempla estrelas (é sempre noite na floresta)
e à luz da lua se senta e escreve
cabelo ao vento, a preta roupa colada ao corpo
uma espada pousada ao lado
do copo

o jovem velho feiticeiro guerreiro escreve poesia,
odes de amor à noite e cânticos de tristeza de dia,
e qual velha desfocada fotografia
que ali passasse se a floresta encontrasse o viria
sentado no chão escrevendo de caneta na mão

os tambores da guerra chegam-lhe aos ouvidos
tocando lá muito ao fundo onde a floresta toca o mundo
e ele estremeçe e sonha com a grande batalha final
que há de acabar com todo o bem e todo o mal
mas à luz da noite que tão em conhece respira
e inspira esperança expira confiança e dança
uma pequena valsa sem parceira 
e à vista da primeira
estrela celestial, ele não sente qualquer mal
mas apenas o quente de um sorrir distante.

não existe o por do sol nessa torre que se ergue
solitária e cinzenta na massa negra de árvores verdes
mas ele ainda assim o sente a fugir e a nascer
lá na fronteira entre o real e o sonho 
o calor ainda o toca mesmo quando nada se vê
que as estrelas não iluminem, do topo dessa torre
no centro dessa floresta e no que dentro dele resta

bandeiras enfeitam as paredes velhas de pedra:
pretas com lobos que uivam a estrelas de prata
ladeando um trono sem dono onde ele se senta,
sentido-se até ali onde é Deus e Senhor de tudo,
intruso por vezes recluso noutros dias.

existe sozinho ali o velho jovem poeta guerreiro
que o tempo ali não lhe têm mão nem poder,
que ali é só dele todo o conhecimento e saber
que ali é só ele todo o universo sem fim
que ali é só nele que existe uma centelha de vida

há musica nessa torre mas vêm de lugar nenhum
enchendo o ar com um som incomum 
melancólica por vezes roçando o deprimente
outras poderosa rápida ou apenas contente
a musica parece seguir o traçado dos lábios dele
ora subindo ora descendo, ora sorrindo ora chorando

à esquerda do trono um altar ao que já não é
à direita um ao que poderá vir a ser um dia,
e na mão dele um Poema que ele não lê
com medo de o acabar

24.11.17

Chuva Recta

As flores são feias 
e as árvores estão mortas
e os passeios cheios de merda
os prédios caiem de podres 
e os sem abrigo enchem as entradas
no céu as nuvens tapam o sol que já fugiu 
e chove, chove tanto, chove sem parar,
transbordando sarjetas
e trazendo para a superfície
todo o esgoto que corre nelas
carros voam estrada fora,
sem respeitar sinais ou passadeiras, 
indiferentes ao frio que eu sinto.
Não há sol e a lua é fria
a noite hoje é opressiva 
e não me acolhe em seus braços,
o mundo hoje é frio
e não me quer nele.

As árvores estão mortas de troncos secos
e neles cravados a navalha
amores tão mortos como a madeira podre
as flores não passam de ervas daninhas,
porque hoje as palavras não são minhas,
as paredes estão sujas de tinta
mas as cores não brilham,
as janelas partidas não me aprecem belas
,apenas mortas.

Os passeios estão cheios de merda,
que transborda dos esgotos 
e o cheiro dela é tudo o que sinto como real,
escorrego no lodo da civilização
e deixo-me cair no chão :
de que me serve levantar
se não consigo cantar?

Os prédios caiem de podres 
e sinto-me a cair também,
nada é solido hoje,
o chão treme a cada passo
e as fundações estão velhas
cansadas de tantos anos a aguentar
esta fachada

Os sem abrigo enchem as entradas
e penso em deitar-me junto a eles
ser mais um que perdeu o mundo
e desistiu de viver sem decidir morrer

22.11.17

lábios negros de te olhar

o vestido preto como a noite que nos rodeia
só o teu sorriso brilha
tudo à volta é a ausência de tudo
e no silêncio quase absoluto
o teu respirar vibra como trovoada
relâmpago incandescente
no meu ser

olho-te a silhueta,
sombra entre sombras,
adivinho mais que vejo as formas
que conheço tão bem
do teu corpo
e trinco-me nos lábios
em desejo

sussuro-te,
para que o silêncio não fuja,
"sou teu"
e o teu respirar solta um suspiro
que me diz "e eu tua"

dou um passo
e acolhes-me em teu abraço
os nossos lábios procuram-se,
encontram-se,
tocam-se,
sem pressa,
num beijo de desejo silencioso

apertas-me contra ti,
o teu peito
furando o meu,
"faz de mim poesia"
gemes ao meu ouvido
e a minha mão escreve amor nas tuas costas
e a minha mão percorre-te lentamente,
com calma
sem pressa

soltas-me e despes o vestido:
estás nua em frente a mim,
eu postro-me a teus pés
e os meus beijos
sobem o teu corpo, quente

as tuas mãos,
cada vez mais famintas,
puxam-me para cima,
despem o meu casaco,
tiram a gravata,
desapertam a camisa,
e tocam a minha pele

solto um gemido
com o teu toque frio

puxas-me
peito contra peito
carne contra carne

as tuas mãos,
a calma esquecida,
lutam com o cinto,
atiram-me as calças ao chão,
agarram-me
puxam-me para a cama,
e quebramos o silêncio
com prazer.


13.11.17

cerâmica & companhia

o azulejo como eu agora o vejo
partido, azul, combalido esbatido o esmalte
e gastas as linhas que formaram, um dia,
uma monografia monoteísta purista é
turista da existência maoísta da ciência
ponografista surfista egoísta
que daqui ao céu espaço nenhum dista
dadaísta e fadista, odalisca lista liceal
principe décimo terceiro da casa real
teve no seu sete o mote que remete à morte
a sua sorte, mais a sul do que a norte
foi o parafuso paradisíaco abandonado
que encontrou um dia a seu lado
numa praia em que nunca esteve, só ou acompanhado
mas ainda assim não deixou de lá ir
sorrir, esse azulejo como eu agora o vejo.

num lampejo lâmpada lamparina varina
acendeu-se em mim todo um fogo sem fim
e não sendo meu coração anti-inflamatorio
ardeu tanto e tão
rápido que não sobrou nada para o velório
excepto a chama chaga cama
que ilumina
e não termina
e, oh doce menina
vive para te aquecer
      com todo o seu ser