27.3.24

Desapontamento

 Fugimos da cor dos segredos
iluminados apenas pela sombra
que entre os nossos dedos escorre. 

Ovelhas, 
velhas ovelhas sebosas,
cai-nos o pelo pelas costas
e desescamamos o ser
em pétalas de fomos.

Sentados em bancos de jardim enferrujados
olhamos o amanhã com olhos cheios de
medo,
aterrorizados pelas gordas do jornal do dia,
fingimos ser apenas burros
que pastam do pão circense
e rezam a um qualquer deus. 

Bebemos, fumamos, sniffamos, injectamos:
esquecemos,
desaparecemos entre os números das estatísticas 
porque
amanhã é outro dia
o sol nasce de novo
o despertador toca de novo.

Engraxarei os sapatos, 
farei a barba, 
apanho o cabelo, 
visto um dos fatos
e caminho, cigarro no canto dos lábios
em direcção ao metro. 

A rotina não foge de nós, 
por muito que possamos tentar
fugir de ela. 

A rotina, deusa, senhora, mãe!

Ajoelhemos-nos ao tocar do alarme, 
dois Horários do comboio Nosso,
um par de Avé Recorrências Diárias, 
um sigilo de protecção sobre o relógio,
que ele nunca nos falhe!

Chegámos a ser deuses!,
a intangencialidade do supremo encarnada,
a potência das galáxias num envelope
de carne,
o sublime acto da criação
nascia do nosso mais pequeno pensamento!

Hoje, 
escondemos-nos da cor dos segredos
e procuramos apenas
uma sombra que nos esconda
do sol do nosso potencial.