26.1.18

Fortuna rota volvitur

caminho,
atiro os pés à estrada em busca de uma nova madrugada
equidistante do dia e da noite existo como se lusco-fusco 
caminhando pelo traço-continuo da sombra no alcatrão
sem destino sem pressa mas sem tempo e sem rumo
e carrego em mim ódio a tudo o que existe e têm um fim
pensamentos que pesam como fogo e ardem como chumbo
como chaves de casas que perdi e onde não entrarei de novo
e cadernos com nomes riscados a caneta e que finjo esquecer 
...
olho-me no espelho dos olhos dos outros que me olham 
e o que vejo é o medo que tenho de ser visto como sou 
...
caminho,
e comigo caminham todas as palavras que me fizeram sorrir
uso-as como mortalha em que enrolo o corpo, pronto a dormir,
e como lume para a fogueira onde imolo a tua memória
..
fecho-me num casulo de indiferença fingida 
e rezo para que ninguém bata à porta
..
caminho,
nunca chegarei ao fim deste trilho aziago
e ao princípio já não posso nem sei voltar
por isso sigo
e o último passo 
traz-me sempre de volta à sombra

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