27.6.18

o rei poeta apaixonara-se pelo deserto
pelo sol inclemente descendo sobre as dunas
e pelo brilho das estrelas sobre o negro mar
de areia

sobre um camelo
procurando um oásis,
uma pausa abençoada,
da desolação por si amada

o rei poeta declama,
enterrado até à cintura na areia quente,
canta ao seu deus
agradecendo a benção dos djinns
e os tormentos por eles infligidos

o rei poeta adormece
numa tenda que parece flutuante
garridas cores frescas esvoaçando
em bandeiras estreladas

o rei poeta sonha
com estradas e carros
prédios e fábricas
multidões negras de passo apressado
e ao acordar

o rei poeta apaixona-se
de novo
pelo deserto
pelos cavalos e as tendas
pela areia sem fim
que ondula como água
até onde os olhos vêem

o rei poeta não acorda,
dorme para sempre.

14.6.18

outras tabacarias

fui, num instante, ao café de esquina
e voltei.
comprei tabaco e ao regressar
tinha atravessado o universo,
visto todas as estrelas,
invisíveis sobre a luz dos candeeiros,
escrito novos nomes para constelações
apaixonado por galáxias que já esqueci
antes de chegar à soleira da porta,
nesse salto de uma rua até à esquina
fui tudo o que foram outros antes de mim,
de Faraó a César a Czar passando,
ainda que brevemente,
por camponês e rei,
príncipe e bela donzela,
as pedras dos seus castelos,
o mármore que revestiu as pirâmides
e o escaravelho de ouro correndo sobre o sarcófago

não comprei o tabaco,
não voltarei a fazê-lo,
sou o universo que por momentos fui
e em mim há todos os cigarros do mundo.