22.11.18

corvos


corvos. 
animais prenuncio de tempestade,
sonhos, desejos, vontade.

estradas apagadas e luzes interminaveis
tudo é confuso dentro do olho do furacão
são paredes que se demoronam
só de as olhar.

sinto-me como se tivesse perdido tudo
o que nunca tive para que o perdesse;
uma puta a quem nunca pagaram no fim do acto;
um aleijado sem qualquer defeito,
e ainda assim condenado a pedir na rua;
um padre sem fé e um pecador arrependido.

ergo montanhas de poemas,
faço um monumento em palavras
que suba até ao céu! 
e que diga ao mundo que existir depois de mim
"eu estive aqui".

corvos dançando no céu
chove o medo deles sobre o meu
e cobre-o carinhosamente
como uma mãe tapando o filho no inverno.

ruínas,
decadentes ruínas!
a toda a volta caiu o mundo
e eu esqueci-me de cair com ele
e vou deixando-me deslizar tempo adentro
lentamente,
rebentado pelas costuras,
explodindo! 
EM FARRA E PARRA E BERRO
berro às nuvens
berro às pedras
berro ao mundo:
PORQUE NÃO POSSO SER EU, EU?!
porque tenho de desaparecer,
não quero desaparecer,
quero ficar aqui,
para sempre neste lugar entre o teu braço e o teu peito
para sempre aqui
confortavel
sem que exista um lá fora 
ou sequer um cá dentro
só o teu braço em volta de mim
o teu cheiro nas minhas narinas
e o toque do teu cabelo na bochecha
FARTO-ME DE TUDO
mas farto-me mais ainda de mim
da sombra que projecto no chão
da marca dos meus pés molhados 
no chão da casa de banho.

das linhas que escrevo para que se percam.

corvos, sempre os corvos
arautos do fim e da tempestade.