28.12.17

Amoris Laetitia

nas sombras dos prédios caídos o lixo estremece ao vento
lâminas de vidro partido, folhas soltas de grandes romances
roupa rasgada e sacos de plástico dançando como ninfas
água escorre de goteiras quebradas pelas paredes sujas
com grafitti anunciando o fim do mundo e o inferno na terra
entre promessas de favores sexuais e ameaças conjugais
cidades reduzidas a crateras fumegantes de radiação e morte

palavras pendentes como bandeiras de países inexistentes
soprando aos ventos fortes no topo de torres decadentes
irão um dia libertar-se e valsear até bater em algum cavalo
que com grande abalo irá relinchar e gritar e matar cavaleiro
e quem mais no apeadeiro estivesse e que por isso merece 
que venha o frio da morte para os levar até ao quente inferno
que nada é eterno excepto o pecado e eu que sou mal fadado

numa necrópole de sentimentos um mausoléu se ergue  ao céu
num sarcófago, de obsidiana e branco mármore as suas paredes 
esmeraldas e ametistas desenham uma cara bordada a ouro e prata 
que chora lágrimas geladas de turquesa e cospe rubis de sangue 
descansando lá dentro, longe do medo e do tormento da luz do dia
o amor que carreguei em braços até que se desfez em pó e ossos

desenterrar-me das catacumbas onde me escondi do toque do amor
arqueólogo ou salteador, historiador ou agricultor com uma enxada 
perturbaram meu descanso e agora maldição vem pela minha mão

nas alegrias muitas de amar há uma tristeza sem fim e sem refreio 
que carrega nela mesma o seu próprio medo, o seu próprio receio,
    vestida de sedas imperiais e corada com jóias reais, ela canta,
            essa dor que acompanha como uma esposa o amor

--interlúdio pornográfico--

abrir-te as pernas como Moisés abriu o mar
ser Deus e fazer-te um dilúvio na tua cona 
foder-te até seres uma com o universo 
gemeres o nirvana e gritares uma súbita epifania 
afogar-te no leite do meu prazer e transcender
carne e corpo, seremos alma

--fim interlúdio pornográfico--

tentaremos terraplanar o hiperespaço, num wormhole entre ti e mim
iremos viajar dentro de buracos negros à velocidade da luz e mais
e no espaço sideral encontrar a essência cósmica daquilo que é real
e as divindades astrais que têm corpos tais que acredito serem irreais 
a explodir de felicidade numa supernova e iluminar galáxias distantes
colocar-te nos dedos anéis de noivado planetários feitos de diamantes 
e casar no centro do universo onde até na poeira estrelar é inverno

na terra da ditadura do amor não existem revolucionários nem rebeldes
nem policias secretas nem a juventude amorosa nem paradas militares
no castelo do tirano há um altar profano sem uma cruz ou um padre 
             só o nome do amor e o sorriso que dele nasce

e toda a tragédia
e todo o sofrimento
e toda a dor
são súbditos do amor


e nos remoinhos do café mexido há açúcar doce
e, fosse como fosse,
nem as canetas deixam de o ser quando deixam de escrever
nem as folhas se tornam quadros por nelas desenhar
mas eu deixaria de o ser
se parasse de te amar

.

22.12.17

12/04/2011

Quero sentar-me numa cerveja,
beber uma esplanada de penalti
e ver o sol passar de mini-saia,
banhado pelos raios das rapariguinhas.

Quero uma grade de férias
e beber uma semana de cervejas
todos os dias.

Quero não fazer sentido
e não ter de o fazer,
quero deitar-me num palheiro
e fingir-me agulha,
esperando que alguem se pique em mim.

Quero uma dor permanente
que me afogue a mágoa de ser feliz
e quero uma doença estranha
apanhada numa chavena de café
para poder ser inválido
e não ter de trabalhar.

Quero ser uma caneta,
nas mãos de uma poetisa,
nos dedos de uma poetisa,
entre as pernas de uma poetisa.

Quero mergulhar na areia e nadar
até chegar à àgua onde caminharei
rumo à infinitésimal probabilidade
de estar feliz.

Quero um coelho
que me estufe e ponha no forno,
me corte umas fatias
e saboreie com arroz branco.

Quero ser uma carruagem,
a central,
de um qualquer expresso do ocidente
(que o oriente está gasto).

Quero ser a unica vaca do prado
e mastigar toda a relva
com a raiva de quem é único.

Quero ser cavalo e cobrir èguas,
quero ser cão e foder as primas,
quero ser lagarto e pôr ovos.

Quero ser dor no pescoço de alguem

20.12.17

numa noite de tempestade

a preta caminhava na cidade vazia
muito depois de morto o dia
e entre passadas rezava a um qualquer deus
que a quisesse ouvir

protege-me
tu dos muitos nomes
deusa, deus, deuses
ouçam minhas preces
protege-me

a tempestade berrava no céu
e a preta tremia
de frio ou medo não sabia
enquanto dizia

protege-me
tu de onde veio o mundo
tu onde ele irá acabar
protege-me

a noite estava deserta
só eu passava junto a ela
e a vi, velha e já não bela
se alguma vez o fora
e a ouvi:

protege-me
Deus do céu
Deus do chão
Deus do homem
Deus do cão,
protege-me!

vento e trovões
escondiam-lhe a voz gasta
mas debaixo da natureza
ela rezava com delicadeza:

protege-me
deus chacal,
deus animal,
deus humano,
deus ufano,
protege-me!

nunca mais a vi,
à velha preta que rezava
naquela rua onde ela passava
mas juro que já ouvi
em noites frias de tempestade
uma voz com alguma idade
que reza aos deuses
em surdina

15.12.17

muro


musgo cresce no muro e o céu está escuro
 lama na estrada e, aqui tudo vale nada
estamos perto de estar longe
e à distância
tudo parece que padece do que merece
mas
(e há sempre um mas na percepção)
nada do que se encontra
quando os deuses se afronta
é real ou normal 
como a aurora boreal 
brilha numa trip de ácidos
e afoga, afaga aflama a cama
ama!
nada mais te servirá de razão
nem casa nem carro nem televisão
nem sexo com a tua mão
nem dormir sob as estrelas no chão
só amar
eternamente amar
constantemente, amar
por isso, filha da minha imaginação
AMA
arrasta alguém para a tua cama
  deita-o em cima do colchão
beija e geme
treme
abre o coração
liberta as amarras
somos feitos de amor
e parecemos sempre escolher viver na dor

o muro irá cair, o musgo irá crescer
e os deuses vão se rir ao ver
quão frágil é o querer
de alguém que têm de morrer

por isso ama,
que é imortal o amor
e efémera a dor

30.11.17

a torre


existe, como existem os elfos e as fadas,
uma velha torre de castelo sem castelo que a tenha
perdida escondida numa floresta velha como o tempo

nessa torre mora um velho jovem,
quando se encontra a si mesmo lá,
que contempla estrelas (é sempre noite na floresta)
e à luz da lua se senta e escreve
cabelo ao vento, a preta roupa colada ao corpo
uma espada pousada ao lado
do copo

o jovem velho feiticeiro guerreiro escreve poesia,
odes de amor à noite e cânticos de tristeza de dia,
e qual velha desfocada fotografia
que ali passasse se a floresta encontrasse o viria
sentado no chão escrevendo de caneta na mão

os tambores da guerra chegam-lhe aos ouvidos
tocando lá muito ao fundo onde a floresta toca o mundo
e ele estremeçe e sonha com a grande batalha final
que há de acabar com todo o bem e todo o mal
mas à luz da noite que tão em conhece respira
e inspira esperança expira confiança e dança
uma pequena valsa sem parceira 
e à vista da primeira
estrela celestial, ele não sente qualquer mal
mas apenas o quente de um sorrir distante.

não existe o por do sol nessa torre que se ergue
solitária e cinzenta na massa negra de árvores verdes
mas ele ainda assim o sente a fugir e a nascer
lá na fronteira entre o real e o sonho 
o calor ainda o toca mesmo quando nada se vê
que as estrelas não iluminem, do topo dessa torre
no centro dessa floresta e no que dentro dele resta

bandeiras enfeitam as paredes velhas de pedra:
pretas com lobos que uivam a estrelas de prata
ladeando um trono sem dono onde ele se senta,
sentido-se até ali onde é Deus e Senhor de tudo,
intruso por vezes recluso noutros dias.

existe sozinho ali o velho jovem poeta guerreiro
que o tempo ali não lhe têm mão nem poder,
que ali é só dele todo o conhecimento e saber
que ali é só ele todo o universo sem fim
que ali é só nele que existe uma centelha de vida

há musica nessa torre mas vêm de lugar nenhum
enchendo o ar com um som incomum 
melancólica por vezes roçando o deprimente
outras poderosa rápida ou apenas contente
a musica parece seguir o traçado dos lábios dele
ora subindo ora descendo, ora sorrindo ora chorando

à esquerda do trono um altar ao que já não é
à direita um ao que poderá vir a ser um dia,
e na mão dele um Poema que ele não lê
com medo de o acabar

24.11.17

Chuva Recta

As flores são feias 
e as árvores estão mortas
e os passeios cheios de merda
os prédios caiem de podres 
e os sem abrigo enchem as entradas
no céu as nuvens tapam o sol que já fugiu 
e chove, chove tanto, chove sem parar,
transbordando sarjetas
e trazendo para a superfície
todo o esgoto que corre nelas
carros voam estrada fora,
sem respeitar sinais ou passadeiras, 
indiferentes ao frio que eu sinto.
Não há sol e a lua é fria
a noite hoje é opressiva 
e não me acolhe em seus braços,
o mundo hoje é frio
e não me quer nele.

As árvores estão mortas de troncos secos
e neles cravados a navalha
amores tão mortos como a madeira podre
as flores não passam de ervas daninhas,
porque hoje as palavras não são minhas,
as paredes estão sujas de tinta
mas as cores não brilham,
as janelas partidas não me aprecem belas
,apenas mortas.

Os passeios estão cheios de merda,
que transborda dos esgotos 
e o cheiro dela é tudo o que sinto como real,
escorrego no lodo da civilização
e deixo-me cair no chão :
de que me serve levantar
se não consigo cantar?

Os prédios caiem de podres 
e sinto-me a cair também,
nada é solido hoje,
o chão treme a cada passo
e as fundações estão velhas
cansadas de tantos anos a aguentar
esta fachada

Os sem abrigo enchem as entradas
e penso em deitar-me junto a eles
ser mais um que perdeu o mundo
e desistiu de viver sem decidir morrer

22.11.17

lábios negros de te olhar

o vestido preto como a noite que nos rodeia
só o teu sorriso brilha
tudo à volta é a ausência de tudo
e no silêncio quase absoluto
o teu respirar vibra como trovoada
relâmpago incandescente
no meu ser

olho-te a silhueta,
sombra entre sombras,
adivinho mais que vejo as formas
que conheço tão bem
do teu corpo
e trinco-me nos lábios
em desejo

sussuro-te,
para que o silêncio não fuja,
"sou teu"
e o teu respirar solta um suspiro
que me diz "e eu tua"

dou um passo
e acolhes-me em teu abraço
os nossos lábios procuram-se,
encontram-se,
tocam-se,
sem pressa,
num beijo de desejo silencioso

apertas-me contra ti,
o teu peito
furando o meu,
"faz de mim poesia"
gemes ao meu ouvido
e a minha mão escreve amor nas tuas costas
e a minha mão percorre-te lentamente,
com calma
sem pressa

soltas-me e despes o vestido:
estás nua em frente a mim,
eu postro-me a teus pés
e os meus beijos
sobem o teu corpo, quente

as tuas mãos,
cada vez mais famintas,
puxam-me para cima,
despem o meu casaco,
tiram a gravata,
desapertam a camisa,
e tocam a minha pele

solto um gemido
com o teu toque frio

puxas-me
peito contra peito
carne contra carne

as tuas mãos,
a calma esquecida,
lutam com o cinto,
atiram-me as calças ao chão,
agarram-me
puxam-me para a cama,
e quebramos o silêncio
com prazer.


13.11.17

cerâmica & companhia

o azulejo como eu agora o vejo
partido, azul, combalido esbatido o esmalte
e gastas as linhas que formaram, um dia,
uma monografia monoteísta purista é
turista da existência maoísta da ciência
ponografista surfista egoísta
que daqui ao céu espaço nenhum dista
dadaísta e fadista, odalisca lista liceal
principe décimo terceiro da casa real
teve no seu sete o mote que remete à morte
a sua sorte, mais a sul do que a norte
foi o parafuso paradisíaco abandonado
que encontrou um dia a seu lado
numa praia em que nunca esteve, só ou acompanhado
mas ainda assim não deixou de lá ir
sorrir, esse azulejo como eu agora o vejo.

num lampejo lâmpada lamparina varina
acendeu-se em mim todo um fogo sem fim
e não sendo meu coração anti-inflamatorio
ardeu tanto e tão
rápido que não sobrou nada para o velório
excepto a chama chaga cama
que ilumina
e não termina
e, oh doce menina
vive para te aquecer
      com todo o seu ser

31.10.17

incoerente poema inclemente

prédios velhos em construção e o futuro
na palma suada do meu pé pretende e é
pouco mais que café adocicado de cicuta
(mata barata e mata puta) e envenenado
com lágrimas sangrentas de sal sedentas
(escrevemos poemas em novas sebentas
e tu estrovas restrovas estrofes restrofes
e eu danço e sonho com paredes a cair
vidros a partir janelas a sorrir pilas a subir
ai ter cona e ser penetrado pelo universo
ai ter mamas e chupar nelas até secar!
malmequer abandonado lírio espezinhado
e quero sempre rimar com ter a meu lado
a mais recente esquizofrenia inana insana
insà-tisfatória (e acabaremos também um dia
a nossa história (se em degredo ou glória
é um segredo do destino afortunado) passado
o tempo de sofrer crescer e re-encolher)

volto ao café, snack-bar, taberna, restaurante:
idiotice sem fim, a minha única constante.

ai as formigas cheias de merda nas barrigas
ai o medo que o tempo chega sempre tão cedo
ai as dores, que nos fazem sonhar com ser flores

tenho um passado que é prado mal arado
de possibilidades que embateram nas realidades
que em todas as idades são indiscutíveis verdades
que inevitabilidades atiram aos monges e frades
que em Hades se tornaram antes abades.

tenho um futuro, mas só se o tiver mesmo a sério
,porque se todo o amanhã é sempre um mistério,
 como sei que ganharei mais um sol a nascer?

tenho um futuro, provavelmente duro e escuro
eventualmente regado de muita e fugaz alegria,
daquela que nasce de manhã e morre ao fim do dia
,daquela que se vem num berrar e geme ao beijar,
daquela que se esconde em palavras vãs não ditas
(e por isso ainda mais perigosas e bonitas e fritas)


tenho um presente que só sente quem me mente
que vai rente a ser contente a passo de demente
ai que ele não é boa gente mas engana totalmente
por parecer inteligente competente, firma!mente
e completamente indiferente ao que realmente é


serei latrinas partidas em WCs congestionados
serei ruínas perdidas em países bombardeados
serei meninas comidas em becos mal torneados
serei putas finas fodidas em camas partidas
e beberei o semen quente da gente à frente
de plateias repletas das pessoas directas  e
incorretas.

serei papel de limpar o rabo e lavar o cú
e irei andar pelas ruas nu
e cantarei à lua nua
se ninguém mais me quiser ouvir


azulejo partido de um lobby de entrada
numa casa vaga e abandonada
vendidos na feira da ladra
à beira da estrada
janela esquisita
sem nela menina bonita
que mande baldes de água mijada
da dita armação velha e partida, acabada

estrofes estruturais estupidificadas e esventradas

ai que da vida não somos mais que as entradas
pão e queijo e azeitonas pretas, verdes, podres
e copo de vinho do prato vizinho que bebo sozinho
e trinta euros em palitos italianos esbanjados
(para que sejam às pessoas feias atirados)
e sabe deus quanto dinheiro
para pagar o que tive de beber primeiro!

(todo o futuro possível têm em comum
 com um unicórnio e um dragão em
 ser apenas um filho da fértil imaginação)

pedras de calçada pisada pela mulher usada
sabem tudo ao não saber nada e são
todo o universo e as galáxias e as estrelas
(num saco meter-las e com meta cometa fodelas!)
relva carbonizada que já não é será ruminada
gravata amarrotada pró fundo do armário atirada
ai um calhau nas trombas mais as palavras
que nunca chegam chegaram chegarão
para dizer o que sente e mente o coração!

o poeta insiste: há mais ainda para dizer
o poema não pode morrer perecer falecer
adoecer ou sequer adormecer, tem de crescer!

capacete partido numa feia estrada nacional
ou então um outra qualquer viagem só fatal
sangue escorrido numa vala aberta de esgoto
e a escarra que há três dias não me sai do goto
o cigarro que queima com demasiada rápidez
eu sou o que sinto e não aquilo que achas que vês
mala que não fecha carregada de livros escolares
nem natal nem páscoa mas! bolos reis e folares
a boca seca e escura que sabe apenas a loucura
e os buracos nos sapatos de fato
e camisas calças casacos cheios de pelo de gato
tudo é curto e sujo e velho e rasgado em mim
a única coisa que fica realmente é o fim.

cheira ao dia antes da chuva voltar a chover
e não quero sair , beber , esquecer , ser , quero
cair , cair , cair , cair , cair , destruir e sofrer

paredes mal graffitadas e preclitantemente
inclinadas marcam as hora passadas nas arcadas
que eventualmente serão demolidas e erguidas
em sua nova glória como parte da história
que não chegou a ter a sorte forte de acontecer:
teve de morrer pois só com a sua final morte
ela poderá renascer e ser fénix ou zombie ou
(se calhar é apenas isso e mais nada que sou
poeta eternamente apaixonado pelo seu sofrer
que se diverte fingindo que feliz sabe ser)
cadáver putrefaciente paciente contente porque
já nada nele sente, nem dor, nem dente,nem amor

que tudo se enfie em mim bem fundo
que eu seja penetrado forte pelo mundo
caralhos me FODAM MAIS ESTA MERDA TODA!
serei puta velha desdentada barata e gorda
vendida à beira da estrada por cinco tostões
chuparei pilas e esporra de condutores de camiões
serei espancada por taxistas daqueles racistas
abusada por multimilionários filantropistas
cantada por artistas e enrrabada por baristas
(e à porta dos maristas sonharei com marxistas
 que me libertem o capital, eu ofereço o anal,
 que me soltem os grilhões, lambo-lhes os culhões
 que tirem desta vida, que não é tão curta
 como comprida)

Re-baixar-me-ei e re-gre-ssa-rei e serei rei
sem trono coroa ou símbolo de poder
sem um leito real magnífico onde foder
sem pergaminho nem caneta para fazer lei
sem súbditos e sem conselheiros paneleiros
que me digam o que fazer se só quero é ser
Rei.

as estradas concorridas pelo transito lento
enchem ao poeta todo o seu pensamento
de quem tanto quer ir e não voltar nunca mais
sorrir e correr a atirar-se do cais para morrer
e assim para toda a eternidade estar sorrindo
eternamente indo para onde mais quer estar

o mato reza pela chuva e lá no norte morre a uva
não haverá vinho para beber nem água para ser
não haverá caminho pa viver ou vontade de o fazer
haverá apenas a boca seca sedente deserta ,
como quem estivesse completamente doente
já nem válido para oferta (errada ou certa),
apenas as sobras e sombras e o resto que fica.

30.10.17

já cá vim mil vezes e ainda não aprendi

Foste

um anjo e o brilho da lua
antes de saber ver-te nua

foste

uma medieval donzela
inteligente e bela e só dela

Foste

uma estrela do fundo do mar
que fugiu rapidamente a voar
(e quis cá dentro ficar
 até se renovar e expulsar)

foste

uma filha do sol brilhante
sacerdotisa demasiado errante

foste

uma estrela pequenininha
que sonhou ser minha
quando eu não a tinha

foste

uma bruxa de má memória
pelo que fez mais tarde na história

Foste

Noite rainha e aprendiz de mim
mas não quiseste dar-me o fim
e fugiste de novo também assim

Foste

uma tartaruga e eu salada
que nunca soube estar calada

foste

deusa e totem da degradação
mas quiseste-me prender em tua mão
e perdeste o meu coração

Foste

aquilo que sempre foste em mim:
poesia sem fim.

29.10.17

toda a garganta dói

tua boca, tua boca teus lá...
naaaaaaaaaaaaaaaaão
não sou teu
não sou rei
abandonei
deixei
larguei
desisti
de ti
em mim
eu escrevi a puta do FIM!

toda a garganta dói

sou rouco de ressaca
rouco de ser criança,
rouco de não afiar a faca,
rouco de ter esperança
rouco de ser tão idiota
rouco de querer a tua porta
rouco de não ter sorte
rouco de querer ser forte
rouco de querer a nossa morte
rouco de desejar acreditar e sonhar
e outros verbos em ar
FODASSE
estou de novo a divagar
e ir de encontro a ti devagar
e cair mais um pouco quando te quero
MATAR
quero morrer de nós
mulher
quero nos ver sós
quer,
quer.

AIIIIIIIIIIIII
ai ai ai aiiiiiiii

que ele já foi já não cai
que ela já foi já não vai
somos um boi
que quero cantar
jogar, andar, mamar, dançar, sonhar, calar
esta voz que me diz querer ...ar
Argh argumento que sou jumento
que sou idiota e imbecil e inútil
sou a vodka estrangeira que bebo
(limpa-me de vez o sebo)
mata-me por favor
que me custa tanto não sentir o teu calor

eu sou mais eu
quando sou teu
e não serei nunca mais nada
(que rima com doce amada,
 que sabe a marmelada
 que me faz uma mamada
 que nunca mais me dirá nada
 que está aqui enfiada
,engasgada
,mal passada
,pesada
 mais que de tonelada
 não acabada
 quero quero marmelada
 quero quero uma mamada
 quero quero mais nada
 quero uma noite bem passada
 (e lembro-me do que rima com obrigada)

 Ai Adeus aí

FUNERAL

e sinto as minhas pernas tão pesadas
,e as minhas esperanças tão cansadas

,e o meu sorriso foi abandonado à sua sorte
vagueia algures procurando-se por uma morte

,mergulhada em fogo infernal que está
(aonde quer que seja que ela hoje vá)
a razão do seu existir reincidente
na tromba otárió-contente do poeta desistente.

dói no corpo o que não deixo doer no coração,
dói nas costas, nos olhos, nos pés e na mão
(onde te seguro ainda, qual borboleta esguia,
 que me sorria de noite mas fugia de dia)

 podia, poderia, poderá
(quem sabe o que amanhã será?)
 mas afogo-o em mim,
   aceito-lhe o fim,
 sorverei do seu falecer
  tudo o que puder beber
 e escreverei obituários obtusos
              obtenebrosas prosas 
 e salgadas lágrimas apalavradas, irreais,
                                  mortais.

 se aplaino o terreno e faço dele liso e pleno
 se me canto em paz e sereno duma mangedora comendo feno
 se não serei arquitecto de casas alveolares
 átrio-ventriculares de osmoses frutoses em grandes doses
 se não terás uma mansão
 terás um mausoléu com o teu caixão
 deixarei lá flores todo o santo dia
 uma flor, um verso, uma poesia,
 cada pétala uma palavra carregada de sentido
 e 
 tremido, 
 combalido, 
 pelas chamas frias consumido,
 em seu fundo inexistente âmago ferido,
 (não será pai nem marido!
  apenas uma sombra da felicidade
  que perdemos com a idade)

 Estão cansadas minhas pernas e pesadas minhas penas
 como idosas sarracenas que chupam alegres açucenas  
 fingindo ser ópio adormecedor o ódio aterrador da dor

 Calejado, a mão ainda segura o cajado, 
 com o coração e espírito bem arejado,
 (a janela ficou aberta para voares 
                   voltares, mudares de ares)
  profano e ufano 
  pano sujo urbano
  cor desaparecida
  dum espectáculo cosmicida 
  (limpas o sémen seco de alguém
   que ficou de um dia aquém 
   em mim
   que sou fim do mundo e da civilização 
     [ah! vem ver as ruínas pela minha mão!]
   que sou o alpha mas não o omêga
   que sou pior que puta, sou pêga! 
   que sou o nascer de todos os dias
         e o morrer de todos os sois
   que sou TODAS as conas frias
           TODOS os caralhos que sabem a rissóis
   que sou luz e sombra
   que dou luz e sombra
   que reluz da sua tromba!)

sem filos e sem sófia,
sem fonética, 
    fonologia,
    morfologia,
    sintaxe ou semântica
só com o saber ter que perder
                   para   ser

na lexicologia não existe tecnologia só mesmo a poesia
 ainda lá está no fim do dia.
               não existe sensatez
             ( não atravessaremos o canal do Suez )
               não há lugares onde ficar
               não há camas onde dormir
               não há nada para amar
                   só um sitio para me vir

 nos meus nada académicos escritos de escatologia 
 canto as putas do pós-apocalipse romântico
 e sonho com ver o céu cair
 e a terra a abrir
 e o inferno a subir
 e as chamas a trepar trepar trepar sem parar
 para me consumir
 e deixar
 onde quero estar
 (no calor do inferno,
  no frio  do inverno,
  no toque da tua mão,
  na voz da tua canção,
  no sorrir dos teus dentes
  quando me mentes
  e dizes
  que consegues viver sem me ter)

[uma pausa para fumar 
              e enganar 
              e fingir que não sinto
           ai! que tão bem que minto]

e no dia em que me podias ter
         em que te podia  ter
      decidiste melhor morrer
             que parar de ser
       e já não podemos foder
       e eu não ...

 um sorriso 
 é tudo o o que preciso
 digo a mentir descaradamente,
 se te tiver será completamente! 

 Ai, que te ia matar e acabo a cantar
     de novo
       o ovo
         que não quisemos fritar
         que não metemos a salgar
         que não temos como saborear
         que queijo quer acompanhar.

 Mulher!
 quero-te enterrar,
 sabes onde me encontrar,
 se volto a olhar o teu olhar
 e a mergulhar
 assim que me quiseres nadar
 e dessa vez (hipotética) nada nos poderá parar
             (hipótese patética)
             (hipnose  partenogenética)
              hipódromos de correr e não voltar
              hipopótamos cinzentos
              e patrões avarentos
              e sonhos a acabar
              e camas a arder
              e sons de gente a gemer
              e as tábuas de suporte a quebrar
              e eu
              e tu
              e nós a GRITAR
              e eu a sonhar,
                só eu a sonhar,
                   eu sozinho a sonhar o universo
                    e o teu nome em cada verso
                    e o meu nome em cada linha
                    e o nosso nome,
                  que não chegamos a ter
                  que nunca vai nascer
                  que vi a morrer
              nas tuas mãos cruéis (correríamos todos os bordeis) 
       quentes, suaves, abençoadas 
                 de pecado lavadas
           ai, desenha-me estradas
  e leva-me por elas de mãos dadas
  e cai por fim (sem teres medo)
         em mim (sei que é cedo)
                (eu vou cá estar
                 se quiseres voltar
                 e no pretérito perfeito do futuro 
                                             mergulhar)

 Escrevo-te uma campa que funcione como uma tampa
 para afundar 
     e afogar 
      e matar 
      e calar! esta voz que me diz
                "em mim serias feliz
                 mas não quero prender meu sorrir
                     não quero prender meu me vir
                     não quero amarrar-me a ti
            e soltar o futuro que ainda não vi"

 Enterro-te fundo em mim
 e acredito finalmente no fim
 mas quando teus olhos sorrirem nos meus
 "AI!" bradarei aos céus 
 e responderei, mentirei, aldrabar-te-ei: 
 "sim, estou sempre bem" 
 (mente-me tu também,
  que viver é absurdo
  e, contudo
  ...)

censuro-me e volto-me atrás e escrevo-me de novo,
                       (sou poeta de nenhum povo)
não é este um hino gloriosos 
mas uma eulogia ao que não chegou a ser um dia
    um cemitério onde te desci à terra e ao pó
       onde te vi desaparecer e me vi ficar só
    um carro fúnebre a abrir estrada fora
               que há muito passa da hora
                de me 
                de te 
                de nos acabar
                       e tudo enterrar.