27.9.24

Efígie

As vezes imagino, com prazer,
uma pessoa boneco-vodoo,
de fato, gravata, monóculo e cartola,
para cumprir à letra o estereótipo,
em quem espeto com precisão acupuntural
um pin para cada um dos males do mundo

E faço-a sofrer, eu justiceiro-vingador,
mestre juiz executor superior,
com toda a maldade que sei inventar

Sodomizo, a essa pessoa imaginária,
com uma estaca de madeira afiada,
farpada e de pregos tétanicos carregada,
lentamente, saboreando o prazer
de fazer sofrer e ver escorrer o sangue

Enforco e lincho, estropio e esventro
rasgo-lhe a carne com garras de raiva
e bebo-lhe o sangue de um cálice dourado
gritando-me bárbaro conquistador
da verdade e justiça o verdadeiro senhor
e na adrenalina endorfinica da hubris 
esqueço-me que apenas imagino

Despejo-lhe ácido do sulfúrico,
do fluorantimônico concentrado 
e até tríflico na pele até que ela arda
e se desfaça em nada 
e fique exposto ao sol o interior podre

Carbonizo em fogo lento esse ídolo
putrefacto e bato palmas alegre
ao ver rebentar cada uma das pústulas 
de bílis e pus numa explosão de nojo
que espalha pelo chão da minha imaginação 
o cheiro fedorento da maldade

No fim, como tempero único 
apenas um picante molho indiano 
para esfregar nas feridas abertas
e trincar-lhe a carne queimada
e dela saborear sofregamente o elixir ícórico
da escuridão que vive na humanidade

11.9.24

"liberdade"

 uma campa sem nome e sem data
onde a nossa esperança dorme
enterrada

num espaço entre o pedaço de mim
que acredita apenas no fim do mundo
e aquele que sorri na alegria de existir

danço, sem saber dançar
expulsando demónios carnentos
de dentro do fundo da minha alma
as cores violentas da revolução
as explosões fragmentárias
de bombas, minas esquecidas 
perdidas entre a relva do chão
do ser

nascidos depois de o futuro morrer
e muito antes de ele poder renascer
somos só uma sombra, 
um fantasma, 
o espírito há muito despido de carne
do sonho eterno

as pombas há muito caíram do céu
e os cravos estão murchos do tempo, 
já só existe a memória dos desejos
que levaram a vida de tantos
e a desfocada imagem digital, artificial
falsa!
do que deveria há tanto ter sido



Sacerdócio

 sou sarcedote da cona
canto os misterios vaginais
e a minha alma
esporra-se no altar da divindade

perdi a direção da penetração
em rumo ao prazer 
mas tenho ainda na mão
a força para o fazer, 
e enfio-me fundo na emoção
até me perder
dentro do anus alargado
de uma qualquer puta de beira de estrada.

sou sacerdote da cona
mas no espírito ecuménico
estudei os mistérios da teta,
da peida e do caralho.

procurei na metafísica do foder
uma cama onde me deitar
e com rítmicas pulsões fazer gemer
e quem sabe, gritar
a carnal realidade do ser
desejoso do pecado se livrar

sou sacerdote da pila,
canto os mistérios peniais
e a minha alma
geme de prazer no seu altar

encontrei na mecanização industrial
e no consumismo desenfreado
um certo conforto artificial
de plástico ou borracha forrado
para preencher o vazio fatal
do tempo prolongado
da solidão

sou sacerdote da cona
canto os misterios vaginais
e a minha alma
esporra-se no altar da divindade

em nome da sagrada vagina
e do divino caralho
vão se foder.