23.10.24

supositório

bizarra sadólésbicóultra-violência
sagrada raiz cultóabrasadora
engolida goela abaixo, ventre adentro
o fugir perpétuo perpendicularmente
à estrada, aquela, a única estrada
a que vai de sítio nenhum acabar no nada.

rotunda electrómecanica automatizada,
aqui não cabem nomes, só espaços,
espaços micrósofisticados para pobre
dormir à beira de um beco sem fim,
caixa de cartão inviolável universo instável
e dor palpável nas palavras inventadas
na paralelepipédica acolchoada do chão

parede vírgular entre o vazio celular 
e a mitose metaquânticópulsante
dos supradependentes da propaganda 
teleimaginética enviada em tsunamicas
ondas de vácuosa ideológicómortal substância

escondidos da suprema vitignorancia daqueles sábios
que inebriadópesados se arrastam
pelas ruas da amargurante casa pensante 
torre márboreantóbranca altiva
verborreiam adjectivando as crianças
ascendentes e descendentes da revolução 
com as cores do sujo do pobre do fraco 
meritocratodivinal liturgia que os guia

na finalizóterminação caustica da coisa
há uma negação prosaica do sentido
uma queda em direção ao pós modernismo
buraco negro da significação simbólica
e nada se retira da metafísica de tudo

no fim, a esta hora tudo é supositório:
se acreditas que funciona....

27.9.24

Efígie

As vezes imagino, com prazer,
uma pessoa boneco-vodoo,
de fato, gravata, monóculo e cartola,
para cumprir à letra o estereótipo,
em quem espeto com precisão acupuntural
um pin para cada um dos males do mundo

E faço-a sofrer, eu justiceiro-vingador,
mestre juiz executor superior,
com toda a maldade que sei inventar

Sodomizo, a essa pessoa imaginária,
com uma estaca de madeira afiada,
farpada e de pregos tétanicos carregada,
lentamente, saboreando o prazer
de fazer sofrer e ver escorrer o sangue

Enforco e lincho, estropio e esventro
rasgo-lhe a carne com garras de raiva
e bebo-lhe o sangue de um cálice dourado
gritando-me bárbaro conquistador
da verdade e justiça o verdadeiro senhor
e na adrenalina endorfinica da hubris 
esqueço-me que apenas imagino

Despejo-lhe ácido do sulfúrico,
do fluorantimônico concentrado 
e até tríflico na pele até que ela arda
e se desfaça em nada 
e fique exposto ao sol o interior podre

Carbonizo em fogo lento esse ídolo
putrefacto e bato palmas alegre
ao ver rebentar cada uma das pústulas 
de bílis e pus numa explosão de nojo
que espalha pelo chão da minha imaginação 
o cheiro fedorento da maldade

No fim, como tempero único 
apenas um picante molho indiano 
para esfregar nas feridas abertas
e trincar-lhe a carne queimada
e dela saborear sofregamente o elixir ícórico
da escuridão que vive na humanidade

11.9.24

"liberdade"

 uma campa sem nome e sem data
onde a nossa esperança dorme
enterrada

num espaço entre o pedaço de mim
que acredita apenas no fim do mundo
e aquele que sorri na alegria de existir

danço, sem saber dançar
expulsando demónios carnentos
de dentro do fundo da minha alma
as cores violentas da revolução
as explosões fragmentárias
de bombas, minas esquecidas 
perdidas entre a relva do chão
do ser

nascidos depois de o futuro morrer
e muito antes de ele poder renascer
somos só uma sombra, 
um fantasma, 
o espírito há muito despido de carne
do sonho eterno

as pombas há muito caíram do céu
e os cravos estão murchos do tempo, 
já só existe a memória dos desejos
que levaram a vida de tantos
e a desfocada imagem digital, artificial
falsa!
do que deveria há tanto ter sido



Sacerdócio

 sou sarcedote da cona
canto os misterios vaginais
e a minha alma
esporra-se no altar da divindade

perdi a direção da penetração
em rumo ao prazer 
mas tenho ainda na mão
a força para o fazer, 
e enfio-me fundo na emoção
até me perder
dentro do anus alargado
de uma qualquer puta de beira de estrada.

sou sacerdote da cona
mas no espírito ecuménico
estudei os mistérios da teta,
da peida e do caralho.

procurei na metafísica do foder
uma cama onde me deitar
e com rítmicas pulsões fazer gemer
e quem sabe, gritar
a carnal realidade do ser
desejoso do pecado se livrar

sou sacerdote da pila,
canto os mistérios peniais
e a minha alma
geme de prazer no seu altar

encontrei na mecanização industrial
e no consumismo desenfreado
um certo conforto artificial
de plástico ou borracha forrado
para preencher o vazio fatal
do tempo prolongado
da solidão

sou sacerdote da cona
canto os misterios vaginais
e a minha alma
esporra-se no altar da divindade

em nome da sagrada vagina
e do divino caralho
vão se foder.

27.3.24

Desapontamento

 Fugimos da cor dos segredos
iluminados apenas pela sombra
que entre os nossos dedos escorre. 

Ovelhas, 
velhas ovelhas sebosas,
cai-nos o pelo pelas costas
e desescamamos o ser
em pétalas de fomos.

Sentados em bancos de jardim enferrujados
olhamos o amanhã com olhos cheios de
medo,
aterrorizados pelas gordas do jornal do dia,
fingimos ser apenas burros
que pastam do pão circense
e rezam a um qualquer deus. 

Bebemos, fumamos, sniffamos, injectamos:
esquecemos,
desaparecemos entre os números das estatísticas 
porque
amanhã é outro dia
o sol nasce de novo
o despertador toca de novo.

Engraxarei os sapatos, 
farei a barba, 
apanho o cabelo, 
visto um dos fatos
e caminho, cigarro no canto dos lábios
em direcção ao metro. 

A rotina não foge de nós, 
por muito que possamos tentar
fugir de ela. 

A rotina, deusa, senhora, mãe!

Ajoelhemos-nos ao tocar do alarme, 
dois Horários do comboio Nosso,
um par de Avé Recorrências Diárias, 
um sigilo de protecção sobre o relógio,
que ele nunca nos falhe!

Chegámos a ser deuses!,
a intangencialidade do supremo encarnada,
a potência das galáxias num envelope
de carne,
o sublime acto da criação
nascia do nosso mais pequeno pensamento!

Hoje, 
escondemos-nos da cor dos segredos
e procuramos apenas
uma sombra que nos esconda
do sol do nosso potencial.