28.12.17

Amoris Laetitia

nas sombras dos prédios caídos o lixo estremece ao vento
lâminas de vidro partido, folhas soltas de grandes romances
roupa rasgada e sacos de plástico dançando como ninfas
água escorre de goteiras quebradas pelas paredes sujas
com grafitti anunciando o fim do mundo e o inferno na terra
entre promessas de favores sexuais e ameaças conjugais
cidades reduzidas a crateras fumegantes de radiação e morte

palavras pendentes como bandeiras de países inexistentes
soprando aos ventos fortes no topo de torres decadentes
irão um dia libertar-se e valsear até bater em algum cavalo
que com grande abalo irá relinchar e gritar e matar cavaleiro
e quem mais no apeadeiro estivesse e que por isso merece 
que venha o frio da morte para os levar até ao quente inferno
que nada é eterno excepto o pecado e eu que sou mal fadado

numa necrópole de sentimentos um mausoléu se ergue  ao céu
num sarcófago, de obsidiana e branco mármore as suas paredes 
esmeraldas e ametistas desenham uma cara bordada a ouro e prata 
que chora lágrimas geladas de turquesa e cospe rubis de sangue 
descansando lá dentro, longe do medo e do tormento da luz do dia
o amor que carreguei em braços até que se desfez em pó e ossos

desenterrar-me das catacumbas onde me escondi do toque do amor
arqueólogo ou salteador, historiador ou agricultor com uma enxada 
perturbaram meu descanso e agora maldição vem pela minha mão

nas alegrias muitas de amar há uma tristeza sem fim e sem refreio 
que carrega nela mesma o seu próprio medo, o seu próprio receio,
    vestida de sedas imperiais e corada com jóias reais, ela canta,
            essa dor que acompanha como uma esposa o amor

--interlúdio pornográfico--

abrir-te as pernas como Moisés abriu o mar
ser Deus e fazer-te um dilúvio na tua cona 
foder-te até seres uma com o universo 
gemeres o nirvana e gritares uma súbita epifania 
afogar-te no leite do meu prazer e transcender
carne e corpo, seremos alma

--fim interlúdio pornográfico--

tentaremos terraplanar o hiperespaço, num wormhole entre ti e mim
iremos viajar dentro de buracos negros à velocidade da luz e mais
e no espaço sideral encontrar a essência cósmica daquilo que é real
e as divindades astrais que têm corpos tais que acredito serem irreais 
a explodir de felicidade numa supernova e iluminar galáxias distantes
colocar-te nos dedos anéis de noivado planetários feitos de diamantes 
e casar no centro do universo onde até na poeira estrelar é inverno

na terra da ditadura do amor não existem revolucionários nem rebeldes
nem policias secretas nem a juventude amorosa nem paradas militares
no castelo do tirano há um altar profano sem uma cruz ou um padre 
             só o nome do amor e o sorriso que dele nasce

e toda a tragédia
e todo o sofrimento
e toda a dor
são súbditos do amor


e nos remoinhos do café mexido há açúcar doce
e, fosse como fosse,
nem as canetas deixam de o ser quando deixam de escrever
nem as folhas se tornam quadros por nelas desenhar
mas eu deixaria de o ser
se parasse de te amar

.

22.12.17

12/04/2011

Quero sentar-me numa cerveja,
beber uma esplanada de penalti
e ver o sol passar de mini-saia,
banhado pelos raios das rapariguinhas.

Quero uma grade de férias
e beber uma semana de cervejas
todos os dias.

Quero não fazer sentido
e não ter de o fazer,
quero deitar-me num palheiro
e fingir-me agulha,
esperando que alguem se pique em mim.

Quero uma dor permanente
que me afogue a mágoa de ser feliz
e quero uma doença estranha
apanhada numa chavena de café
para poder ser inválido
e não ter de trabalhar.

Quero ser uma caneta,
nas mãos de uma poetisa,
nos dedos de uma poetisa,
entre as pernas de uma poetisa.

Quero mergulhar na areia e nadar
até chegar à àgua onde caminharei
rumo à infinitésimal probabilidade
de estar feliz.

Quero um coelho
que me estufe e ponha no forno,
me corte umas fatias
e saboreie com arroz branco.

Quero ser uma carruagem,
a central,
de um qualquer expresso do ocidente
(que o oriente está gasto).

Quero ser a unica vaca do prado
e mastigar toda a relva
com a raiva de quem é único.

Quero ser cavalo e cobrir èguas,
quero ser cão e foder as primas,
quero ser lagarto e pôr ovos.

Quero ser dor no pescoço de alguem

20.12.17

numa noite de tempestade

a preta caminhava na cidade vazia
muito depois de morto o dia
e entre passadas rezava a um qualquer deus
que a quisesse ouvir

protege-me
tu dos muitos nomes
deusa, deus, deuses
ouçam minhas preces
protege-me

a tempestade berrava no céu
e a preta tremia
de frio ou medo não sabia
enquanto dizia

protege-me
tu de onde veio o mundo
tu onde ele irá acabar
protege-me

a noite estava deserta
só eu passava junto a ela
e a vi, velha e já não bela
se alguma vez o fora
e a ouvi:

protege-me
Deus do céu
Deus do chão
Deus do homem
Deus do cão,
protege-me!

vento e trovões
escondiam-lhe a voz gasta
mas debaixo da natureza
ela rezava com delicadeza:

protege-me
deus chacal,
deus animal,
deus humano,
deus ufano,
protege-me!

nunca mais a vi,
à velha preta que rezava
naquela rua onde ela passava
mas juro que já ouvi
em noites frias de tempestade
uma voz com alguma idade
que reza aos deuses
em surdina

15.12.17

muro


musgo cresce no muro e o céu está escuro
 lama na estrada e, aqui tudo vale nada
estamos perto de estar longe
e à distância
tudo parece que padece do que merece
mas
(e há sempre um mas na percepção)
nada do que se encontra
quando os deuses se afronta
é real ou normal 
como a aurora boreal 
brilha numa trip de ácidos
e afoga, afaga aflama a cama
ama!
nada mais te servirá de razão
nem casa nem carro nem televisão
nem sexo com a tua mão
nem dormir sob as estrelas no chão
só amar
eternamente amar
constantemente, amar
por isso, filha da minha imaginação
AMA
arrasta alguém para a tua cama
  deita-o em cima do colchão
beija e geme
treme
abre o coração
liberta as amarras
somos feitos de amor
e parecemos sempre escolher viver na dor

o muro irá cair, o musgo irá crescer
e os deuses vão se rir ao ver
quão frágil é o querer
de alguém que têm de morrer

por isso ama,
que é imortal o amor
e efémera a dor