26.2.18

Abecedário III

Absurdo sou-me, absoluto o abraço do antes
Barreira que brincando ergui em blocos e
Colapso-me contorcido em constante cronofagia
Devorando minutos como um deus pré-diluvial
Estendo-me, esticando este estremecer em éter
Falharei uma vez mais, fácil é fazer e não ficar
Grande é quem não gosta e goza do prazer
Hipócrita, hipopótamo do pensar histórico
Infeliz. Informe. Ignorante do que conheço e desejo,
Jaz a meus pés o jantar das musas famintas
Lá, onde larguei um dia o lastro emocional
Mutilado e amarrotado num chão sujo
Nasci.
Ontem foi o dia em que morri,
Penso todas as madrugadas pesadas
Querendo apenas querer algo que queira
Resigno-me a regrugitar raparigas,
Sem sequer lhes decorar o nome,
Tentando fingir que tenho capacidade em mim,
Ultraje só pensar-lo! Para amar.
Vivo, nada mais posso fazer mas finjo-me
Xã da Pérsia e trepo ao topo de um
Zigurate para dele me atirar.

Abraço a queda,
Braços esticados tentando agarrar o ar,
Cair é tudo o que me resta,
Depois do que fui, nada sou
E!
Fútil, fraco, faço o som de uma
Gadanha a comer o trigo,
Hoje serei mancha no chão,
Infectando o branco da calçada com o sangue,
Jade vermelho que escorre sem parar,
Lavando o passeio do pecado,
Manchando o trabalho do calceteiro
Nesta minha néscia, ignóbil, tentativa de me
Olvidar, ocultar de tudo,
Perecer e perder-me da luz diurna
Que me arde nos olhos,
Rasgando a minha alma,
Sugando de mim
Tudo quanto sou, tudo o que serei,
Uma pausa, peço
Vêm até mim, paz eterna,
Xuta-me nos tomates até eu desmaiar e este
Zumbir se calar!

Acordo.
Beleza adormecida a meu lado,
Cadela a meus pés,
Dia nascente lá fora,
Estrelas ainda no céu,
Fogo entre as suas pernas,
Ganza meio fumada junto ao cinzeiro,
Hercúlea tesão no meu caralho,
Imbecil sorriso em meus lábios,
Já se apaga em mim o pesadelo,
Largo as sombras que me enchem,
Mexo, levemente, na quente cona dela
Não a acordo ainda,
Orgulhoso, opulento
Pulo para cima do corpo adormecido,
Quero que ela gema, se venha,
Rasgo-lhe a roupa interior,
Sem dó, sem piedade,
Todo eu, erecto, entro nela,
Uiva, digo-lhe como um bom dia,
Vêm-te, ordeno-lhe senhoril,
Xilofonando-lhe as mamas com a boca,
Zeloso guardião de seu prazer

Adormeço, meu corpo sobre o seu,
Banhados pela esporra quente,
Como cães com o cio,
Deixo que o hoje se esfume,
Esqueço até que fodi,
Finalmente em paz,
Gozo o descanso vendo-me
Herói do sexo,
Imperador do prazer,
Justiceiro das conas secas,
Lugar-tentente no exército,
Maldito e mal amado exército do foder,
Número um, campeão do orgasmo,
Original dono da
Pila perfeita
Que deuses cobiçam!
Relés rebarbado, ralé e escumalha!
Sintoma e sinal de degradação moral!
Tarado!
Última prova do aproximar do Apocalipse!
Xaile conspurcado na cabeça da liberdade!
Zero à esquerda da moralidade...

Abandono o ego,
Baixo a bolinha,
Conto os meus pecados:
Demasiados!
Esvazio-me de soberba,
Faço-me pequeno de novo,
Gastei toda a altivez que tive,
Hedonista me confesso e,
Ingrato,
Já esquecido o prazer,
Lanço-me em gritos:
MULHER DEMONÍACA!
NINFA SATÂNICA!
Obscurecido pela raiva,
Pulo para fora da cama,
Qual vespa num ninho em chamas,
Rumo à banheira,
Sujo do pecado,
Tentarei esfregar-me dele,
Uma
Vez, mais, sem sucesso...

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