18.1.18

intervallum intramore



On 17 Jan 2018 16:33, "J.G." wrote:
aqui onde as horas intermináveis copulam até parirem um dia sem fim
e as cores há muito se quedaram mudas de tanta indiferença 
é a ânsia da ganancia de querer ser mais que o universo 
plenipotenciário de todo um planetário e brincar com as estrelas,
torniquete emocional pai e gestante da criação do meu mal

todos morremos esmagados pelo peso dos nossos sonhos

aqui onde as horas não existem e os minutos se eternizaram em ambar
tudo repousa no éter sujo em imóvel suspensão até o ponteiro andar
e os heliocêntricos silencios do nada a existir é tudo quanto grita 
e nisso os tímpanos ressentem-se do lento matraquear dos ponteiros 
e explodem liquefazendo-se os astros em poeira sónica 

todos morremos esmagados pelo peso do que sonhamos

aqui onde as oscilações do pendular relógio não respeitam a maré
e às teclas gastas do velho órgão não se conseguem arrancar notas 
mas a agulha dança e balança sobre o quadriculado do sismógrafo 
simulando silabas serpenteantes, sibilantes sibilas profetizando o fim
vítreos vitrais de ferrugem e aziagas premonições que deles surgem

todos morremos esmagados pelo peso dos sonhos carregados

aqui onde as horas são salpicadas de pimenta amarga e doce
e os minutos temperados de sal e regados de lágrimas ocultas 
os intervalos cascateiam sobre lagos de cigarros desembainhados
e das cinzas da inquietação florescem homúnculos beatificados 
fora do centro maquinal da normalidade como cordas esticadas 

todos morremos esmagados pelo peso daquilo em que sonhamosl
aqui onde a abóbada gótica do tempo nunca atinge o seu zénite
e as horas se desmoronam como ruínas de um templo pagão
tornando-se areia de ampulheta suspensa no interlúdio de tudo
confesso-me heresiarca e cometo o sagrado sacrilégio de duvidar
sacrificando no altar pardacento do momento a paz do sentimento

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