24.11.17

Chuva Recta

As flores são feias 
e as árvores estão mortas
e os passeios cheios de merda
os prédios caiem de podres 
e os sem abrigo enchem as entradas
no céu as nuvens tapam o sol que já fugiu 
e chove, chove tanto, chove sem parar,
transbordando sarjetas
e trazendo para a superfície
todo o esgoto que corre nelas
carros voam estrada fora,
sem respeitar sinais ou passadeiras, 
indiferentes ao frio que eu sinto.
Não há sol e a lua é fria
a noite hoje é opressiva 
e não me acolhe em seus braços,
o mundo hoje é frio
e não me quer nele.

As árvores estão mortas de troncos secos
e neles cravados a navalha
amores tão mortos como a madeira podre
as flores não passam de ervas daninhas,
porque hoje as palavras não são minhas,
as paredes estão sujas de tinta
mas as cores não brilham,
as janelas partidas não me aprecem belas
,apenas mortas.

Os passeios estão cheios de merda,
que transborda dos esgotos 
e o cheiro dela é tudo o que sinto como real,
escorrego no lodo da civilização
e deixo-me cair no chão :
de que me serve levantar
se não consigo cantar?

Os prédios caiem de podres 
e sinto-me a cair também,
nada é solido hoje,
o chão treme a cada passo
e as fundações estão velhas
cansadas de tantos anos a aguentar
esta fachada

Os sem abrigo enchem as entradas
e penso em deitar-me junto a eles
ser mais um que perdeu o mundo
e desistiu de viver sem decidir morrer

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