e sinto as minhas pernas tão pesadas
,e as minhas esperanças tão cansadas
,e o meu sorriso foi abandonado à sua sorte
vagueia algures procurando-se por uma morte
,mergulhada em fogo infernal que está
(aonde quer que seja que ela hoje vá)
a razão do seu existir reincidente
na tromba otárió-contente do poeta desistente.
dói no corpo o que não deixo doer no coração,
dói nas costas, nos olhos, nos pés e na mão
(onde te seguro ainda, qual borboleta esguia,
que me sorria de noite mas fugia de dia)
podia, poderia, poderá
(quem sabe o que amanhã será?)
mas afogo-o em mim,
aceito-lhe o fim,
sorverei do seu falecer
tudo o que puder beber
e escreverei obituários obtusos
obtenebrosas prosas
e salgadas lágrimas apalavradas, irreais,
mortais.
se aplaino o terreno e faço dele liso e pleno
se me canto em paz e sereno duma mangedora comendo feno
se não serei arquitecto de casas alveolares
átrio-ventriculares de osmoses frutoses em grandes doses
se não terás uma mansão
terás um mausoléu com o teu caixão
deixarei lá flores todo o santo dia
uma flor, um verso, uma poesia,
cada pétala uma palavra carregada de sentido
e
tremido,
combalido,
pelas chamas frias consumido,
em seu fundo inexistente âmago ferido,
(não será pai nem marido!
apenas uma sombra da felicidade
que perdemos com a idade)
Estão cansadas minhas pernas e pesadas minhas penas
como idosas sarracenas que chupam alegres açucenas
fingindo ser ópio adormecedor o ódio aterrador da dor
Calejado, a mão ainda segura o cajado,
com o coração e espírito bem arejado,
(a janela ficou aberta para voares
voltares, mudares de ares)
profano e ufano
pano sujo urbano
cor desaparecida
dum espectáculo cosmicida
(limpas o sémen seco de alguém
que ficou de um dia aquém
em mim
que sou fim do mundo e da civilização
[ah! vem ver as ruínas pela minha mão!]
que sou o alpha mas não o omêga
que sou pior que puta, sou pêga!
que sou o nascer de todos os dias
e o morrer de todos os sois
que sou TODAS as conas frias
TODOS os caralhos que sabem a rissóis
que sou luz e sombra
que dou luz e sombra
que reluz da sua tromba!)
sem filos e sem sófia,
sem fonética,
fonologia,
morfologia,
sintaxe ou semântica
só com o saber ter que perder
para ser
na lexicologia não existe tecnologia só mesmo a poesia
ainda lá está no fim do dia.
não existe sensatez
( não atravessaremos o canal do Suez )
não há lugares onde ficar
não há camas onde dormir
não há nada para amar
só um sitio para me vir
nos meus nada académicos escritos de escatologia
canto as putas do pós-apocalipse romântico
e sonho com ver o céu cair
e a terra a abrir
e o inferno a subir
e as chamas a trepar trepar trepar sem parar
para me consumir
e deixar
onde quero estar
(no calor do inferno,
no frio do inverno,
no toque da tua mão,
na voz da tua canção,
no sorrir dos teus dentes
quando me mentes
e dizes
que consegues viver sem me ter)
[uma pausa para fumar
e enganar
e fingir que não sinto
ai! que tão bem que minto]
e no dia em que me podias ter
em que te podia ter
decidiste melhor morrer
que parar de ser
e já não podemos foder
e eu não ...
um sorriso
é tudo o o que preciso
digo a mentir descaradamente,
se te tiver será completamente!
Ai, que te ia matar e acabo a cantar
de novo
o ovo
que não quisemos fritar
que não metemos a salgar
que não temos como saborear
que queijo quer acompanhar.
Mulher!
quero-te enterrar,
sabes onde me encontrar,
se volto a olhar o teu olhar
e a mergulhar
assim que me quiseres nadar
e dessa vez (hipotética) nada nos poderá parar
(hipótese patética)
(hipnose partenogenética)
hipódromos de correr e não voltar
hipopótamos cinzentos
e patrões avarentos
e sonhos a acabar
e camas a arder
e sons de gente a gemer
e as tábuas de suporte a quebrar
e eu
e tu
e nós a GRITAR
e eu a sonhar,
só eu a sonhar,
eu sozinho a sonhar o universo
e o teu nome em cada verso
e o meu nome em cada linha
e o nosso nome,
que não chegamos a ter
que nunca vai nascer
que vi a morrer
nas tuas mãos cruéis (correríamos todos os bordeis)
quentes, suaves, abençoadas
de pecado lavadas
ai, desenha-me estradas
e leva-me por elas de mãos dadas
e cai por fim (sem teres medo)
em mim (sei que é cedo)
(eu vou cá estar
se quiseres voltar
e no pretérito perfeito do futuro
mergulhar)
Escrevo-te uma campa que funcione como uma tampa
para afundar
e afogar
e matar
e calar! esta voz que me diz
"em mim serias feliz
mas não quero prender meu sorrir
não quero prender meu me vir
não quero amarrar-me a ti
e soltar o futuro que ainda não vi"
Enterro-te fundo em mim
e acredito finalmente no fim
mas quando teus olhos sorrirem nos meus
"AI!" bradarei aos céus
e responderei, mentirei, aldrabar-te-ei:
"sim, estou sempre bem"
(mente-me tu também,
que viver é absurdo
e, contudo
...)
censuro-me e volto-me atrás e escrevo-me de novo,
(sou poeta de nenhum povo)
não é este um hino gloriosos
mas uma eulogia ao que não chegou a ser um dia
um cemitério onde te desci à terra e ao pó
onde te vi desaparecer e me vi ficar só
um carro fúnebre a abrir estrada fora
que há muito passa da hora
de me
de te
de nos acabar
e tudo enterrar.
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