29.10.17

FUNERAL

e sinto as minhas pernas tão pesadas
,e as minhas esperanças tão cansadas

,e o meu sorriso foi abandonado à sua sorte
vagueia algures procurando-se por uma morte

,mergulhada em fogo infernal que está
(aonde quer que seja que ela hoje vá)
a razão do seu existir reincidente
na tromba otárió-contente do poeta desistente.

dói no corpo o que não deixo doer no coração,
dói nas costas, nos olhos, nos pés e na mão
(onde te seguro ainda, qual borboleta esguia,
 que me sorria de noite mas fugia de dia)

 podia, poderia, poderá
(quem sabe o que amanhã será?)
 mas afogo-o em mim,
   aceito-lhe o fim,
 sorverei do seu falecer
  tudo o que puder beber
 e escreverei obituários obtusos
              obtenebrosas prosas 
 e salgadas lágrimas apalavradas, irreais,
                                  mortais.

 se aplaino o terreno e faço dele liso e pleno
 se me canto em paz e sereno duma mangedora comendo feno
 se não serei arquitecto de casas alveolares
 átrio-ventriculares de osmoses frutoses em grandes doses
 se não terás uma mansão
 terás um mausoléu com o teu caixão
 deixarei lá flores todo o santo dia
 uma flor, um verso, uma poesia,
 cada pétala uma palavra carregada de sentido
 e 
 tremido, 
 combalido, 
 pelas chamas frias consumido,
 em seu fundo inexistente âmago ferido,
 (não será pai nem marido!
  apenas uma sombra da felicidade
  que perdemos com a idade)

 Estão cansadas minhas pernas e pesadas minhas penas
 como idosas sarracenas que chupam alegres açucenas  
 fingindo ser ópio adormecedor o ódio aterrador da dor

 Calejado, a mão ainda segura o cajado, 
 com o coração e espírito bem arejado,
 (a janela ficou aberta para voares 
                   voltares, mudares de ares)
  profano e ufano 
  pano sujo urbano
  cor desaparecida
  dum espectáculo cosmicida 
  (limpas o sémen seco de alguém
   que ficou de um dia aquém 
   em mim
   que sou fim do mundo e da civilização 
     [ah! vem ver as ruínas pela minha mão!]
   que sou o alpha mas não o omêga
   que sou pior que puta, sou pêga! 
   que sou o nascer de todos os dias
         e o morrer de todos os sois
   que sou TODAS as conas frias
           TODOS os caralhos que sabem a rissóis
   que sou luz e sombra
   que dou luz e sombra
   que reluz da sua tromba!)

sem filos e sem sófia,
sem fonética, 
    fonologia,
    morfologia,
    sintaxe ou semântica
só com o saber ter que perder
                   para   ser

na lexicologia não existe tecnologia só mesmo a poesia
 ainda lá está no fim do dia.
               não existe sensatez
             ( não atravessaremos o canal do Suez )
               não há lugares onde ficar
               não há camas onde dormir
               não há nada para amar
                   só um sitio para me vir

 nos meus nada académicos escritos de escatologia 
 canto as putas do pós-apocalipse romântico
 e sonho com ver o céu cair
 e a terra a abrir
 e o inferno a subir
 e as chamas a trepar trepar trepar sem parar
 para me consumir
 e deixar
 onde quero estar
 (no calor do inferno,
  no frio  do inverno,
  no toque da tua mão,
  na voz da tua canção,
  no sorrir dos teus dentes
  quando me mentes
  e dizes
  que consegues viver sem me ter)

[uma pausa para fumar 
              e enganar 
              e fingir que não sinto
           ai! que tão bem que minto]

e no dia em que me podias ter
         em que te podia  ter
      decidiste melhor morrer
             que parar de ser
       e já não podemos foder
       e eu não ...

 um sorriso 
 é tudo o o que preciso
 digo a mentir descaradamente,
 se te tiver será completamente! 

 Ai, que te ia matar e acabo a cantar
     de novo
       o ovo
         que não quisemos fritar
         que não metemos a salgar
         que não temos como saborear
         que queijo quer acompanhar.

 Mulher!
 quero-te enterrar,
 sabes onde me encontrar,
 se volto a olhar o teu olhar
 e a mergulhar
 assim que me quiseres nadar
 e dessa vez (hipotética) nada nos poderá parar
             (hipótese patética)
             (hipnose  partenogenética)
              hipódromos de correr e não voltar
              hipopótamos cinzentos
              e patrões avarentos
              e sonhos a acabar
              e camas a arder
              e sons de gente a gemer
              e as tábuas de suporte a quebrar
              e eu
              e tu
              e nós a GRITAR
              e eu a sonhar,
                só eu a sonhar,
                   eu sozinho a sonhar o universo
                    e o teu nome em cada verso
                    e o meu nome em cada linha
                    e o nosso nome,
                  que não chegamos a ter
                  que nunca vai nascer
                  que vi a morrer
              nas tuas mãos cruéis (correríamos todos os bordeis) 
       quentes, suaves, abençoadas 
                 de pecado lavadas
           ai, desenha-me estradas
  e leva-me por elas de mãos dadas
  e cai por fim (sem teres medo)
         em mim (sei que é cedo)
                (eu vou cá estar
                 se quiseres voltar
                 e no pretérito perfeito do futuro 
                                             mergulhar)

 Escrevo-te uma campa que funcione como uma tampa
 para afundar 
     e afogar 
      e matar 
      e calar! esta voz que me diz
                "em mim serias feliz
                 mas não quero prender meu sorrir
                     não quero prender meu me vir
                     não quero amarrar-me a ti
            e soltar o futuro que ainda não vi"

 Enterro-te fundo em mim
 e acredito finalmente no fim
 mas quando teus olhos sorrirem nos meus
 "AI!" bradarei aos céus 
 e responderei, mentirei, aldrabar-te-ei: 
 "sim, estou sempre bem" 
 (mente-me tu também,
  que viver é absurdo
  e, contudo
  ...)

censuro-me e volto-me atrás e escrevo-me de novo,
                       (sou poeta de nenhum povo)
não é este um hino gloriosos 
mas uma eulogia ao que não chegou a ser um dia
    um cemitério onde te desci à terra e ao pó
       onde te vi desaparecer e me vi ficar só
    um carro fúnebre a abrir estrada fora
               que há muito passa da hora
                de me 
                de te 
                de nos acabar
                       e tudo enterrar.

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