20.12.17

numa noite de tempestade

a preta caminhava na cidade vazia
muito depois de morto o dia
e entre passadas rezava a um qualquer deus
que a quisesse ouvir

protege-me
tu dos muitos nomes
deusa, deus, deuses
ouçam minhas preces
protege-me

a tempestade berrava no céu
e a preta tremia
de frio ou medo não sabia
enquanto dizia

protege-me
tu de onde veio o mundo
tu onde ele irá acabar
protege-me

a noite estava deserta
só eu passava junto a ela
e a vi, velha e já não bela
se alguma vez o fora
e a ouvi:

protege-me
Deus do céu
Deus do chão
Deus do homem
Deus do cão,
protege-me!

vento e trovões
escondiam-lhe a voz gasta
mas debaixo da natureza
ela rezava com delicadeza:

protege-me
deus chacal,
deus animal,
deus humano,
deus ufano,
protege-me!

nunca mais a vi,
à velha preta que rezava
naquela rua onde ela passava
mas juro que já ouvi
em noites frias de tempestade
uma voz com alguma idade
que reza aos deuses
em surdina

No comments: