e cospe um simulacro de presente
que é apenas a ausência de futuro
o vazio das horas é o silêncio do tempo
um templo negro consagrado à alma cansada
dessacrado pela memória solarenga
do verde gasto das árvores à beira da estrada
do balir velho das ovelhas pastantes
da garrafa vazia ao fim do dia
o cinzento do céu invade a cúpula aberta
nevoeiro de medo impregnado
que enche este vazio a meu lado
toma formas demoníacas, feiticeira
remove de mim a maldição de ser teu!
esquecidos os nomes que adornam
as pedras tumulares a que chamo chão
dedico mais um altar as noites negras
e cânticos em voz pagã se erguem
gritando por deuses há muito perdidos
repito rituais, interpreto sinais
víscerómante me visto e vejo
procurando no fundo de mim
um Omega para o meu Alfa,
o zénite do meu nadir.
astrolábio partido azimute perdido
sem rumo, sem sentido
deixo a corrente do mar para me levar
através do horizonte de areia e ruína
até um qualquer paraíso que possa existir.
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