onde só durmo eu
de um quarto sem mobília sem alma
onde só durmo eu
de uma casa que foi nossa um dia
onde durmo só eu
começa com as gatas a correr
em corredores mortos
com livros empilhados e atirados
em corredores mortos
com tapetes enrrodilhados amarrotados
em corredores mortos
começa na folha em branco de um caderno
e tudo o que lá escrevo é incompleto
no mail vazio que tenho sempre aberto
e tudo o que lá escrevo é incompleto
nas efémeras milhentas mensagens
e tudo o que lá escrevo é incompleto
começa na tua pele nua,
tão longe de mim
nos teus cabelos esquizofrenia roxo-cinza
tão longe de mim
nos teus beijos de boca pequena e alma grande
tão longe de mim
começa num túmulo altar santuário perdido
que só o tempo esqueceu
nas preces orações rezas cânticos e litanias
que só o tempo esqueceu
nos rituais ritos celebrações eucaristia de amor
que só o tempo esqueceu
começa nas pedras que se ficam à beira da estrada
ganhando pó apenas
nas ruínas de fábricas abandonadas
ganhando pó apenas
nas sombras por detrás das árvores
ganhando pó apenas
começa antes do tempo começar
e não acaba nunca
começa nas tuas palavras doces
e não acaba nunca
começa no toque do teu sorrir
e não acaba
nunca.
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