a minha próxima namorada
será contabilista ou algo igualmente aborrecido
será feia,
uma daquelas caras que só o amor
(ou o álcool em doses massivas)
pode achar bela.
será normal,
completamente normal e banal,
não terá escrito mais nada depois da faculdade,
nunca terá estado numa banda,
nem feito filmes, artes.
ela nunca me compreenderá,
mas amará o mistério do que penso,
como uma criança ama fogos de artifício.
ela nunca me fará companhia à alma,
só ao corpo
e senti-la quente junto a mim será sempre
traição
à felicidade que poderia haver para mim
será um bocado idiota,
não perceberá a poesia que deixarei de escrever,
não conhecerá a cor dos meus sonhos
nem o sabor do meu pensar,
nunca terá lido clássicos,
ou literatura que não técnica.
não será amante de música
e a nossa casa estará sempre no silêncio
da televisão ligada numa novela qualquer
nada perceberá de transistores e computadores
nem precisará de o saber,
bastar-lhe-a cozinhar para mim,
massajar-me os ombros,
ajoelhar em frente a mim e esconder a cara feia
na minha virilha
não serei feliz nela,
mas ela nunca me deixará
e sentir o amor que ela me dará
sem que eu lho dê de volta
chegará.
Nunca sorrirei de verdade junto a ela
mas nunca me fará derramar lágrimas
de manhã.
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