vivo-te como se já me definhasse o cancro
cada toque da tua mão é extrema-unção
cada prega do teu vestido mortalha
cada até depois
campa e pedra tumular.
E de cada vez que o teu sorriso me foge
sinto a campa a ficar mais funda
o caixão mais apertado
o ar rarefeito
a terra..
a terra a cair sobre os olhos
as pálpebras quebradas com o peso de lágrimas
os ossos já cinza cá dentro
sinto-me empalhado de ti
e transbordo-te,
palha
tudo me sabe a palha
a seco a sujo a frio a merda
a um carreiro de bosta de ovelha
que sobe por entre os penedos
até ao topo da serra
até aonde os deuses se sentam
rindo-se de mim.
pagliacci sono i me rido
pagliacci sono i me piango
lágrimas carregadas de base atingem-me o peito
escrevendo sulcos na pele
queimando (como arde a pureza da tristeza
contra a minha carne de pecado)
um par de tiras de paraíso - escrevi-
-te um dia - rodeiam o teu sorriso e
tudo o que eu preciso é ouvir-te o riso
e perco-me de todo o meu siso.
Ai! quem dera ser não poeta
e não conhecer e amar tão bem esta senhora de preto
que tantos nomes em si carrega
mas nenhum nome seu tem.
Ai! Quem me dera não ser poeta
conseguir beber e esquecer sem ter de escrever...
deixo-me devorar pela melancolia
nostalgia de um futuro que nunca foi
sonho..
..o sol nasce sobre uma praia que é nossa
e vemos as gaivotas pousando à beira da agua
e nas árvores que rodeiam o alpendre
cantam passarinhos fofinhos aos raiozinhos de sol
e todas essas merdas alegres
que acabam
quando os olhos se abrem para a parede branca
vazia
fria, a cama está fria
ainda cheiro o teu whisky nos lençóis
e não toco a almofada,
quero-a marcada com o teu pescoço
lembrança marca pedra quem sabe se nera ou alva
está pontilhado de pausas o tempo
existe e de-existe e existe e de-existe
e insiste em parar e recomeçar
mas nesse espaço em branco entre tempos
a minha cara lembra-se do formato do meu sorriso
e do tamanho dos meus dentes
e de como os olhos se semicerram levemente
e de como a testa se enche de rugas
e da profundidade do sulco das minhas covinhas
o meu corpo recorda-se de toda a sua extensão
e do bater do sangue que corre pelos vasos
e do sabor da electricidade a percorrer os músculos
e as pontas dos dedos tornam-se portais
para dimensões sensoriais sensuais sexuais
e tudo dentro de mim arde em quase fúria de vontade
e tudo dentro de mim corre rumo ao clímax explosivo
mas
o tempo volta e re-existe e esqueço
sorriso; corpo; fúria.
o magma arrefece, solidifica, volta a ser pedra murcha
as horas correm de novo sem rumo sentido ao que virá
e eu desligo tudo e devoro-me de tristeza até secar
e ficar a contar o passar regular dos segundos
até que o tempo volte a parar
e recomeçar. E contar e parar e recomeçar
e
um dia, o tempo vai parar para sempre e vou-me esquecer
do som dos ponteiros do relógio a andar.
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