devoro-me
consumo o meu ser com a esperança
que fraca e franca (e vêm da França!)
alitero altivamente alma alminha
calma calminha
desvio-me e fujo
por um corredor de semantica
corto na porta léxica
e mergulho fundo na ortografia
fobia, corria da poesia
e ao fim de qualquer dia
já que não sorria, bebia.
(e depois as palavras passam por mim
e tocam cá dentro onde uma pedra negra marca o fim
e sinto que me esfumo
que me desfaço nas lágrimas
que me afogo em sentir
em fugir)
volto aos corredores escuros, duros
procuro furos onde enfiar este sonhar
e lá o deixar a fermentar até o dia acabar
o tecto desabar e enterrar em terra tépida
o carvão do meu coração carbonizado
até que este seja diamante
para o usar no dedo, cintilante
ventilante, acutilante, cicatrizante
atordoante,
anestesiante amenizante pulsante pustula
a ponto de rebentar
e encher todo o ar
com o som da minha voz a chorar
derramar
derrapar em verbos
que quero querer proibir-me de dizer
proibir-me de pensar
proibir-me de sentir.
Escrevo e devoro-me,
consumo o que sinto e quero sentir
e quero não sentir
e no fim, bulimicamente,
vomito-me todo em palavras que nem para mim sentido fazem.
quadros desenhados a letras
onde escondo o pôr do sol
atrás das árvores que pintei no carreiro
e sou sempre o primeiro
e o ultimo a chegar
nas paisagens que desenho
não te consigo pintar por não saber a cor da felicidade
devoro-me
alimento-me deste vazio
que fica tão menos frio
quando te sonho a sorrir.
amor!
estupor, terror, dor, um último tremor
de calor
antes do sol se pôr.
navego entre palavras,
só a elas as tenho (e são frias, vazias,
as cabras esguias)
e só nelas vivo
e só nelas sou,
marinheiro de águas doces
encalho-me sempre quando tento aportar
onde queria amar.
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