gosto daquilo que sobra,
do lixo no fim de uma obra,
das ruínas de cidades perdidas,
das pedras pelo chão caídas
do esqueleto dos prédios velhos
da cor das folhas mortas no chão,
dos maços amarrotados e atirados a um canteiro
de flores secas.
gosto da putrefação da civilização,
de lhe ver as entranhas,
observar as vísceras,
espreitar ao fundo o seu inerte coração.
gosto da sombra dos arranha-céus caídos
e do cinzento gasto das torres medievais
de grafitti escatológico nas paredes
quebradas
gosto do som da estática que foge dos rádios
em quem não morreu ainda a pilha.
gosto do cheiro da terra queimada ao longe
dos fumos de petróleo e gasolina no ar
e de todas estas coisas cantar.
poeta de um apocalipse atrasado,
posso estar velho,
posso estar cansado,
posso estar só ou ter-te a meu lado,
mas a ruína de tudo
nunca me deixará abandonado
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