13.10.17

sou, e isso chega.

sou,
poeta quando erro,
profeta quando acerto,
doído em qualquer caso!

sou,
e apenas por isso mereço
e apenas por isso
um dia direi
"ai, que eu faleço!"

sou,
um risco no meio de um Pollock,
um cubo em Picasso,
um borrão amarelo
numa paisagem de Van Gogh,
um anjo mais
no tecto da Sistina,
uma gargula ou outra
em Notre Dame,
uma vírgula em Saramago,
um moinho em Cervantes,
um pecado no do Dante,
um adjetivo em Eça,
um robô em Asimov,
um elfo na terra Média.

sou,
uma peça insignificante,
um peão preto
num jogo que ganharam as brancas,
uma das fichas de uma aposta perdida,
o dois de paus
numa sueca,
um rei solitário numa mão de poker.

sou,
a folha em branco no fim do livro,
entre índice e texto,
(sou apenas um pretexto
 para acreditar que existo),
a chávena vazia de um café,
um centro-comercial
a caminho do abandono,
o estádio no dia a seguir ao jogo,
a primeira banda de um festival
a tocar para um público, atrasado,
que ainda não chegou.

sou,
a folga entre o sapato e a sola
e o buraco que nela assola.

sou,
o filtro do cigarro,
depois de fumado,
as cinzas que caíram ao chão
, fugindo do cinzeiro.

sou,
escadas que levam a lado nenhum,
estradas cortadas
e entradas bloqueadas
e portas que nunca abriram.

sou,
a linha em branco entre dois versos
maus

sou,
o pneu traseiro duma casal boss,
o banco rasgado duma scooter velha,
a garrafa de água choca
que esqueceram aos pés do lugar do pendura.

sou,
a erva daninha
e as larvas que dela se alimentam.

sou,
o apeadeiro onde já não param os comboios,
a paragem do autocarro
fora das horas de serviço,
uma bomba de gasolina seca,
a cabine de uma portagem que já não se paga,
uma aldeia soterrada por uma avalanche.

sou,
uma lata de cogumelos às fatias,
fora de prazo, no fundo do armário,
um pacote de açúcar numa casa de diabéticos,
um bife para um vegetariano,
uma cerveja para quem já não bebe.

sou,
um computador que não funciona,
um telefone para onde ninguém telefona,
uma máquina de fax perdida num gabinete vazio,
o ar condicionado num dia frio,
um comando de pilhas gastas,
um modem que não liga à net.

sou,
um advérbio de modo
numa musica pop,
uma alegoria profunda
num romance erótico,
um prólogo inteligente
numa lista telefónica,
o índice
num livro em branco.

sou,
eu.

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