17.10.17
então.. ainda sou poeta, é?
e se descer as portas de santo antão
de gabardine e chapéu à chuva
não faz de mim poeta, que fará então?
e se virar para a rua dos Fanqueiros
a fumar um cigarro enrolado à chuva
não faz de nós de todos os poetas herdeiros
e se beber uma cerveja numa taverna
enquanto escrevemos no telefone
não faz de nós poetas no fundo da caverna
e se me sentar a um canto bebendo só
fingindo-me triste quando estou feliz
não faz de mim um caralho de um poeta,
fará de mim uma puta de um profeta?
tenham dó!
ser poeta não é nada como a outra diz,
é quando sofro e me rebaixo
que mais poeta sou!
é quando me recuso a dar, sendo Rei!
que mais tenho para dar
é quando sou mais reles que um cão
que mais soltas as palavras me estão!
é na RAIVA!
que transpira
a poesia!
é no ÓDIO!
que nasce
a poesia.
é no fingir
que ela se forma
que acorda
que salta pelas mãos,
caneta abaixo,
caderno adentro
(pelos dedos,
acariciando ecrãs
pixel a pixel)
é...
é..
é.
se escrever poemas,
em papel,
telemóvel,
computador,
pele ou amor,
não faz de mim poeta,
o que fará então?
é na voz do coração,
zangado,
traído,
apaixonado
que se é poeta, então?
é nos sorrisos
é nos olhares /* roubados ao existir
de cada um
de nós */
é no nono risco
dos oito do infinito
é nas palavras que não são pronunciadas,
enunciadas, verbalizadas, representadas
(assassinadas,
esquartejadas,
esventradas,
vilipendiadas,
violadas até!)
mas estão!
é no toque da tua mão,
é no sabor dos teus lábios,
é na música da tua voz,
é nos ais e suspiros,
nos respirares
e gritares
e cantares
e, até, apenas, falares
que sou poeta.
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