30.8.20

epílogo

 nasci no ponto final de uma frase
e toda a minha vida não fui mais do que isso:
o acabar de uma coisa antes do começar
de outra qualquer
sou, portanto, isso mesmo:
o acabar de todas as coisas
o término fulminante, explosivo
de algo
e nunca o começar,
nunca o nascer de um novo sol,
nunca a alvorada de um novo dia,
só o pôr do sol,
a recta final,
o último fôlego de alguma existência.

comecei onde as coisas findam,
naquele momento em que tudo
deixa de ser o que é
e procura uma nova razão
uma nova realidade onde ser

serei sempre apenas isso:
um ponto final nas orações de outros,
uma casa onde se vai morrer
antes da glória da ressurreição,
um beco sem saída
de onde tens de recuar para sair


nunca serei a alvorada a crescer
sobre os montes virgens
nem a semente de uma nova vida,
nunca terei em mim a seiva
do novo dia

sou um fim
um terminar
o último fôlego
de um respirar doente
a última palmeira
antes do deserto.

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