23.8.12

raison d'être

não encontro motivos,
 de novo,
não sei desejar coisas,
não sei ter vontades,
não sei sonhar.

existo apenas,
e os dias passam por mim
folhas sopradas pelo vento,
roçado-me a cara por vezes,
prendendo-se ao meu cabelo,
enfiando-se nos meus olhos,
mas sempre insignificantes.

porque devo continuar?

em mim não há nada que me faça estar,
nos outros não sinto desejo de me ver estar.

porque não parar por aqui,
dizer que já chega,
que me fartei de tudo,
que não quero mais sofrer para poder ser feliz um dia?

um dia,
mais tarde,
eventualmente,
um dia.

mas o dia não chega.
o dia não vai chegar.
os dias passam por mim sem me tocar,
e cada dia estou mais longe de quando fui feliz
e cada dia estou mais perto de quando for velho
e cada dia é sempre igual ao dia anterior,
mas um pouco mais pesado,
sempre mais pesado,
até que um dia,
não vou querer aguentar o peso nas minhas costas.

até que um dia,
não vou querer abrir os olhos para ver a chuva e o frio.

até que um dia,
não vou querer mexer-me para que outros tenham coisas
(que minha é apenas a dor,
 que minha é apenas a felicidade
  (está perdida, essa,
   não sei onde a deixei)
 que meus são apenas os cigarros que fumo
 para não ter tempo de pensar).

até que um dia,
os dias deixaram de passar e serei eternamente nada,
de verdade.


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