tenho estado congelado,
parado no tempo,
nada se passa,
nada existe,
nada muda.
tenho medo do dia em que o tempo recomeça a contar,
tenho medo do fim do mundo
que está a chegar.
cedo,
dizem-me as vozes na minha cabeça,
cedo,
irás deixar de ser livre,
irás deixar de ser feliz,
irás deixar de ter rumo,
cedo,
irás desaparecer,
apenas mais um fato escuro,
ninguém na imensidão da humanidade,
uma pinga à deriva,
seguindo todas as outras.
cedo,
o tempo acaba.
cedo,
o universo será não mais,
e eu,
tremendo,
encolhido a um canto,
chorando lágrimas de raiva e frustração.
cedo,
a minha espada irá quebrar,
o meu escudo lascar,
a minha armadura enferrujar,
e eu serei mais um apenas,
trabalhando de sol a sol,
minhas mãos velhas segurando uma enxada
e minha alma,
mais velha ainda,
chorando por se sentir só.
sou um trapo velho e amarrotado onde escrevi meus medos e tristezas,
e com ele limpo estas folhas de papel imaginário,
e nele derramo todas as lágrimas que meus olhos não sabem chorar.
sou um poço de desilusões,
minhas e de outros!,
e nelas nado contente em saber que nunca serei ninguém,
é tão mais fácil chorar o que nunca terei
do que procurar o que posso ter.
ainda hoje te sinto no pulsar das minhas veias,
apertando-me o coração e cortando-me a respiração :
não te sei falar, porque em cada palavra
tenho medo de te perder.
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