19.12.10

tenho saudades do passado que nunca foi. Procuro sempre manter em mim a memória do que poderia ter sido, do que poderá ainda ser um dia e do que nunca existiu. Sou menos do que a soma das partes, não sou o total dos meus desejos e ambições, mas sim uma concha que acolhe em si todas as coisas que queria ser. Deixei de querer ser para poder ter querido e ainda o saber. Deixei a vontade para trás, esqueci-a abandonada a um canto e agora sou nada. Sou algo, sou alguém, sou alguma coisa que existe porque já existia antes de se aperceber e porque daria demasiado trabalho deixar de ser. Existo, porque aqui estou e porque escrevo. Penso porque sei como escrever, porque sei como dizer o que me passa pela cabeça. O passar-me algo pela cabeça de todo, implica que existo, mas o que implicaria estar vivo? Será viver apenas respirar, comer, andar, falar? Não será o sonho necessário à vida? Podemos estar vivos se não temos sonhos? Ou seremos apenas máquinas, mecanismos, aparelhos? Eu sou eu, ou eu sou apenas uma camada superficial de tinta que esconde outra coisa? Eu quero estar vivo e ser vivo, ou quero estar aqui e agora? Serão contraditórios os termos viver e sobreviver ou complementaram-se? Existirá uma palavra que descreva de verdade a nossa razão de ser? Sou um robot, um relógio analógico que diz ao mundo, quando este pergunta, quantos anos passaram desde que o mundo nasceu. Pois que provas tenho eu que o mundo nasceu antes de mim? O mundo existe apenas na minha cabeça, o mundo existe apenas na minha mente, o universo inteiro é nada mais do que um berlinde perdido nos meus pensamentos. Eu nasci e ao nascer dei à luz um universo, onde cresço, como, amo e morrerei. E quando a luz da minha vida se apagar, também os milhares de milhões de sois se irão apagar nos céus, e o meu filho, universo, morrerá comigo.

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