quero limpar-me da poesia,
livrar-me dela,
não a ver mais.
Poesia doí cá dentro,
empurra e quer sair,
explode-me o cérebro
se não lhe fizer a vontade.
Atraso,
tanto quanto posso,
a cama.
dormir,
que bem que me sabia,
não quero.
O sono trás-me amanhã,
e o hoje chegou-me.
Não quero mais,
não quero ontem,
não quero amanhã.
Mas quero o dia depois disso,
o dia que ainda não nasceu,
esse quero-o.
Quero a possibilidade de tudo!
Quero felicidades e tristezas,
mas que sejam futuras,
que por hoje já me chega.
repito-me.
a toda a hora,
escrevo o mesmo poema
vezes e vezes sem conta,
mudo-lhe uma estrofe,
corto-lhe um verso,
adiciono-lhe uma rima,
mas nunca lhe mudo o tema.
Sou velho e burro,
não mudo não aprendo não cresço.
Parado na infância,
de onde não desejo sair.
Cá dentro estamos tão bem!
cá dentro não há guerras,
não há fome ou medo,
não há frio, calor, sede, sono,
cá dentro há apenas paz
e a paz faz-nos tão bem.
Dá-me paz,
e entrego o mundo nas tuas mãos.
Mas a paz é curta,pequena, matreira,
acaba antes mesmo de começar,
porque duvido de tudo,
sou incapaz de aceitar.
Acredito em mim,
mas nem nisso acredito.
Tenho fé em nada.
Tenho fé no nada.
No abraço gentil da noite,
membros de lua cheia
que me envolvem
e aquecem a alma.
Quero ser tudo,
Quero ter tudo,
Quero ver tudo,
Quero tocar,
amar,
odiar,
sentir tudo.
Quero ser um Deus
que olha a terra dos céus
e molda ao seu feitio.
Quero ser uma folha,
que nasce num ramo da árvore
e morre levada pelo vento.
Quero ser um desejo,
que brota na mente de alguém,
e nunca se concretiza.
Enalteço-me como se fosse um Deus.
Canto às nuvens e aos picos das montanhas,
a minha grandeza e o meu poder,
aquilo que me faz ser maior,
o que me dá asas para voar,
para ser menos,
menor,
pequeno.
Sou uma puta de uma migalha,
caída num chão não aspirado
de um quarto de poeta.
Sou uma bosta de uma mosca,
um ponto negro no edredon preto,
de um quarto de poeta.
Sou uma porra de lenço sujo,
usado e atirado para o lixo cheio,
de um quarto de poeta.
Sou a cabra de uma beata,
apagada entre as cinzas do cinzeiro,
de um quarto de um poeta.
Sou tudo isto,
e quero ser mais ainda
pois há coisas que não sou ainda.
Quero ser o sol,
e aquecer-te a pele quando caminhas,
quero ser a lua,
e dançar no céu entre as estrelas,
quero ser o mar,
e fazer amor contigo todo o dia,
quero ser lava,
e escorrer pelas tuas montanhas,
quero ser rio,
e correr nos teus vales.
Quero ser pobre,
e experimentar a fome.
Quero ser rico,
e experimentar o ódio,
Quero ser burro,
e conhecer a tristeza,
ser feliz
e morrer assim.
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