sozinho numa jangada improvisada
andei meses sem fio,
chorando baba e ranho
ao frio.
pareceu-e ver uma ilha onde aportar,
e a ela me dirigi,
e agora estou na alfandega,
revistam-me os bolsos,
mostro papeis e documentos,
mostro tudo o que carregava na jangada,
e dizem-me :
"vamos analisar o seu pedido"
Eu volto à jangada,
e vou olhando a costa
e apaixonando-me pelas suas ravinas,
admirando a sua vegetação,
descobrindo os seus pontos de referencia,
e desejando escalar a rocha íngreme
para chegar ao cume da colina,
e lá construir uma casinha onde viver.
deito-me,
olhando as estrelas e sorrindo :
"um dia, talvez possa entrar.
até lá, vou esperar."
(mas por vezes,
há dias em que salto à água e nado,
contra corrente e maré,
evitando as pedras e rochedos escondidos,
e chego quase lá,
até que me lembro que não posso escalar,
não tenho cordas,
e não poderia viver lá,
se não fosse convidado a entrar)
Espero,
paciente.
a resposta há de chegar,
e espero ainda querer lá morar,
e espero querer ainda mais lá morar,
quando um dia, eventualmente, o dia chegar.
e espero que a ilha me queira,
e espero ser o que a ilha precisa,
e espero tudo,
espero.
(chega rápido dia,
mas não te apresses.)
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